Feminicídios chegam a 20 no Estado e impacto no luto mobiliza debate

Arianne Lima e Vitor Zuccolo

Feminicídios chegam a 20 no Estado e impacto no luto mobiliza debate

Foto: TV Cacequi (reprodução)

Comunidade de Cacequi se reuniu como forma de protesto pela morte de Cássia do Nascimento. Este foi o único caso registrado na região central

O Rio Grande do Sul vive um cenário alarmante em 2026. Até o momento, o Estado registra 20 feminicídios nos primeiros dois meses do ano. Segundo a Polícia Civil, a 20ª vítima é Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, moradora de Cachoeirinha, que está desaparecida desde 24 de janeiro.

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Após buscar ajuda, os pais dela, Isail Aguiar, 69 anos, e Dalmira Aguiar, 70 anos, também não foram mais vistos. O principal suspeito do crime é o ex-companheiro de Silvana, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, que está preso temporariamente.


O impacto desse e de outros casos no processo de luto é analisado em entrevista ao Diário pela psicóloga e especialista em relacionamentos e terapia de casal, Milene Flores.

– Quando falamos sobre feminicídio, estamos falando de alguém que foi morto de forma brutal, e isso gera efeitos na forma como o luto será manifestado. A principal diferença nesse tipo de processo de luto é o desejo de justiça e a culpa vinda do “e se eu tivesse feito algo?”. Por isso, precisamos lembrar que cada membro da família perdeu uma pessoa diferente na mesma (uma mãe, uma filha ou uma irmã) e baseado na sua idade e grau de entendimento, irá manifestar o luto de uma forma. Também podemos falar sobre viver o luto de forma exposta, pois quando estamos falando de casos assim isso gera muita repercussão.

A psicóloga Milene Flores é especialista em relacionamentos e terapia de casalArquivo Pessoal


Milene reforça que o luto em decorrência de mortes violentas é mais complexo e prolongado do que outros tipos de processos, nos quais os familiares, amigos e comunidade têm tempo para se preparar para a perda.

Embora possa haver sinais, os feminicídios acontecem de uma hora para outra e são crimes carregados de muita violência, o que dificulta principalmente para os pais da vítima passar por esse processo. Isso sem contar que a mídia, internet, vizinhos e amigos que tomam conhecimento sobre o caso querem emitir sua opinião e muitas vezes, acabam por fazer comentários invasivos e dolorosos. Sabemos que o meio externo influencia muito nesse momento de luto e cada um vai responder de uma maneira. Apesar do luto ser estudado em fases (perda, aceitação, negação, raiva e tristeza), na vida real ele não é tão “certinho” assim. Nesses casos, o acompanhamento psiquiátrico e psicológico é a ponte que traz um pouco mais de conforto para a família – afirma.

Recomeço
Ao terem as vidas ceifadas pela violência doméstica, as vítimas de feminicídio deixaram filhos, netos, irmãos, pais e amigos. Segundo a psicóloga, o luto tem início, mas não no prazo final. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais descreve o luto como prolongado em adultos, quando ele ultrapassa 12 meses. Entretanto, Milene relembra que o processo pode variar entre pessoas:

– O luto de nenhuma morte tem um prazo final. Ele tem início, mas como vai ser vivido e por quanto tempo vai durar dependerá muito da pessoa. A dor de perder alguém não pode ser fracionada somente em um tempo cronológico, mas sim em tudo que foi vivido com ela. Neste processo, alguns sintomas podem dificultar a retomada da rotina de quem fica como a dificuldade de aceitar a morte, o sentimento de que parte de si morreu, a evitação de lembranças, a dor emocional intensa e a sensação de vazio ou falta de sentido.

A psicóloga comenta que a comunidade no qual o crime ocorreu também pode ser solidária ao processo de luto, que também envolverá a busca por justiça.

– A comunidade pode, conforme a família for dando espaço, ofertar os auxílios necessários como profissionais da saúde mental, direito, entre outros serviços que ajudem aqueles familiares. Nesses casos, é muito comum ouvir que a família só irá descansar quando a justiça for feita e no Brasil, isso pode levar um tempo. Em alguns casos, mesmo após a condenação, o descanso absoluto não vem. Isso ocorre porque justiça jurídica não é o mesmo que reparação emocional e ter essa consciência é importante. Algumas pessoas conseguem transformar a dor em ações significativas, como trabalhos para a comunidade ou projetos de prevenção à violência. Outras podem levar mais tempo, ou até não encontrar formas de ressignificação. É essencial respeitar o ritmo de cada um e validar todas as formas de vivenciar o luto – conclui MIlene.

