Nos últimos meses, os Pronto-Atendimentos de Santa Maria tem registrado mais de 3 mil atendimentos pediátricos. Apesar do alto número, o índice não reflete nem soluciona a totalidade desta demanda, que vem crescendo ainda mais com o agravamento de síndromes respiratórias em crianças e adolescentes durante o outono e inverno.
Apesar da situação não ser exclusivamente de Santa Maria, no contexto atual, menos de 30 pediatras atendem nestes locais no município. O quantitativo diminui mais quando se fala da presença desses profissionais em unidades de saúde.
Na terça-feira, uma idosa de 67 anos levou a neta de 8 meses em duas postos de Saúde do Bairro Itararé. Ela relata não ter conseguido atendimento com um pediatra. Diferente desta moradora, na quarta-feira de tarde, a confeiteira Leila Ramos de Freitas, 43, conseguiu uma consulta com uma profissional da UBS Dr. Floriano Rocha para o filho, Arthur, de apenas 7 anos.
Por questões que vão além da sorte, pais, mães e familiares tem se perguntado se faltam pediatras no Sistema Único de Saúde (SUS) e caso não, onde estão os profissionais que foram contratados para dar assistência médica a crianças e adolescentes.
Uma das justificativas dadas pela Secretaria de Saúde para as situações enfrentadas acima é a indisponibilidade de profissionais no mercado, o que dificulta o fechamento de escalas e consequentemente, a assistência a todos que procuram esses serviços. Entretanto, parece haver uma lacuna neste processo, uma vez que no meio acadêmico os índices de formação ainda são altos.
Nesta reportagem, saiba quais são as precauções que estão sendo tomadas pela prefeitura para resolver a situação do Pronto-Atendimento Municipal (PAM), como funciona a pediatria nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Estratégias de Saúde da Família (ESFs), além de como funciona o processo de formação deste especialista.
PRONTOS-ATENDIMENTOS
Em Santa Maria, os atendimentos pediátricos urgentes são realizados no Pronto-Atendimento Municipal, no Bairro Patronato e na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24h, no Bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Apesar de ser uma unidade de urgência e emergência, o Pronto-Atendimento Ruben Noal, no Bairro Tancredo Neves, não conta com ala infantil.
Para atender este público, o PA do Patronato conta com 12 pediatras. Já a UPA, que é gestionada pelo Associação Franciscana de Assistência a Saúde (Sefas), contabiliza 15 especialistas. Só de assistência pediátrica nos últimos três meses, a Unidade de Pronto-Atendimento 24h registrou um total de 2.988 atendimentos. No mesmo período, a demanda no Pronto-Atendimento Municipal quase triplicou, resultando em 8.332 atendimentos.
Pronto Atendimento Municipal (PAM)
12 pediatrasTotal de 8.332 atendimentos de abril até 13 de junho
Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24h
15 pediatras2.988 atendimentos pediátricos até 13 de junho
No dia 24 de maio, a Câmara de Vereadores de Santa Maria aprovou, com unanimidade, a contratação de cinco pediatras para suprir a falta desses profissionais nas escalas do Pronto-Atendimento Municipal. No início de junho, um edital foi publicado pela prefeitura com maiores informações sobre a contratação.
Conforme o documento, o contrato é de 360 dias e o selecionado terá que cumprir a carga horária de 20 horas semanais, recebendo um salário bruto de R$ 8,7 mil, vale alimentação e vale transporte. A secretária adjunta de Saúde, Ana Paula Seerig, comenta sobre o cenário e o edital de contratação, que encerrou as inscrições no último dia 11:
–Tem dias e turnos que de fato temos bastante dificuldade. Os outros serviços de urgência e emergência que tem pediatria também passam pelas mesmas dificuldades, porque os pediatras são praticamente os mesmos que transitam por esses serviços, sejam eles no público ou no privado. Esse processo seletivo nós fizemos com o objetivo de abrir cinco vagas e tivemos somente duas inscrições homologadas. Vamos ter a inserção nos próximos dias, o que vai nos ajudar a dar uma reforçada na equipe.
Apesar de não citar qual seria o número ideal de pediatras para atuar nas unidades de urgências e emergências de Santa Maria, Ana Paula relata que a necessidade de mais profissionais já era observada pela secretária. O cenário se agrava quando se fala ainda sobre o aumento dos atendimento pediátricos decorrente de síndromes respiratórias agudas.
–Nós fizemos vários movimentos e de fato, o que vemos é que temos um número insuficiente de profissionais para dar conta de todas as demandas oferecidas ou todas as demandas de serviço do município tanto clinico quanto nas questões de urgência e emergência. É importante ressaltar que neste período em que está a recém começando o inverno, normalmente, há um aumento do número de atendimentos sobretudo nos serviços de urgência e emergência. Vimos no mês de maio, um leve aumento se comparado com abril. Deve ter dado 10 ou 20%. Então, pela sazonalidade e questão climática, isso vem dentro da normalidade. Mas certamente, sobrecarrega mais ainda os serviços que já estão com um número de profissionais que não seria o ideal.
