Foto: Vinicius Becker (Diário)
Neste sábado (27), completam-se 41 anos da morte do venerável diácono João Luiz Pozzobon, personagem central da história religiosa de Santa Maria e responsável por transformar a campanha da Mãe Peregrina em uma missão que hoje alcança mais de 100 países. A data inclui a tradicional Procissão Luminosa, além de missas e outras celebrações.
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Enquanto o processo de beatificação segue em tramitação no Vaticano, sem grandes novas atualizações públicas desde o reconhecimento das virtudes heroicas que lhe concedeu o título de Venerável, o legado de João Luiz Pozzobon continua cada vez mais presente. Não apenas nas celebrações organizadas pela Igreja, mas principalmente na memória de quem conviveu com ele, recebeu suas visitas ou ainda mantém viva a missão iniciada há mais de sete décadas.
Ao longo dos últimos dias, a reportagem do Diário percorreu alguns dos lugares por onde João passou e conversou com pessoas que tiveram suas vidas marcadas por ele. São histórias de quem o conheceu como vizinho, professor, missionário ou simplesmente como "o seu João", que chegava de casa em casa para rezar o terço, ouvir as famílias e levar uma palavra de esperança.
Há quem ainda lembre das balas distribuídas às crianças depois das orações, dos quilômetros percorridos a pé carregando a imagem da Mãe Peregrina e das visitas às escolas, hospitais, presídios e comunidades do interior. Outros atribuem graças alcançadas à sua intercessão e afirmam que, muito antes do reconhecimento oficial da Igreja, ele já ocupava um lugar especial na fé de quem o conheceu.
Mais de quatro décadas após sua última peregrinação, a história de João Luiz Pozzobon permanece viva não apenas em Santa Maria, cidade onde construiu sua missão, mas também nos milhares de lares espalhados pelo Brasil e pelo mundo que continuam recebendo a imagem da Mãe Peregrina.
As lembranças de quem conviveu com João

Muito antes de ser reconhecido como Venerável pela Igreja Católica, ele era apenas um homem comum para quem morava nas comunidades por onde passava diariamente. Uma dessas pessoas é a professora aposentada Dalva Carmen Schiop, 70 anos, que guarda lembranças da infância e da vida adulta ao lado daquele que ajudou a espalhar a Campanha da Mãe Peregrina pelo mundo. Ela conheceu Pozzobon ainda criança. Moradora da comunidade, via o diácono passar todos os dias em frente à casa da família a caminho da capela. Uma vez por mês, a imagem da Mãe Peregrina chegava à residência para a tradicional oração do terço.
— Era tudo muito organizado. Eram 30 famílias que recebiam a imagem. Num dia ela ficava na nossa casa. O seu João chegava, rezava o terço, conversava um pouco com a família e, no dia seguinte, voltava para buscar a imagem e levá-la para a casa seguinte. Era assim todos os meses — recorda.
Mas as crianças também tinham um papel importante naqueles encontros. Segundo Dalva, João levava um enorme terço, com cerca de um metro e meio de diâmetro, para que os pequenos participassem das orações.
— Todas as crianças seguravam aquele terço enorme enquanto ele rezava. Depois nós brincávamos no pátio. Era toda a vizinhança reunida. Era um momento muito bonito — lembra.
Anos mais tarde, já professora e coordenadora de Ensino Religioso nas escolas Oscar Grau e Padre Nóbrega, Dalva voltou a encontrar João Pozzobon. Desta vez, ele chegava acompanhado da imagem da Mãe Peregrina para visitar os estudantes.
A emoção fica evidente quando Dalva fala sobre o reconhecimento de João Pozzobon pela Igreja. Para ela, acompanhar esse processo tem um significado diferente de quem apenas conhece sua história pelos livros.
— É uma emoção que eu não saberia explicar. Nós conhecemos o seu João, convivemos com ele. Hoje saber que ele está tão próximo dos altares é muito gratificante.
Emocionada, ela também guarda na memória do dia em que João foi atropelado. O acidente aconteceu praticamente em frente à casa onde morava.
— Minha mãe viu a movimentação pela janela e disse que tinha acontecido um acidente. Depois ficamos sabendo que era o seu João. Eu estava dando aula quando um aluno chegou e disse: "Professora, morreu o seu João". Nunca esqueci aquele momento.

