“Em 2010, eu abri mais de 12 mil pacotinhos”: Seu Ferraz é referência na coleção de figurinhas em Santa Maria e soma sete álbuns de Copa completos

Colaboração de Alexandre La Bella

“Em 2010, eu abri mais de 12 mil pacotinhos”: Seu Ferraz é referência na coleção de figurinhas em Santa Maria e soma sete álbuns de Copa completos

Foto: Vinicius Becker (Diário)

O álbum de figurinhas da Copa do Mundo 2026 foi lançado na quinta-feira (30) e, mesmo a 40 dias da bola rolar no mundial de seleções, a compra de pacotinhos e a troca de cromos já passam a fazer parte da rotina de quem tenta completar o livro. Em Santa Maria, nesse período, um nome costuma ser lembrado entre os colecionadores: Pedro Hugo Ferraz dos Santos, 78 anosSeu Ferraz, como é conhecido, está no mundo dos colecionistas desde 2006completou os álbuns das Copas de 1990, 1994, 2002, 2006, 2010, 2018 e 2022.

+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp

Mas o acervo do militar da reserva do Exército, natural de Cruz Alta, vai além dos mundiais de futebol. Ao longo de duas décadas, ele reuniu 865 álbuns, 262 completos, e centenas de milhares de figurinhas, dos mais diversos esportes e temas.

Foi na Banca de Revistas do Centro Comercial Trevicenter, tradicional ponto de troca de figurinhas em Santa Maria, que a reportagem do Diário conversou com Seu Ferraz. Entre sacolões cheios de álbuns, ele falou sobre a trajetória como colecionador e a história por trás do nome conhecido na cidade.


Começou assim

Foto: Vinicius Becker (Diário)

O hábito de colecionar acompanha Seu Ferraz desde a juventude. Ainda jovem, ele guardava gibis, selos, embalagens e outros itens que circulavam na sua época de infância e adolescência.

– Naquela época, não era figurinha, mas a gente trocava gibi do Tarzan, Batman, Super Homem, até papel de cigarro e caixa de fósforo. Eu não boto nada fora. Não aceito nem recibo de compra para não inventar de colecionar — brinca.

Ele entrou no mundo das trocas de figurinhas quando foi comprar os primeiros pacotes em uma banca de revistas e tabacaria nos fundos do Clube Caixeiral, a pedido do neto.

– Meu neto disse: “Vô, os guris lá tão fazendo o álbum da Turma da Mônica e do Ronaldinho Gaúcho”. Eu fui na banca e comprei as figurinhas e o álbum para ele — relembra.

Quando chegou ao local, percebeu um grupo de pessoas reunidas. Eram colecionadores trocando figurinhas do álbum da Copa do Mundo de 2006, mundial marcado pelo chamado “quadrado mágico” da Seleção Brasileira, formado por Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Kaká, que fracassou perante a França de Zinedine Zidane.

– Perguntei: “esse pessoal tá fazendo o quê?”. Disseram: “trocando figurinha da Copa”. Voltei em casa, deixei meu neto e fui de novo para lá. Estou aqui até hoje. Começou assim — conta.

Naquele ano, ele comprou mais de 5 mil pacotes de figurinhas e completou os primeiros álbuns dele e do neto.


Centenas de álbuns e milhares de pacotes

Foto: Vinicius Becker (Diário)

O que começou de forma despretensiosa se tornou uma paixão. Seu Ferraz passou a encadernar álbuns de Copas do Mundo em capa dura antes mesmo da Panini, editora oficial das coleções, lançar os oficiais. Em poucos anos, passou a lidar com milhares de figurinhas a cada edição, ampliando o volume de compras e de trocas. Na Copa de 2010, o número mais que dobrou em relação ao início.

– Naquele ano, eu abri mais de 12 mil pacotinhos. Isso aqui era uma loucura – lembra, olhando para as cadeiras vazias do Trevicenter, que ele reconhece como “base” para trocas de figurinhas na cidade.

Em 2014, chegou a projetar a abertura de até 20 mil pacotinhos junto de um amigo, algo que não se concretizou depois da partida entre Brasil e Alemanha, o fatídico 7 a 1. Até hoje tem cerca de 2 mil pacotinhos fechados, guardados em casa.

–  Depois do 7 a 1 acabou. Não tinha mais ninguém para trocar. Eu mesmo não completei o álbum. Em um grupo de troca do Rio de Janeiro, com mais de 100 mil pessoas associadas, menos de 5 mil conseguiram completar – diz.

Na Copa de 2018, investiu em cerca de 7 mil pacotinhos. Já em 2022, além das trocas, completou e repassou aproximadamente 30 álbuns.

Dentro da temática esportiva, além de colecionar álbuns das Olimpíadas, Copa América, Liga dos Campeões da Europa e Copa do Mundo feminina, faz questão de destacar o álbum do Campeonato Brasileiro de Basquete de 1996 que completou, edição que reúne equipes como o União Corinthians, de Santa Cruz do Sul, e traz uma figurinha de Oscar Schmidt, então jogador do Corinthians, um dos maiores nomes do esporte, que faleceu recentemente, aos 68 anos.

O interesse, no entanto, nunca se limitou ao esporte. Ao longo dos anos, Seu Ferraz também passou a colecionar álbuns de personagens e franquias do entretenimento, como do desenho infantil Moranguinho e da série de filmes do Harry Potter.


