Foto: Vinicius Becker (Diário)
Em um mês marcado pelo reconhecimento às pioneiras do futebol feminino, Santa Maria vive mais um momento histórico dentro das quatro linhas. Em abril, a Câmara de Vereadores homenageou mulheres que ajudaram a construir a modalidade na cidade e, agora, esse legado ganha continuidade com a criação da 1ª Copa Afuvesma de Futebol Feminino Veterano.
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Pela primeira vez, o município terá uma competição oficial voltada a jogadoras a partir dos 35 anos. A iniciativa reúne seis equipes e, além de inédita na cidade, é apontada por envolvidas e pela gestão do campeonato como uma das primeiras experiências do tipo no Rio Grande do Sul.
A abertura simbólica do torneio ocorreu na quinta-feira (16), no Sesi Santa Maria, com a partida festiva entre Carol e Coroas da Bola/Esportivo, equipes diretamente ligadas à construção da competição. Dentro de campo, o Carol venceu por 6 a 1, e o jogo teve transmissão de três emissoras. Para acompanhar a simbologia, a arbitragem foi formada inteiramente por mulheres: Andriéle Cremonte (árbitra), Shaiane Sartori (assistente) e Josiane Diesel (assistente).
Pontapé inicial: seis times e projeção de crescimento
Nesta primeira edição, seis equipes disputam o título: Coroas da Bola/Esportivo, Associação dos Funcionários da Expresso Medianeira (AFEM), Arroio Grande, Carol, Cerro Azul e Resenha. Segundo o presidente da Afuvesma, José Mauro Machado, o número é considerado positivo para uma estreia e já indica potencial de expansão.
– Para início, é fantástico, eu vejo pela categoria 70+ que iniciamos só com quatro times no masculino. Aqui já tivemos interesse de 10 equipes, seis acabaram confirmando, e acredito que no segundo semestre esse número pode crescer – afirma.
A competição faz parte de um universo maior dentro do futebol amador de Santa Maria. Ao todo, 88 equipes participam dos campeonatos organizados pela Afuvesma, distribuídas entre diversas categorias masculinas, que vão dos 35 aos 70 anos, além da inclusão inédita do feminino veterano.
– O futebol feminino tem crescido muito, com mais visibilidade, e o pessoal está se organizando cada vez mais. É um movimento natural e muito bem-vindo – destaca o presidente.
A rodada de abertura começou na quinta-feira (16) e segue com jogos ao longo do fim de semana. As partidas da categoria feminina ocorrem, em geral, aos domingos à tarde, em diferentes campos da cidade.
A primeira fase se estende até junho, ao longo de 10 rodadas, com todas as equipes se enfrentando. As quatro melhores avançam para o mata-mata.
As inscrições para esta edição já foram encerradas, mas a organização prevê novas competições ainda em 2026, incluindo um torneio no segundo semestre e a Copa Verão.
Primeiro tempo: “Chance de voltar”
Se hoje a bola rola oficialmente, é porque antes houve insistência. A capitã do Carol, Marisa Tomazetti Michelotti, 56 anos, conta que a ideia de um campeonato veterano não surgiu de forma imediata, e que, por muito tempo, ficou apenas no campo das tentativas.
Equipe tradicional do futebol feminino de Santa Maria, o Carol completa em maio 32 anos de atuação ininterrupta na cidade. O time nasceu da fusão entre atletas de Camobi e do Centro, que adotaram o nome de um "cachorrão" da época: o Carol Lanches. O primeiro escudo trazia um curioso "Xis" em formato de bola. Com o tempo, o lanche fechou, mas a equipe simplificou o nome e consolidou uma trajetória dentro dos gramados.
– Não havia mobilização para campeonato veterano. Falávamos em torneios, eventos, mas não avançava. Aí surgiu a ideia de fazer uma partida piloto (em homenagem à Tuca), para ver se teria adesão. Foi a partir disso que as outras equipes começaram a entrar na ideia – relembra.
A criação da categoria também atende a uma lacuna histórica. Para muitas atletas, o futebol competitivo simplesmente deixava de existir com o passar da idade.
