Área plantada de trigo cai 30% e canola surge como alternativa entre produtores

Área plantada de trigo cai 30% e canola surge como alternativa entre produtores

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Max Rolim, 37 anos, produtor de canola e trigo

A safra de inverno de 2026 começa a redesenhar o perfil das lavouras no Rio Grande do Sul. Dados da Emater apontam redução de 30% na área cultivada de trigo, principal cultura do período. Em contrapartida, a canola segue em expansão e registra crescimento de 102,64%. Na Região Central, o cenário acompanha a tendência.


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Em Santa Maria, a estimativa é de quase 50 mil hectares cultivados com trigo, com produção prevista de 142 mil toneladas, 36,4% abaixo da registrada na safra anterior. Já a canola deve ocupar mais de 60 mil hectares e alcançar uma produção estimada de 100 mil toneladas. 

Além do trigo, a aveia branca também deve registrar retração nesta safra. A estimativa inicial indica queda de 3% na produção estadual. Em Santa Maria, a cultura deve ocupar 42 mil hectares. Os números refletem mudanças no planejamento das propriedades rurais, influenciadas principalmente pelos custos de produção, pelas condições climáticas e pelas perspectivas de rentabilidade. 

Produção de nabo forrageiroFoto: Vinicius Becker (Diário)


Custos elevados reduzem a atratividade do trigo

Em entrevista ao programa Bom Dia, Cidade! (93.5 FM), o gerente regional da Emater, Guilherme Passamani, explicou a retração na área de trigo nesta safra. Segundo ele, fatores financeiros e meteorológicos têm feito os agricultores mudarem de estratégia:

– Os produtores somam a descapitalização, o alto custo de produção do trigo e a previsão climática para optar por culturas que exigem menor investimento, como a canola.

Produção de canolaFoto: Vinicius Becker (Diário)

Passamani explica que o trigo continua sendo uma das culturas de inverno com maior necessidade de investimento em sementes, fertilizantes e defensivos. Ao mesmo tempo, a previsão de um evento de El Niño mais intenso durante o período de colheita aumenta o risco de perdas, tornando a atividade menos atrativa.

Outro fator que pesa na decisão dos agricultores é o mercado. Segundo a cotação da Cotrisel de quarta-feira (15), a saca de trigo (60 kg) está sendo comercializada na faixa de R$ 63. No mesmo período do ano passado, a commodity era negociada por R$ 73. A diferença de aproximadamente R$ 10 por saca reduz ainda mais a atratividade da cultura.


"Está ficando difícil": o que pensam os agricultores 

Enquanto o trigo perde área, a canola se consolida como uma das principais alternativas para a safra de inverno. Em Itaara, próximo à BR-158, o produtor rural Max Rolim, 37 anos, decidiu apostar na cultura pela primeira vez nesta safra.

Em uma propriedade onde tradicionalmente predominavam soja e trigo, ele reservou 50 hectares da área para experimentar a canola, motivado principalmente pelas perspectivas de mercado.

Max Rolim, 37 anos, produtor de canolaFoto: Vinicius Becker (Diário)

A canola pode ser uma alternativa para continuarmos no campo. Está ficando difícil. Sempre falta canola no mercado e não tem como deixar uma lavoura parada. Precisamos manter a terra produzindo e o maquinário trabalhando.

O agricultor explica que a produtividade da canola é menor, o que exige planejamento para garantir rentabilidade. Ainda assim, considera que a cultura pode representar uma alternativa importante para manter a atividade agrícola em um cenário de margens cada vez mais apertadas.

A cultivar tem como principal destino a indústria de extração de óleo comestível, que abastece os mercados interno e externo é comum encontrar o produto nas prateleiras do estabelecimento. Também é matéria-prima estratégica para o biodiesel, cuja produção em expansão tem impulsionado o cultivo da cultura no Estado.


Professor destaca diversificação e rotação de culturas

Para o agrônomo e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Diego Follman, a expansão da canola une alta rentabilidade aos benefícios da rotação de culturas. Ele ressalta, porém, que a planta não deve substituir o trigo, mas sim trabalhar em sinergia com ele:

– A canola tem hoje um preço superior ao da soja, o que a torna muito atrativa financeiramente. Porém, ela não vem para ocupar o lugar do trigo. Ambas as culturas devem trabalhar juntas no sistema de rotação para diminuir custos e a pressão de doenças.

Enquanto o trigo garante a palhada necessária para o plantio direto, a canola ajuda a quebrar o ciclo de pragas na lavoura. Apesar do avanço na região, o especialista alerta que a transição exige cautela devido a desafios de manejo e comercialização.

Áreas deixadas pelo trigo nem sempre foram ocupadas

Outro dado que chama atenção é que nem toda a área deixada pelo trigo foi ocupada por outras culturas. Segundo levantamento da Emater, aproximadamente 10 mil hectares deixaram de receber grãos nesta safra.

Produção de trigoFoto: Vinicius Becker (Diário)

Conforme relatado por Passamani, parte dessas áreas foi destinada à pecuária, enquanto outras permaneceram vazias devido à dificuldade financeira enfrentada pelos produtores.

A renegociação das dívidas é fundamental para que o produtor recupere sua capacidade de investimento e consiga manter a produção agrícola nos próximos anos.

Segundo ele, sem acesso ao crédito e à recomposição do capital perdido nas últimas safras, há risco de redução ainda maior dos investimentos agrícolas nas próximas temporadas.


Clima ainda traz incertezas para a safra

Neste ano, as culturas de inverno voltam a enfrentar desafios climáticos. O excesso de umidade e as geadas recentes já provocaram danos em parte das lavouras, exigindo manejos rápidos para recuperar o potencial produtivo. O cenário se agrava com a previsão de um El Niño mais intenso durante a colheita – o fenômeno, que aquece as águas do Pacífico Equatorial e altera o regime de chuvas, tem 81% de chance de atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro.

Produção de canolaFoto: Vinicius Becker (Diário)

– O produtor tem que ficar muito atento e ser muito assertivo nos seus manejos, principalmente de fungicidas, porque a pressão de doenças aumenta muito. É fundamental cuidar o momento da aplicação, o produto e a qualidade do trabalho. Por isso, ter uma assistência técnica qualificada acompanhando a lavoura de trigo é indispensável para obter o melhor resultado possível – declara Follman. 

O fantasma do clima não é novidade para o setor. Em anos anteriores, como durante as enchentes históricas de 2024 e as fortes chuvas de 2025, os agricultores também precisaram lidar com o excesso de umidade no solo e a perda de qualidade dos grãos na colheita. 


Comparativo da safra de inverno

Cultura
Área 2025* (ha)
Variação %
Área 2026 (ha)
Aveia branca grãos
393.135
-1,38
387.697
Canola
174.394
102,64
353.397
Trigo
1.166.163
-30,18
814.220
TOTAL
1.765.702
-10,76
1.575.634


Estimativa trigo e canola em Santa Maria

Cultura 
Área estimada (ha)
Produtividade estimada (kg/ha)
Produção estimada (t)
Trigo
49.925
2.852
142.386
Canola 
60.360
1.659
100.137

*Os dados de produtividade (kg/ha) e de produção (t) são projeções iniciais da Emater e estão sujeitos a alterações no decorrer da safra.






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