
Campeia no senso comum a ideia de que o mero emprego da técnica seria suficiente para construir novos padrões de civilidade e eficiência na prestação dos serviços públicos. Escapa desse raciocínio simplista o papel que cabe à política na mediação dos conflitos interpessoais e coletivos, sempre acirrados, sobretudo em uma sociedade complexa como a nossa, para a definição do escopo e a modulação do alcance das políticas públicas que constituem o conteúdo fundante do Estado e da sua relação com a sociedade. Momentos de transições políticas, como o que vivenciamos, são propícios para que esse assunto ganhe maior prioridade na agenda pública.
Não é raro, nesse contexto, lermos textos, ouvirmos opiniões e interagirmos em debates, mais ou menos candentes, sobre a necessidade de que a técnica promova uma espécie de assepsia no ambiente político. Essa percepção mascara, todavia, uma visão compartilhada pela maioria de que a política se constitui em um processo negativo, que apenas convalida interesses pessoais ou corporativos de alguns e da sua casta de privilegiados. Se, por um lado, pode-se relativizar esse "entendimento" a partir dos efeitos gerados pela baixíssima qualidade das entregas públicas e da superexposição midiática de escândalos de corrupção na vida política e institucional brasileira, por outro, não se pode ignorar que, diferentemente do que faz crer o imaginário coletivo, o divórcio entre técnica e política, ou da política com a técnica apenas contribui para enfraquecer a função primeira do Estado como instância reguladora das tensões e dos conflitos sociais na democracia. Isso porque no jogo democrático o escanteio da política inviabiliza o gol! Da mesma forma, é claro que a política não deve prescindir da técnica e que a defesa dessa outra perspectiva, não menos simplista, leva ao mesmo (não) lugar.
O trabalho profissional da burocracia de Estado e o daqueles (as) servidores (as) selecionados como cargos de confiança para, com base na Constituição, nas leis e nos limites e possibilidades impostos pela melhor técnica, conduzir os destinos políticos do Estado em direção ao atendimento das necessidades humanas na educação, na saúde, na segurança, na cultura, na assistência social, na infraestrutura, etc. afiguram- -se fundamentais. Técnica e política, política e técnica precisam ser vistas, na verdade, como metades de uma mesma moeda. Técnica sem política é tecnocracia, política sem técnica é demagogia! Por isso, é cada vez mais importante que o Estado possa atrair, por concurso público, os melhores profissionais das várias áreas temáticas e políticas públicas setoriais que forjam a sua governança pública. Negociar com segmentos diversos em cenários com múltiplas agendas e interesses políticos demanda habilidades próprias e competências especializadas para priorizar os serviços públicos de que mais precisa, contraprestando à população a confiança depositada nas urnas.
Não se engane: reconciliar a técnica com a política e a política com a técnica torna-se decisivo para que superemos o espasmo e a tomada de decisões sem qualquer amparo nas evidências dos fatos e da ciência. O problema não é a política, ou as lideranças e instituições que legislam, executam, acusam, defendem e julgam, mas sim a distância que separa o dever normativo do atendimento das pessoas dos recursos e políticas públicas que efetivamente chegam à cidadania. A despeito de necessária, como irmã siamesa da política, a técnica não vive sem esta, assim como esta não respira sem aquela. Do contrário, caminha-se a passos largos para o fim do Estado e da sociedade, pelo menos nos termos que as conhecemos hoje.