Visando preencher as vagas restantes, um novo edital deve publicado na próxima segunda-feira. A expectativa é de que os profissionais selecionados começassem a trabalhar no dia 27 de junho.
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UNIDADES DE SAÚDE
Longe das situações de urgência e emergência, os atendimentos pediátricos ocorrem também em Unidades Básicas de Saúde e Estratégias de Saúde da Família. Conforme a secretaria Ana Paula Seerig, o pediatra é um especialista que não faz parte da formação básica das equipes de saúde, sendo um profissional que orienta e é solicitado por referenciamento nas regiões.
Inclusive, por conta dessa condição, o número de profissionais em circulação é menor. Consequente, das 33 unidades de saúde do município, apenas sete contam com turnos deste profissional semanalmente. São eles: Policlínica Wilson Paulo Noal, UBS Ruben Noal, UBS Dr. Floriano Rocha, UBS Dom Antônio Reis, UBS Waldir Aita Mozzaquatro, UBS Oneyde de Carvalho e Policlínica José Erasmo Crossetti.
–Essas unidades que tem esses atendimentos não contam só servidores como também com profissionais que conseguimos com o Consórcio Municipal de Saúde e eles vem para dar suporte para aquelas situações em que o clínico, o médico da família na comunidade precisa. Então, é nessa lógica que realizamos esse trabalho – afirma Ana Paula.
A gestora adjunta da pasta ainda reforça que a lógica da Atenção Básica é a de que o paciente seja atendido pelo médico clínico da unidade escolhida, sendo referenciado quando necessário ao pediatra:
–Estamos trabalhando junto com a Superintendência de Atenção Primária, no sentido de que possamos primeiro fazer a avaliação com profissional de referência e caso ele precise de um suporte do outro colega, que possa ser referenciado, porque não são serviços, a principio, no sentido de ‘porta aberta’. Não adianta as pessoas correm atrás de um profissional indo de unidade em unidade, até porque não é essa a lógica. Procuramos sempre referenciar na unidade mais próxima e por nessa unidade, o pessoal vai fazer a avaliação inicial desse paciente e irá dizer se há ou não necessidade desse encaminhamento.
Nos últimos cinco meses, as sete unidades de saúde realizaram 2.455 atendimentos pediátricos. Além deste quantitativo, veja quais são os dias e turnos que as unidades de saúde de Santa Maria contam com a presença de um pediatra:
Wilson Paulo Noal
Quando – De segunda a sexta-feira (manhã)Onde – Rua Reinaldo Manoel Guidolin, 130, no Bairro CamobiTelefone – (55) 3286-2457
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 911
Janeiro – 129Fevereiro – 158Março – 180Abril – 196Maio – 248
Ruben Noal
Quando – Nas segunda-feiras (manhã)Onde – Avenida Paulo Lauda, 80 Cohab, no Bairro Tancredo NevesTelefone – (55) 3214-1006
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 153
Janeiro – 31Fevereiro – 21Março – 32Abril – 29Maio – 40
Dr. Floriano Rocha
Quando – Nas terça-feiras (tarde), quarta-feiras (tarde), quinta-feiras (tarde) e sexta-feiras (manhã)Onde – Rua Doutor Paulo da Silva e Souza, 1-149, no Bairro Juscelino KubitschekTelefone – (55) 3212-1222
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 444
Janeiro – 68Fevereiro – 94Março – 115Abril – 66Maio – 101
Dom Antônio Reis
Quando – Nas terça-feiras (manhã e tarde) e quinta-feiras (manhã)Onde – Rua Isidoro Grassi, 277-347, no Bairro Nossa Senhora MedianeiraTelefone – (55) 3223-5588
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 398
Janeiro – 71Fevereiro – 81Março – 78Abril – 87Maio – 81
Waldir Aita Mozzaquatro
Quando – Nas quarta-feiras (manhã) e sexta-feiras (manhã)Onde – Rua Félix Manarim, s/n, no Bairro Presidente João GoulartTelefone – (55) 3223-6608
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 245
Janeiro – 48Fevereiro – 51Março – 52Abril – 48Maio – 46
Oneyde de Carvalho
Quando – Nas quinta-feiras (tarde)Onde – Rua Vitório Lorenzi, 91-157, no Bairro LorenziTelefone – (55) 3921-1242
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 169
Janeiro – 36Fevereiro – 31Março – 37Abril – 27Maio – 38
José Erasmo Crossetti
Quando – Nas terças-feiras (tarde) e quarta-feiras (tarde)Onde – Rua Floriano Peixoto, 1.752, no Bairro CentroTelefone – (55) 3921-1097
Número total de atendimentos por médico pediatra nos últimos cinco meses – 135
Janeiro – 3Fevereiro – 31Março – 44Abril – 28Maio – 29
MEIO ACADÊMICO
Para atuar como médico(a) pediatra, o profissional precisa realizar uma especialização na área. Desde 1968, a UFSM, por meio do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), forma médicos residentes em Pediatria. Conforme a médica e supervisora desta residência, Glauce Mariane Bittencourt Mendes, a especialização passou por duas importantes alterações nos últimos anos: o aumento de número de vagas de 10 para 12 residentes por ano e o tempo de duração, que passou de 2 para 3 anos, criando uma lacuna nos últimos dados.