"Para nós, ele era o Joaninho"

Se Dalva nunca esqueceu o momento em que recebeu a notícia da morte de João Pozzobon, o feirante Ernande José Bilibio, 57 anos, também guarda na memória cada detalhe daquela manhã de inverno. Na época, tinha apenas 16 anos e ainda tentava lidar com outra perda recente: o irmão havia morrido em um acidente há cerca de duas semanas.
Como o pai permaneceu em casa, Ernande saiu sozinho de carroça para trabalhar na feira. Ao passar pela descida próxima ao antigo Hospital do Cruzeiro, estranhou a movimentação de policiais e um carro parado na estrada. A forte cerração impedia que se enxergasse mais de 20 metros à frente, e ele seguiu viagem sem saber o que havia acontecido.
Minutos depois, já na feira, ouviu pelo rádio a notícia.
— Quando anunciaram que tinha morrido o Joãozinho Pozzobon, eu disse: "Mas eu passei lá agora há pouco". Foi por uns cinco minutos que eu não vi o acidente — recorda.
Para Ernande, porém, a lembrança mais forte não é a do acidente, mas do homem que conheceu desde criança.
Na comunidade do Pé de Plátano, João Pozzobon era simplesmente o "Joaninho". Visitava as casas para rezar o terço, distribuía balas às crianças e também passava pelas escolas levando palavras de fé.
Apesar da lembrança daquele dia, é da convivência com João Pozzobon que ele gosta de falar.
Segundo o feirante, desde criança acompanhava as visitas da imagem da Mãe Peregrina às casas da comunidade. Quando o diácono chegava para rezar o terço, a vizinhança inteira se reunia. As visitas também aconteciam nas escolas.

— A gente ficava feliz porque ele ia nas casas. Meu pai comprava um pacote de balas para distribuir para as crianças que participavam. Era uma festa para nós. Nas turmas,ele rezava e sempre deixava uma palavra bonita. A gente era criança, meio serelepe, mas ficava quietinho ouvindo.
Outra recordação que nunca saiu da memória é a rapidez com que João conduzia as orações.
— A gente comentava esses dias em casa. Ele rezava um terço em oito ou dez minutos. Era bem rápido, mas rezava com muita fé.
Décadas depois, a tradição iniciada por João Pozzobon continua viva na família. A imagem da Mãe Peregrina ainda percorre as casas da rua onde mora, e, sempre que chega, o terço reúne novamente os familiares.
— Até hoje, quando a santinha chega lá em casa, nós rezamos o terço. Isso nunca deixou de acontecer.
"Para nós, ele já é um santo"

Poucos metros separam a casa de madeira da aposentada Celestina da Silva, 85 anos, da Capela Branca, um dos lugares mais simbólicos da história de João Luiz Pozzobon. Na sala onde recebeu a reportagem, uma imagem da Mãe Peregrina ocupa um lugar de destaque na parede. Minutos depois da entrevista, Celestina seguiria para mais uma sessão de hemodiálise. Antes disso, porém, fez questão de recordar o homem que conheceu ainda jovem e que, para ela, nunca deixou de ser uma presença constante na comunidade.

Há quase 50 anos morando ao lado do santuário, na Vila Bilibiu, ela lembra das tardes em que João Pozzobon chegava para rezar o terço com as famílias.
— Ele vinha sempre às quatro horas da tarde. A gente rezava o terço junto e depois ele conversava um pouco com as famílias. Era uma pessoa muito boa. Levava balas para as crianças, distribuía cuca no Dia do Trabalhador e fazia questão de lembrar até dos pequenos que ainda estavam no colo.

