Foto: Rian Lacerda (Diário)

A tradição da culinária italiana se consolidou, mais uma vez, como o grande atrativo da 41ª edição do Festival de Inverno da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no distrito de Vale Vêneto, em São João do Polêsine. A gastronomia, servida ao longo de seis noites e dois almoços dominicais, transformou a localidade em um verdadeiro polo gastronômico, atraindo milhares de visitantes a cerca de 50 minutos de Santa Maria. Mas, afinal, por que a comida de Vale Vêneto é tão boa e faz tanto sucesso? Para responder a essa pergunta, a reportagem conversou com os cozinheiros voluntários e com o público presente, buscando entender o que faz as pessoas lotarem os refeitórios ano após ano.
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Neste domingo (2), marcado por sol e temperatura agradável, o cenário não foi diferente. Ao meio-dia e meia, horário de servir o almoço, os dois salões já estavam repletos de visitantes. Para aqueles que não conseguiram se planejar e comprar os ingressos de forma antecipada, restou disputar um lugar nas concorridas filas na tentativa de saborear os pratos típicos. A busca intensa reflete o sucesso da festa e a qualidade de um cardápio tradicional, que no almoço inclui sopa de agnolini, risoto, galeto, churrasco, pão e salada.
O protagonista das noites
Se durante os domingos o churrasco compõe a mesa, durante a semana o lugar é ocupado pelo prato mais famoso e procurado do evento: o bife à milanesa. O responsável por manter o padrão dessa iguaria é Nilton Brondani, 70 anos. Todos os anos, ele lidera a equipe que produz a carne e garante que a técnica seja mantida.
– Temos uma tradição ali de cento e tantos anos, dos primeiros que vieram da Itália e começaram a fazer o bife. A gente tem que fazer com banha de porco, que aí o gosto é diferente do azeite. Quando todo mundo trabalha junto, isso aí sai bom, não tem problema – revela Brondani.
A força-tarefa para alimentar o público exige dedicação intensa. O cozinheiro explica que cerca de 25 voluntários se dividem nas funções de empanar e fritar a carne de forma simultânea. Além dos demais voluntários que ficam responsável por levar os alimentos até as mesas. São quase 100 pessoas trabalhando para que todos sejam atendidos.
– Cada vez que fazemos 250 quilos de carne, dá mais ou menos uns 4.500 bifes cada noite. E vai tudo, não sobra nada – orgulha-se o voluntário.
O segredo do sabor
Quem aguarda ansiosamente pelas refeições também sabe que a comida de Vale Vêneto é especial . A reportagem conversou com o público e com os voluntários para desvendar o tempero que lota os salões a cada edição.
Para a fisioterapeuta Tassiane Brondani, 31 anos, e o engenheiro mecânico Vinicius Pivetta, 36 anos, casal que reside em Santa Maria e possui um restaurante no distrito, a resposta está nas raízes da comunidade.
– É a nossa descendência, a nossa cultura que vem desde os nossos avós, bisavós. É uma tradição, é família. E, principalmente, é o amor – afirma Tassiane.
A professora Claudia Noal, 60 anos, e o administrador Fabian da Da Cás, 62 anos, também saem de Santa Maria todos os anos com destino garantido nos refeitórios do festival. Eles garantem que a repetição do prato é obrigatória.
– A qualidade dos produtos e, também, as panelas devem manter aquele gostinho antigo. Sempre vamos repetir, com a mesma qualidade – elogia Da Cás, enquanto a esposa reforça o peso da ancestralidade no tempero.
Na linha de frente do atendimento, as novas gerações garantem a continuidade do trabalho. A estudante de administração Luiza Costa Gonçalves, 21 anos, trabalha no evento e destaca a hospitalidade local.
– O segredo é a tradição da família, que a gente iniciou há 40 anos praticamente e segue tendo amor e carinho para receber as pessoas. A gente adora trazer as pessoas para cá e poder servi-las com muita atenção, oferecendo um bife e um galeto, que são muito bons – conta a estudante.
A mestranda Luiza Pacheco Pozzebon, 22 anos, que divide a rotina entre a cidade universitária e Vale Vêneto, concorda que o esforço comunitário é o ingrediente principal.
– É todo esse esforço da comunidade, esse amor que a gente coloca no trabalho que faz a comida ser tão especial. O pessoal elogia muito, todo mundo gosta bastante e vem por causa do bife – relata Luiza.
O aposentado Geraldo Defranceschi, 63 anos, faz questão de ressaltar a singularidade da culinária local. Descendente de italianos, ele aponta que, embora as receitas sejam difundidas, o resultado final na localidade é único.
– O bife à milanesa tem uma receita toda especial. O risoto é servido em várias partes da Quarta Colônia, mas esse gostinho de risoto italiano é só aqui em Vale Vêneto – garante Defranceschi.
Domingo foi de encerramento
Além do sucesso nos pavilhões gastronômicos, o domingo marcou o último dia de atividades da 41ª edição do Festival de Inverno, que movimentou a região desde o dia 26 de julho. O encerramento levou milhares de pessoas ao distrito, gerando um fluxo intenso de veículos nas rodovias de acesso à Quarta Colônia, especialmente na ERS-149 e na RSC-287.
A programação de despedida contou com uma missa celebrada integralmente em língua italiana na Igreja Matriz Corpus Christi, acompanhada pelo Coral Santa Cecília, de Faxinal do Soturno. Durante a tarde, a igreja também foi palco de um grande Encontro de Corais.
Embora a organização ainda não tenha fechado os números totais de público até a publicação desta reportagem, o coordenador da Semana Cultural Italiana, Tomas Bortoluzzi, apresentou um balanço que dimensiona a grandiosidade da festa.
– Passamos toda a semana de casa cheia. Nos dois salões, nós servimos 1.500 jantares por noite. Mesmo no dia que teve muita chuva, tudo lotado. Hoje (domingo), chegamos a 1.800, 1.900 almoços. A cozinha, churrasqueira, bilheteria, o bar, tudo agitado, tudo tocando – comemora o coordenador.