Quem são as 20 vítimas

1 – Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte
A bombeira civil Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, 31 anos, foi a primeira vítima de feminicídio no Rio Grande do Sul em 3 de janeiro. O crime ocorreu dentro da residência da vítima, em Guaíba, na Região Metropolitana. Ela foi atingida por sete golpes de faca. Deixa um filho de dez anos. O companheiro, de 44 anos, teve a prisão preventiva decretada.
2 – Letícia Foster Rodrigues
Letícia Foster Rodrigues, 37 anos, foi localizada morta em uma lavoura de soja no dia 13 de janeiro, no primeiro distrito de Canguçu. O corpo apresentava corte no pescoço. Um homem de 36 anos, companheiro da vítima, foi preso. O casal tinha um filho de quatro anos.
3 – Marinês Teresinha Schneider
Marinês Teresinha Schneider, 54 anos, morreu após ser atingida por disparos de revólver em 18 de janeiro, em Santa Rosa. Segundo a Polícia Civil, o ex-companheiro, de 57 anos, invadiu o imóvel e efetuou os tiros. Ele se apresentou à Delegacia da Mulher no dia seguinte.
4 – Josiane Natel Alves
Josiane Natel Alves, 32 anos, sofreu nove facadas em 18 de janeiro, no bairro Campo Novo, zona Sul de Porto Alegre. A filha de 14 anos presenciou o crime. Josiane também deixa outros dois filhos. O ex-companheiro, de 29 anos, foi preso em flagrante.
5 – Paula Gabriela Torres Pereira
Paula Gabriela Torres Pereira, 39 anos, foi atacada com faca em uma parada de ônibus no bairro Chapéu do Sol, em 19 de janeiro. O ex-companheiro, de 50 anos, foi preso. Eles disputavam judicialmente a guarda da filha de cinco anos. Paula deixa ainda duas filhas, de 12 e 15 anos.
6 – Mirella dos Santos da Silva
Mirella dos Santos da Silva, 15 anos, foi morta a facadas em 20 de janeiro, no bairro Cohab, em Sapucaia do Sul. O namorado, de 25 anos, acabou preso em flagrante.
7 – Uliana Teresinha Fagundes
Uliana Teresinha Fagundes, 59 anos, foi assassinada a tiros em 20 de janeiro, em Muitos Capões. O companheiro, também de 59 anos, fugiu após o crime e não havia sido localizado até a publicação.
8 – Karizele Oliveira Senna
Karizele Oliveira Senna, 30 anos, morreu após ser esfaqueada na madrugada de 24 de janeiro, em Novo Hamburgo. Natural de Butiá, ela teve o crime presenciado pelas duas filhas — uma de 12 anos e um bebê de oito meses. O companheiro, de 31 anos, se apresentou à polícia após período foragido.
9 – Leila Raquel Camargo Feltrin
Leila, 25 anos, foi morta pelo companheiro após sequência de agressões na madrugada de 25 de janeiro, no bairro São Francisco, em Tramandaí. Moradores acionaram a Brigada Militar devido à discussão. O suspeito tentou escapar pulando muros, mas foi capturado. Ela deixa dois filhos.
10 – Paula Gomes Gonhi
Paula, 44 anos, foi assassinada com golpes de faca dentro da própria casa, em Santa Cruz do Sul. O companheiro, de 31 anos, foi preso em flagrante. Um filho da vítima, de 17 anos, acompanhou a ocorrência. 


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11 – Marlei de Fátima Froelick
Marlei, 53 anos, morreu em 30 de janeiro após ser baleada em Novo Barreiro. O ex-companheiro, de 57 anos, é apontado como autor. O ataque ocorreu na Linha Jogareta. Ela estava com familiares em um carro e foi atingida ao abrir o portão do sítio. O suspeito teria aguardado escondido.
12 – Ianca Diniz Soares
Ianca foi encontrada sem vida dentro da residência em São Francisco de Paula. Apresentava ferimentos causados por objeto perfurocortante. A Polícia Civil trata o caso como feminicídio. Perícia foi realizada pelo Instituto-Geral de Perícias.
13 – Juliane Cristine Schuster
Juliane, 30 anos, foi baleada na Rua das Flores, no interior de Santa Clara do Sul. O corpo foi localizado em um banheiro. O atual companheiro segue internado em estado grave no Hospital Bruno Born, em Lajeado. O ex-marido, Fabiano Luís Fleck, também foi atingido e ficou sob uma caminhonete Volkswagen Amarok. O autor seria outro ex-namorado.
14 – Tereza de Jesus Trindade da Silva
Tereza, 49 anos, morreu após dias hospitalizada em Roque Gonzales. Ela havia sido atingida por tiros no rosto e no braço. O companheiro é o principal suspeito e está preso. Outro homem também é investigado.
15 – Cláudia Rosane Casseres da Cunha
Servidora municipal em Maçambará, Cláudia foi encontrada morta em casa após colegas estranharem sua ausência no trabalho. O corpo tinha lesões na cabeça e na boca. O companheiro fugiu, mas acabou preso em um hotel em São Borja.
16 – Cássia Nascimento
Cássia foi morta a tiros pelo ex-companheiro horas depois de registrar ocorrência e solicitar medida protetiva. O homem havia sido intimado, mas descumpriu a ordem judicial.
17 – Roseli Vanda Pires Albuquerque
A ex-vereadora e diretora-administrativa da Secretaria de Esporte e Lazer do Estado foi morta no apartamento onde morava. O ex-marido, Ari Albuquerque, também encontrado morto, o caso é investigado.
18 – Glai Maria da Costa Conceição
Glai teria sido morta a pauladas dentro da residência, conforme familiar relatou à Brigada Militar. Em 2025, houve 80 investigações do mesmo crime.

19 – Miriane Lacerda Vieira 
Caso registrado em 23 de fevereiro., Miriane, foi morta a facadas pela sua companheira, em Ijuí. A companheira da vítima, 29 anos, foi encontrada com ferimentos no abdômen. Não havia registros anteriores de violência doméstica envolvendo o casal.

20 – Silvana Germann de Aguiar

Ela está desaparecida desde o dia 24 de janeiro,. Em um primeiro momento, o caso havia sido registrado como desaparecimento, mas após investigações, houve a mudança para faminicídio por conta das evidências sobre o caso.O suspeito é o ex-companheiro de Silvana, Cristiano Domingues Francisco, preso temporariamente por suspeita de envolvimento no crime

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