–Durante um ano, não tivemos formandos. Aquela turma que entrou para dois anos, quando passou de R2 para R3. Mas, sempre tivemos o número de vagas completo. Todos os anos, exceto este ano, em que das 12 vagas, 10 ingressaram na residência do Husm – relata Glauce.
Apesar dos relatos de gestores sobre a baixa de pediatras no mercado, a supervisora argumenta que o impacto não é decorrente do meio acadêmico, uma vez que a especialização é a segunda mais ofertada no hospital:
–No Hospital Universitário, a residência de Pediatria é a segunda maior turma. Só perde para Clínica médica, que tem mais vagas. As demais especialidades tem menos vagas anuais do que a residência de Pediatria. Nós temos 12 vagas por ano e se todas essas vagas forem preenchidas durante os três anos de residência, ficaremos com 36 médicos residentes cursando Pediatria no Husm.
No contexto atual, 34 médicos realizam a residência: 10 ingressaram este ano na instituição, 11 são da segunda e 12 estão na última turma, com previsão para se formar em 2023. Na instituição, a formatura dos residentes ocorre sempre no final do mês de fevereiro do ano corrente. Veja o número de médicos formados na residência médica em Pediatria da UFSM nos últimos quatro anos:
2019 – 102020 – 102021 – 0, *Não houve residentes formados neste ano pois ocorreu alteração no tempo de formação dos residentes em pediatria de 2 para 3 anos, conforme determinação da CNRM/MEC.2022 – 11
Glauce reforça que a maior parte dos profissionais formados pela residência no Husm não são do município e acabam optando por realizar a especialização e ir embora. Levando em consideração a cenário atual, ela destaca a importância deste profissional:
–A maioria dos demais profissionais médicos não se sentem aptos tecnicamente para atender crianças. O pediatra tem a formação exatamente voltada a criança e o adolescente. São três anos de residência que eles passam e saem com uma capacidade técnica muito grande de atendimento dessa população, que vai desde o recém-nascido até os 18 anos de idade. Então, é imprescindível que tenha pediatra no parto, nos postos de saúde. Os programas de ESF deveriam ter pelo menos um pediatra por unidade, porque além de ser um atendimento preventivo, é também um atendimento curativo.
MERCADO DE TRABALHO
Atualmente, a Sociedade de pediatras do Estado conta com 3 mil pediatras ativos. Entretanto, Amantéa alerta que este número não representa a totalidade de profissionais existentes em todo o Rio Grande do Sul, uma vez que existem pessoas que atuam na área e não estão vinculadas a entidade. Para entender o cenário atual, Amantéa argumenta sobre uma mudança na lógica do sistema, que já era acompanhada atentamente pela Sociedade de Pediatras do Estado e que ainda precisa ser compreendida pelos gestores:
–Geralmente, quem atuava nesta atividade era pediatras récem formados que iniciavam a carreira e temporariamente atuavam nessas áreas de trabalho. Hoje, a maneira como essas pessoas são contratadas se modificou. Existe quase um ‘leilão’ pela atividade em função da terceirização da saúde em muito locais e as pessoas migram para onde paga mais. Então, hoje, não tem pediatras para quem não quer pagar o que o mercado está pedindo.
Nesta busca, que não é apenas financeira, uma tendência de valorização da formação ganha força com o surgimento de mais opções de trabalho na área de pediatria. Para Amantéa, é preciso considerar que a visão dos jovens pediatras sobre o mercado de trabalho também mudou, não sendo mais imediata a busca por ocupação ou até mesmo, a necessidade do estabelecimento de vinculo empregatício com instituições.
–Existia um desestímulo para atendimento de consultório há alguns anos atrás e hoje, isso se modificou. O pediatra, e vemos isso pela Sociedade, tem aumentado o número de postos de trabalho vinculados a consultórios. Então, o mercado se modifica também na maneira onde a pessoa quer trabalhar. Então, recurso econômico que pague é um fator. Condições de trabalho é outro – relata Amantéa.
Perante a atual conjuntura, o presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul propõe aos gestores que pensem em estratégias para atrair e valorizar o pediatra nos hospitais, prontos-atendimentos e unidades de saúde, criando condições principalmente que não dependam apenas da nova geração:
–Você precisa criar condições para atrair o pediatra que está envolvido em outra atividade para se interessar pela atividade do pronto-atendimento. Até bem pouco tempo, o Pronto-Atendimento era o lugar que dava a pior condição de trabalho e que pior remunerava na estrutura hospitalar. Isso precisou ser revisto. Então, hoje, trabalhar em Pronto-Atendimento de Emergência passou a ser uma atividade mais valorizada sobre o ponto de vista de mercado. As pessoas estão ganhando mais e brigando por condições de trabalho. Coisas que não aconteciam a alguns anos. E isso o gestor institucional ou público desse sistema está vendo como uma novidade e dificuldade. Mas, ele precisa se adaptar – conclui Amantéa, que reitera considerar equivocado o discurso de que não tem pediatras.
por Arianne Lima – [email protected]