– É um grande marco para nós mulheres que estamos no futebol há anos. Eu tenho 56 anos e, na categoria livre, já não tenho mais oportunidade de jogar. Para mim e para muitas mulheres, é um grande evento. É uma chance de voltar – destaca.
Segundo tempo: “Resgate da mulher madura”

Responsável pelo Coroas da Bola/Esportivo, Cleonice Antônio, a Cléo “Baixinha”, 57 anos, vê a competição como um movimento de retomada.
– A importância do futebol veterano nesse momento é o resgate da mulher madura, da valorização da jogadora. Muitas que estão voltando foram grandes atletas e pararam por conta da idade – afirma.
A ideia de formar a equipe surgiu justamente a partir dessa percepção e também de episódios de preconceito dentro do próprio futebol.
– Eu ouvi da torcida chamarem uma jogadora minha de 42 anos de “velha”, dizendo que tinha que cuidar dos netos. Aquilo me deixou muito triste. Saí de campo e disse: vamos formar um time de veteranas – relembra.
A mobilização começou de forma simples, com convites e publicações nas redes sociais, e rapidamente encontrou resposta.
– Tem também quem nunca jogou e quer começar agora. Nunca é tarde. Esse espaço vai acolher essas mulheres – diz.
Escalação das equipes
Se engana quem pensa que o primeiro rolar da bola foi na noite de quinta-feira. Apesar da estreia oficial da copa, o movimento do futebol feminino veterano na cidade começou antes e, em parte, de forma quase casual.
Responsável pelo Coroas da Bola/Esportivo, Cléo conta que a ideia do campeonato surgiu a partir de uma conversa informal com o presidente da Afuvesma José Mauro.
— Um dia, em conversa, o meu marido comentou que eu estava montando um time de veteranas. Aí ele disse que era exatamente isso que estavam pensando também, em fazer um campeonato de mulheres veteranas — relembra.
Cléo também menciona Luciana Correia, a Lu, capitã da equipe das Coroas, como uma grande ajuda para montar os times femininos. A partir daí, a proposta ganhou forma e passou a envolver outras equipes da cidade.
— Eles nos convidaram, junto com o time Coroas da Bola, para fazer um jogo piloto. Se desse certo, sairia o campeonato. E deu certo — recorda também Marisa.
A partida experimental ocorreu em 13 de janeiro, no mesmo campo do Sesi, e marcou oficialmente o início do futebol feminino veterano em Santa Maria. O jogo também homenageou Maria Aparecida Marinho, a Tuca, símbolo da trajetória das mulheres no esporte local.
Pioneira, atleta e dirigente por décadas, Tuca fez parte da equipe Força Índia, do Grêmio Atlético Imembuy, primeiro time feminino de futebol de campo da cidade, fundado em 1978. Também atuou em clubes como Inter-SM e Riograndense, ajudando a consolidar a presença das mulheres nos gramados.
Arquibancada aberta para novas histórias
Marisa e Cléo acreditam que o campeonato é apenas o "pontapé inicial" de uma realidade que veio para ficar. A “Baixinha” reforça que, se o masculino possui categorias que chegam aos 70 anos, as mulheres também devem ter esse direito à longevidade esportiva.
– Todo mundo fala que a mulher pode estar onde ela quiser, mas ninguém tinha pensado que mulheres de 40, 50 ou 60 anos poderiam estar em campo.Meu sonho é que tenhamos as mesmas categorias deles no futuro; eu vou viver para ver isso – projeta a dirigente.
Mais do que um torneio, o momento é visto como uma vitrine para encorajar quem nunca teve a chance de calçar as chuteiras. A expectativa é que, com a visibilidade da Copa, a demanda cresça e novas equipes surjam, acolhendo tanto as craques do passado quanto aquelas que desejam começar agora.
– Nunca é tarde para iniciar. Esse movimento representa a nossa valorização como mulheres e como seres humanos – finaliza Cléo.
É possível acompanhar os resultados e estatística da Copa por meio do site da Afuvesma e também das redes sociais do campeonato.