Junto dela, a filha Nara de Fátima Ribeiro, 57 anos, cresceu ouvindo e vivendo histórias do diácono. Ela lembra que foi o próprio João quem preparou a irmã mais velha para receber a Primeira Comunhão durante a gravidez.
— Minha irmã estava grávida e ainda não tinha feito a Primeira Comunhão. Então ele veio aqui em casa, catequizou ela e preparou tudo para que pudesse receber o sacramento antes do nascimento do filho.
Nara também recorda outra iniciativa que marcou a comunidade: a construção da pequena escola ao lado da capela. Segundo ela, muitas crianças precisavam atravessar a ponte ou caminhar até outras localidades para estudar. Em períodos de cheia, o trajeto se tornava ainda mais perigoso.
— Ele construiu aquela escolinha para que as crianças estudassem até a quarta série. Antes disso, precisavam atravessar a ponte e muita gente tinha medo porque já tinham acontecido acidentes. Aquela escola mudou a vida de muitas famílias daqui.

A fé da família ganhou ainda mais força em 2024, quando Celestina sofreu um infarto e precisou ser internada em estado grave. Segundo Nara, os médicos informaram que a aposentada apresentava um quadro de sepse e poucas chances de recuperação.
Foi naquele momento que a família iniciou uma novena pedindo a intercessão de João.
— Meu irmão disse: "Hoje nós vamos começar a novena para o João Luiz Pozzobon". Sem mentira nenhuma, no outro dia chegamos ao hospital e ela já estava sentada na porta do quarto - disse, emocionada.

A devoção permanece viva até hoje. Todos os domingos, o terço continua sendo rezado na Capela Branca, tradição que nunca foi interrompida desde a época de João Pozzobon.
— É a nossa capela de bênçãos. Nunca deixou de ter um terço. A gente cuida dela com muito carinho porque sabe da importância que esse lugar tem para a nossa história.
"Às vezes eu fico imaginando como eu andava com um santo e não percebia"

A Capela Branca não preserva apenas as lembranças de Celestina e Nara. O local continua reunindo pessoas que tiveram a vida transformada pela presença de João. Uma delas é Isonilda da Silva da Rosa, 67 anos, agente comunitária de saúde e ministra da Eucaristia, que carrega uma história ligada ao diácono. Foi ali que ela recebeu um dos maiores presentes da vida: o casamento religioso celebrado pelo próprio.
Tudo começou quando João Pozzobon visitou sua casa. Como fazia em todas as famílias, chegou com um caderno nas mãos para registrar quem morava no local e conhecer a realidade de cada um.
— Ele perguntava quantas pessoas moravam na casa, se os filhos eram batizados, se o casal era casado na Igreja. Ele se preocupava muito com a vida espiritual das pessoas, mas também com a situação de cada família.
Na conversa, Isonilda contou que era casada apenas no civil e que a filha mais velha ainda não havia recebido o batismo. A resposta veio pouco tempo depois.
— Ele reuniu quatro ou cinco casais e realizou um casamento comunitário aqui na capelinha. Também batizou minha filha junto com outras crianças. Foi um momento muito marcante da minha vida.
Segundo ela, a simplicidade era uma das maiores características de João Pozzobon.
— Ele chegava nas casas e sentava onde tivesse lugar. Não fazia diferença se era cadeira ou banco. Ia falando da Mãe Rainha, conversando com todo mundo, sempre com uma simpatia enorme. Hoje a gente faz uma ou duas coisas e já acha que fez muito. Eu fico pensando de onde ele tirava tanto tempo. Ele nunca cansava.
Um santuário de graças

Hoje, Isonilda ajuda a manter viva a tradição deixada por João. Todos os domingos, a comunidade se reúne na Capela Branca para rezar o terço e celebrar a Palavra. Para ela, o local guarda inúmeros testemunhos de graças alcançadas.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu quando uma vela permaneceu acesa durante dias no interior da capela.
— A vela queimou praticamente todo o altar, as toalhas e os panos. Mas, quando chegou perto da imagem da Mãe, simplesmente apagou. A capela é toda de madeira e não aconteceu absolutamente nada. Para nós, foi um grande milagre.

