Foto: Vinicius Becker (Diário)
O orçamento das famílias santa-marienses têm sentido o peso dos novos reajustes no gás de cozinha. Levantamento realizado ontem pelo Diário em 12 revendas da cidade revelou que o preço do botijão de 13 quilos chega a R$ 138 na modalidade de entrega. Já para quem opta pela retirada direta no balcão, os valores são mais atrativos, partindo de R$ 115. Os dados apontam uma disparidade de R$ 23 entre os extremos da pesquisa.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
O cenário atual contrasta com levantamentos anteriores do Diário. Em julho de 2023, o produto era encontrado por R$ 99 na portaria, enquanto o teto para entrega ficava em R$ 115,90. Em menos de três anos, o preço máximo saltou R$ 22,10 – uma alta acumulada de 19% no período.
A escalada de valores fica ainda mais nítida em uma perspectiva histórica: em março de 2017, a população pagava, em média, R$ 55 pelo gás. Em pouco menos de uma década, o custo mais que dobrou. Atualmente, o Menor Preço – aplicativo desenvolvido pelo governo do Estado – aponta que o botijão chega à marca de R$ 140 em supermercados que comercializam o vale-gás em Santa Maria.
Os motivos da alta
De acordo com o gerente da Pistoia Gás, Patrick Galiza, 46 anos, o cenário atual é reflexo de uma combinação de fatores econômicos. Recentemente, a soma de aumentos repassados às revendas totalizou um acréscimo de R$ 4,58 por botijão. Entre as causas está, por exemplo, o dissídio coletivo da categoria, que ocorreu em abril e garantiu a correção salarial dos trabalhadores do setor.

Além dos fatores internos, o cenário geopolítico global – marcado por tensões no Oriente Médio, como o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã – pressiona o preço do gás no Brasil. Essa instabilidade eleva o valor do petróleo e, consequentemente, dos combustíveis. O impacto direto ocorre no custo do diesel, essencial para o transporte dos botijões.
O impacto do "Gás do Povo"
O mercado local também sofre interferências pelo Gás do Povo, programa federal implantado em novembro de 2025 para substituir o antigo Auxílio Gás. O benefício é destinado a famílias inscritas no CadÚnico e paga, atualmente, R$ 102,38 por beneficiário no Rio Grande do Sul. O montante é calculado com base na média de preços de cada Estado.
Na revenda gerenciada por Galiza, cerca de 400 pessoas utilizam o recurso mensalmente. Embora o benefício seja um alento para as famílias, ele impõe um desafio financeiro aos comerciantes devido às baixas margens de lucro.

– Para a revenda, o impacto não é positivo. O valor que recebemos pelo Gás do Povo é praticamente o nosso preço de custo, somado ao frete e impostos. O lucro é quase zero – revela o gerente.
O subsídio cobre apenas o valor do produto em portaria. Caso o beneficiário não tenha meios de buscar o botijão, precisa pagar a taxa de entrega. Em Santa Maria, esse serviço adicional varia entre R$ 15 e R$ 25, dependendo da distância.
Conforme explica o gerente, embora a empresa não seja obrigada a aderir ao programa e não obtenha vantagem financeira com o credenciamento, a decisão é estratégica. O foco está em consolidar uma base de clientes que permaneça vinculada à revenda mesmo em um eventual encerramento do auxílio governamental.
Efeito gangorra
Para o economista e professor universitário Mateus Frozza, o impacto do aumento é severo porque o gás de cozinha é um item de consumo essencial e sem substitutos próximos. Ele destaca que a dinâmica de mercado no Brasil limita o poder de escolha do cidadão. Frozza confirma, inclusive, a tendência para um “efeito gangorra”:
– Existe o risco. Ocorre um deslocamento ou uma transmissão de preços em desacordo com a medida do governo: acaba-se tirando de um lado para ganhar do outro, o que força um repasse maior para o consumidor que não possui o benefício.
Apesar de medidas anunciadas pelo governo federal para conter a alta, como subsídios para importação, Frozza ressalta que essas ações demoram a chegar à ponta final e, quando chegam, muitas vezes não são suficientes para reverter o acumulado de altas.
O que pensa o consumidor
Na prática, os reflexos da alta do gás de cozinha atingem, principalmente, quem utiliza o produto como ferramenta de trabalho. Para Henrique Dumke Denardin, 27 anos, fundador da 037 Cucaria em Santa Maria, a redução na margem de lucro é inevitável, visto que o gás é um insumo essencial, impossível de ser substituído ou reduzido.
Para tentar conter os danos, o empreendedor foca na otimização de processos e no planejamento rigoroso de compras, mas admite que a falta de previsibilidade dos preços gera insegurança na hora de definir promoções e investimentos.

– O aumento acaba indo para o custo final dos produtos, mas não conseguimos repassar na mesma velocidade para o cliente, pois reajustes frequentes afastam o consumidor. Quando o preço sobe, precisamos compensar em outras áreas e planejar melhor o uso ao longo do mês, porque qualquer variação impacta diretamente no caixa – destaca o empresário.
Atualmente, ele estuda a troca de seu maquinário por um forno com maior capacidade produtiva, buscando assar mais cucas simultaneamente para economizar no consumo.
Estratégias de fidelização
Enquanto o consumidor tenta economizar, as revendas se movimentam para manter o volume de vendas e garantir a fidelidade dos clientes. Os diferenciais variam conforme o bairro, como descontos de R$ 2 ou oferta de brindes para quem opta pela retirada direta.