Programa Jogo de Cintura debate sobre masculinidade e violência doméstica em edição especial

Onde estão os homens que lutam pelas mulheres? A pergunta deu o tom à edição especial do programa Jogo de Cintura, que foi ao ar na quinta-feira (9). Em formato inédito, a bancada foi ocupada exclusivamente por homens que fazem parte da rede de enfrentamento à violência doméstica. 

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Sob apresentação da jornalista Fabiana Sparremberger, a conversa reuniu o juiz titular do Juizado da Violência Doméstica, Rafael Pagnon Cunha; o psicólogo e doutorando Tarciano Barcelos; o soldado da Brigada Militar e integrante da Patrulha Maria da Penha, Maiquel Batista; e o escrivão e chefe de investigação da Delegacia da Mulher (DEAM), Leonardo Trevisan. Juntos, eles compartilharam as dores e os desafios de quem atua na linha de frente da rede de proteção no município.

Descontrução

Para os convidados, a atuação na área não foi apenas uma designação burocrática, mas uma resposta a lacunas observadas na sociedade. O psicólogo Tarciano Barcelos estuda sobre o discurso "Red Pill", que é utilizado por homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que mulheres os manipulam. Segundo ele, o fenômeno influencia jovens nas redes sociais. Sobre isso, ele reforçou a necessidade de os homens assumirem responsabilidades perante essa mudança social: 

É um movimento de resistir ao patriarcalismo e nos responsabilizarmos, servindo de amparo e referência para os próximos que virão. 

Essa postura também aparece na trajetória do soldado Maiquel Batista. Atuando na Patrulha Maria da Penha desde 2020, ele relembra que cresceu em um contexto onde a violência doméstica era frequente e naturalizada:

Eu me criei em uma localidade onde os índices eram altos, mas não eram vistos como violência. Procurei estar na Patrulha para estar perto dessas pessoas e tentar ajudar – relatou o militar, que hoje realiza visitas contínuas para fiscalizar medidas protetivas. 

Diferente dos colegas, o juiz Rafael Pagnon Cunha confessou que, no início da carreira, dava "pouca bola" para a causa. O motivo era o reflexo de sua própria bolha: cresceu cercado por mulheres fortes, livres e independentes, o que o fazia acreditar que a violência doméstica era uma realidade distante. 

No entanto, o cotidiano no balcão do fórum rompeu essa percepção, revelando a "pedagogia da posse" – uma herança cultural de dominação masculina ensinada silenciosamente de geração em geração. 

Vivências

Mais do que procedimentos padrões, o que sustenta o trabalho desses homens são as histórias que cruzam seus caminhos. Na Delegacia da Mulher há 12 anos, Leonardo Trevisan aprendeu a ler os sinais que o machismo tenta esconder. Ele recorda o caso de uma senhora de 70 anos que, após criar todos os filhos, buscou a polícia pela primeira vez:

– Desde a lua de mel, por 30 anos, ela apanhava todo dia do marido. Ela suportou tudo para criar e encaminhar os filhos. No dia em que o caçula se formou, ela sentiu que sua missão fora cumprida e que finalmente poderia viver para si.   

A vulnerabilidade econômica também surge como uma grade invisível que impede o rompimento do ciclo. O soldado Maiquel Batista relembrou o desespero de uma mãe de quatro filhos que tentou retirar uma medida protetiva perto do Natal. O motivo não era o perdão, mas a sobrevivência:

Ela preferia apanhar e ver os filhos terem comida do que se separar e vê-los passar fome. Ela disse: "sou sozinha. Não sei ler nem escrever. Como vou me manter?". É o momento em que a autoridade precisa, acima de tudo, acolher.  

Avanços

Apesar da importância das medidas repressivas, os quatro participantes foram unânimes ao afirmar que o enfrentamento à violência doméstica passa, necessariamente, pela prevenção. O avanço depende de estratégias que rompam o ciclo antes que ele se torne fatal, como os grupos de reflexão para agressores – projeto que Rafael Pagnon Cunha coordena para combater a reincidência – e o fortalecimento de uma rede de apoio que conecte a justiça diretamente à comunidade. 

Ao final do programa, o aspecto técnico das profissões deu lugar à reverência pessoal. Em um momento de resgate emocional, os convidados relembraram as trajetórias das mulheres que moldaram seus caráteres: mães, avós, irmãs e professoras cujas vidas foram marcadas pela resistência silenciosa ou pelo posicionamento firme. 

A referência demonstra não só a admiração pelas que os antecederam, mas o compromisso com as que virão, refletido no desejo de que o amanhã seja diferente para quem ainda vai crescer:

Eu não quero que minha filha de 9 anos sofra qualquer tipo de violência. Também por ela, é o meu trabalho. Para a justiça ser humana, nós precisamos nos permitir ser humanos e ir além do protocolo – concluiu o magistrado, Rafael Pagnon Cunha.


Feminicídios no Rio Grande do Sul

O debate ocorre em um contexto preocupante. Até o momento, o Estado já contabiliza 27 feminicídios em 2026. Nesta semana, dois casos foram registrados em um intervalo de menos de 24 horas, entre a noite de segunda (6) e a manhã de terça-feira (7), nos municípios de Novo Hamburgo e Parobé. 


Como pedir ajuda:

Delegacia Online

Para registros de ocorrências e pedidos de medidas protetivas acesse o site https://www.delegaciaonline.rs.gov.br 


Centro de Referência da Mulher (CRM)

  • Onde: Rua Tuiuti, 1.835, Centro
  • Quando: Segunda a sexta, das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h
  • Informação:Telefone (55) 3174-1519 / WhatsApp (55) 99139-4971
  • E-mail: [email protected]  


Defensoria Pública de Santa Maria

  • Endereço: Alameda Montevideo, 308, Sala 101, Nossa Senhora das Dores
  • Quando: Segunda a sexta, meio-dia às 18h
  • Telefone: (55) 3218-1032 e 129
  • E-mail: [email protected]
  • Em casos de emergência, disque 180 ou acione a Brigada Militar pelo 190


Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA)

  • Onde: Avenida Nossa Senhora Medianeira, 91, Bairro Medianeira
  • Quando: 24 horas.
  • Telefone: (55) 3174-2225 ou 190


Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam)

  • Onde: Rua Duque de Caxias, 1.159, Centro
  • Quando: Segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h
  • Telefone: (55) 3174-2252 ou (55) 98423-2339


Rede de apoio

  • Central de Atendimento à Mulher: 180
  • Centro Integrado de Operações de Segurança Pública de Santa Maria (Ciosp): 153


Confira o programa completo:

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