Segundo Isonilda, são frequentes os relatos de pessoas que procuram a capela para pedir cura, aprovação em concursos ou outras graças.
— Aqui é o nosso Santuário de Graças. O seu João deixou esse lugar para nós e muitas pessoas continuam vindo buscar força e esperança. Sabe que, à vezes eu fico imaginando, como eu andava com um santo e não percebia...

Quem foi ele?
- Nasceu em 12 de dezembro de 1904, em Ribeirão, localidade de São João do Polêsine. De origem pobre, largou os estudos para ajudar o pai na lavoura;
- Em 7 de setembro de 1947, Pozzobon participou do lançamento da pedra fundamental do santuário de Schoenstatt, onde teve início o seu contato com a Mãe Peregrina. Três anos depois, em 10 de setembro, começou a Campanha da Mãe Peregrina;
- Ordenado diácono pelo bispo dom Érico Ferrari, em 1972. Passou a fazer casamentos, batizados e enterros. Não podia rezar missas e absolver pecados;
- Em 1979, a fama de Pozzobon ganhou o mundo. Ele visitou a Europa, conheceu o papa João Paulo 2º e foi para a Argentina falar da Mãe Rainha;
- Em 27 de junho de 1985, aos 80 anos, foi atropelado por um caminhão quando ia para uma missa, no Santuário de Schoenstatt, às 6h30min, e morreu.
Exemplo de fé
- Em 1950, o Diácono recebeu uma imagem da Mãe Rainha. Com o tempo, colocou como propósito rezar 15 terços por dia (825 preces);
- Ele deu a ideia de, a cada 30 famílias, colocar uma imagem da Mãe Peregrina, para passar de casa em casa. Ele distribuiu 2,7 mil imagens da Mãe pela região. Em 2011, havia mais de 200 mil réplicas da imagem em 96 países;
- João Pozzobon carregava 19 kg nas peregrinações. A imagem da Mãe Rainha pesava 11 kg, e a pasta que levava com vestes e outros materiais religiosos, 8 kg;
- Ele percorreu 140 mil quilômetros a pé com a imagem no ombro para visitar famílias, escolas, presídios e hospitais;
- Pozzobon criou a Vila Nobre da Caridade, no Cerrito, com 14 casas que abrigam famílias pobres. Ele ajudava a conseguir emprego e a fazer as crianças estudarem.
As etapas da santidade
- Servo de Deus – O candidato a santo tem de ter morrido, no mínimo, cinco anos antes de o processo ser sugerido e aceito pelo Vaticano. Quando isso acontece, o candidato recebe o título de Servo de Deus. Pozzobon ganhou esse título em 1994;
- Venerável – Se o Dicastério da Causa dos Santos, no Vaticano, aprovar a documentação do diácono, ele vira venerável. Isso significa que a Igreja afirma que ele é um exemplo a ser seguido, o que faz com que sua história e suas obras sejam ainda mais divulgadas;
- Beato – A partir do título de venerável, será necessário comprovar um milagre. Caso for comprovado, o título de beato é concedido pelo Papa e ele pode ser venerado publicamente (imagem nas igrejas, pedido de intercessão nas missas e cultos públicos...) em uma região ou comunidades específicas;
- Santo – É a canonização de fato. Após comprovar mais um milagre, que tem de ocorrer após a beatificação, o candidato é tornado santo e tem o seu nome inscrito na lista oficial da Igreja e poderá ser venerado em igrejas no mundo todo.