“Seu Ferraz, vou trazer meu filho para trocar figurinha”

Vinicius Becker (Diário)

Mais do que o volume de álbuns e pacotinhos, foram as relações construídas ao longo dos anos que mantiveram Seu Ferraz ativo no meio. Ele evita colar as figurinhas e as mantém organizadas para facilitar as trocas. Apesar de algumas vendas, a atividade nunca foi vista como negócio. Pelo contrário, a lógica sempre foi a da troca e da ajuda mútua entre colecionadores e entusiastas.

– Eu não vendo figurinha. Eu ajudo o pessoal a completar álbum — afirma.

Com o passar do tempo, o que começou como encontros casuais se transformou em vínculos geracionais. Crianças que frequentavam os pontos de troca cresceram e, anos depois, retornam ao local.

Um guri que vinha trocar figurinha comigo e hoje é arquiteto. É normal o pessoal chegar e dizer: “Seu Ferraz, vou trazer meu filho para trocar figurinha”. Aí tu vê que já passaram 20 anos, o guri cresceu, casou, tem filho… é gratificante — conta.

Desde o início, ele também manteve contato com colecionadores de diferentes partes do Brasil e do exterior, por meio de correspondências. Em um curto período, chegou a enviar mais de 400 cartas.

— Era gente do Japão, da Itália, de Portugal. A gente trocava por carta — explica.


As sete vidas

A história de Seu Ferraz não é curiosa só por ser o nome das figurinhas em Santa Maria. Ao relatar um acidente recente, quando um motociclista bateu no seu carro e por pouco não atingiu a porta do motorista em que estava, lembrou que escapou da morte outras seis vezes.

Entre elas, cita o capotamento de um jipe no quartel, e um acidente de trânsito em Alegrete, no qual as outras duas pessoas que estavam com ele morreram. Também enfrentou dois infartos, em 2002 e 2008, que lhe renderam sete stents no coração, além de dois episódios de afogamento.

Mesmo ao tratar de um tema sensível, ele lida com bom humor.

— Eu digo sempre assim: “acho que já queimei minha sétima vida” — brinca.


O período longe das trocas

Depois de muitos anos no mundo das trocas de figurinhas, a recente ausência de Seu Ferraz em bancas e encontros de colecionadores chama a atenção. Se a família, a partir do pedido do neto mais velho, foi a ponte para o início no universo das coleções, foi uma perda significativa que o afastou do ambiente nos últimos anos.

Em 2023, o filho dele faleceu, aos 46 anos, vítima de infarto. Desde então, conta que deixou a casa onde moravam juntos e se mudou com a esposa e a neta. Com menos espaço no novo apartamento, os álbuns e as figurinhas foram guardados em caixas, na casa de um amigo do filho. Esse é o único assunto sobre qual Seu Ferraz, sempre com memória e respostas na ponta da língua, demonstra dificuldade em falar.

Desde então, foram poucas as vezes em que voltou a mexer na coleção, até reabri-la para conversar com a reportagem do Diário.

— Eu não tinha mais concentração para organizar as coisas. Tão tudo lá, as figurinhas — conta emocionado. 


Álbum da Copa do Mundo 2026

Com o lançamento do álbum da Copa do Mundo de 2026, Seu Ferraz deve retornar aos pontos de troca neste final de semana. A volta marca a retomada de uma rotina que por anos fez parte do dia a dia.

A expectativa é reencontrar antigos conhecidos e retomar os encontros no Centro Comercial Trevicenter e na Livraria Athena do Shopping Praça Nova. Mesmo após o período afastado, ele diz já estar sendo procurado por colecionadores.

— Agora eu nem sei como vou me virar para atender todo mundo — comenta entusiasmado.

Além da movimentação nos pontos de troca, Seu Ferraz também observa mudanças no cenário das figurinhas ao longo dos anos. Para ele, o aumento no preço dos álbuns e pacotinhos não foi acompanhado pelo poder de compra das pessoas, o que impacta a forma como montam seus álbuns.

Outra diferença que ele faz questão de destacar é a quantidade de locais de venda dos pacotinhos, o que ampliou o acesso, mas também mudou a lógica de quem busca completar o álbum.

Hoje tem figurinha em tudo que é lugar. Tem em farmácia, em mercado, em posto — comenta.

Ele aproveita para explicar uma estratégia que utiliza para evitar o acúmulo de cromos repetidos.

Se comprar tudo no mesmo lugar, vai vir muita repetida. O lote faz diferença. Tem que comprar em pontos diferentes — orienta.

Ao falar do retorno, ele relembra, com um sorriso no rosto, a fala de duas crianças, que traduz o lugar que passou a ocupar nesse pequeno universo, não só como colecionador, mas parte da memória afetiva de quem cresceu trocando figurinhas ao seu lado, em Santa Maria.

— Em 2022, dois gurizinhos pararam na minha frente e disseram: “Seu Ferraz, tomara que o senhor esteja vivo em 2026 pra gente trocar figurinha” — conta.

Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Anterior

"Minha mãe me levou a ser juiz", conta Ulysses Fonseca Louzada

Assinantes do Diário poderão participar de campanha inédita que irá sortear R$ 96 mil; entenda a iniciativa Próximo

Assinantes do Diário poderão participar de campanha inédita que irá sortear R$ 96 mil; entenda a iniciativa

Geral