Foto: Gilberto Ferreira
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 deixaram marcas profundas em Santa Maria. Entre os episódios mais emblemáticos daquele período está a queda da ponte sobre o Arroio Grande, registrada em vídeo no dia 30 de abril, e, um dia depois, o deslizamento de terra na Rua Canário, que resultou em duas mortes. Ao todo, 10 pessoas morreram em Santa Maria e 183 no Rio Grande do Sul.
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Dois anos após a tragédia, relembre os momentos mais críticos em Santa Maria e o que mudou desde então.
Colapso da ponte foi registrado em vídeo
Localizada no km 227 da RSC-287, entre a Vila Figueira e o trevo de acesso a Silveira Martins, a ponte do Arroio Grande cedeu após horas de chuva intensa que já comprometiam a rodovia.
O momento foi registrado pelo ex-vereador e assessor parlamentar Luciano Guerra, que mora em Palma e passava pelo local durante a manhã. Ele conta que a chuva já era forte desde cedo e que decidiu retornar para casa, no início da tarde, após receber informações de que a água começava a cobrir a pista.
– Chovia torrencialmente desde a manhã. Quando chegamos perto da ponte, já tinha uma lâmina de água sobre a pista uns 100 metros depois da ponte e não havia mais condições de passagem – relembra.
Ao tentar retornar, Luciano parou próximo à ponte de Arroio Grande para avisar outros motoristas sobre o risco. Foi nesse momento que percebeu sinais de colapso.
– Eu desci do carro e senti que a pista (da ponte) começou a vibrar. Na cabeceira da ponte, começou a cair o primeiro torrão. Eu disse: “vamos recuar porque a ponte vai desabar”. E comecei a filmar – conta Guerra.
Segundo ele, o desabamento aconteceu em questão de minutos.
– Não deu mais do que dois minutos para acontecer tudo.
As imagens se espalharam rapidamente e foram compartilhadas por veículos de imprensa e pessoas de diferentes partes do mundo, ajudando a alertar outros motoristas e evitar que mais pessoas se aproximassem do local.
Após a queda, a situação da rodovia se transformou em um longo desafio logístico. Inicialmente, o tráfego foi interrompido, e o Exército instalou e liberou para o tráfego na primeira ponte metálica provisória em 31 de maio de 2024. Mas como era de uma só pista, havia sistema de pare e siga, com alternância do fluxo de um lado e outro. Isso provocou longas filas e muitas queixas dos motoristas. Após pressão da comunidade e do Ministério Público, o Exército instalou uma segunda ponte metálica, que entrou em operação em outubro de 2024.
A reconstrução da ponte definitiva começou apenas em setembro de 2025 e trouxe mudanças estruturais, como elevação da pista em dois metros e ampliação da ponte, projetadas para resistir a novos eventos extremos. A liberação da nova estrutura ocorreu apenas em março de 2026, após cinco meses de obras. O custo estimado para manter as pontes metálicas durante quase dois anos foi de cerca de R$ 700 mil, pagos ao Exército pela Defesa Civil Nacional.
– Foram dois anos de muito transtorno para quem depende da rodovia todos os dias – afirma.
Tragédia na Rua Canário deixou duas mortes

Exatamente um dia após a queda da ponte, em 1º de maio de 2024, Santa Maria registrou outra tragédia. Um deslizamento de terra atingiu residências na Rua Canário, no bairro Itararé, na região do Morro Cechella.
O desastre matou mãe e filha: Liane Ulguin da Rocha, de 45 anos, e Emily Ulguin da Rocha, de 17 anos.
Além das mortes, dezenas de famílias foram afetadas e precisaram deixar a área, classificada como de risco muito alto (R4), onde não há condições seguras para habitação, segundo avaliações técnicas da prefeitura.
Desde então, parte dessas famílias passou a ser atendida por programas como aluguel social e compra assistida, enquanto o poder público mantém estudos e ações voltadas à retirada definitiva de moradores de áreas de risco.
Marcas que permanecem
Passados dois anos, os episódios seguem como símbolos de um dos períodos mais difíceis da história recente da cidade. Para quem vive a rotina da região, as consequências ainda são sentidas.
– Tivemos alguns avanços, mas ainda tem muito a melhorar, principalmente em infraestrutura e mobilidade – avalia Guerra.
Enquanto a nova ponte trouxe melhorias na mobilidade da região, o deslizamento reforçou o alerta sobre ocupações em áreas de risco e a necessidade de políticas habitacionais e de prevenção no Estado.
Dois anos depois, a prefeitura divulgou um balanço de que 290 famílias receberam casas definitivas.