Foto: Vitor Zuccolo
- Por gentileza, seria possível chegar a partir das 14h30? Por que ela não aparece na sala se não estiver devidamente ajeitada da cabeça aos pés - Com essa pergunta de Ana Cecília, filha da personagem desta reportagem, foi possível compreender a importância da reportagem e da visita.
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Há vidas que atravessam décadas e acompanham as mudanças que envolvem a sociedade. Criação de empreendimentos,lojas, times de futebol, troca de presidentes, guerras entre outras situações que são normais até certo ponto da vida. Mas em certos casos, algumas pessoas acompanham essas situações diversas vezes. A vida de Celina Amaral da Silva parece fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
No dia 29 de março, ela completou 100 anos, algo que, de acordo com o último Censo, realizado em 2022, apenas 44 pessoas tinham 100 ou mais anos em Santa Maria Um século inteiro vivido em Santa Maria, a cidade onde nasceu, cresceu, construiu família e fincou raízes que hoje se espalham por gerações.
A comemoração oficial, no entanto, está marcada para o próximo sábado (11), no Itaimbé Palace Hotel, onde mais de 200 convidados devem se reunir, entre eles, cerca de 80 familiares, para celebrar uma história que não cabe em números, mas que impressiona por tudo que carrega. E por conta disso, a reportagem do Diário foi ao encontro de Celina, que sempre morou no Bairro Rosário, para conhecer mais sobre a sua história.
Após as 14h30min, como solicitado pela sua filha, Celina recebe a reportagem. Antes mesmo da conversa começar, um traço chama atenção: o cuidado consigo mesma. Vestida com uma blusa azul, calça e cachecol pretos, cores que remetem ao time que torce, pulseiras nos braços, anéis nas mãos, cada acessório escolhido com intenção. É um ritual diário. Cercada dos quatro filhos que estavam em casa, a mais nova centenária da cidade estava atenta a cada detalhe ao redor.
A fala lenta é natural, muito pelas diversas vivências que Celina percorreu ao longo da vida. Apesar das diversas mudanças que ela acompanhou, uma coisa segue a mesma: a fé. Na sua rotina, a reza está inserida diretamente.
- Eu rezo muito. Rezo para que todos tenham saúde e muita paz. Rezo para mim, para meus filhos e para os vizinhos. E nas diversas vezes que rezei, já vi Jesus, era uma imagem linda. Sempre peço para ele muita saúde - comentou a centenária.
Uma família que atravessa gerações
Se a vida de Celina pode ser medida de alguma forma, talvez seja pelas pessoas que vieram depois dela. São sete filhos, dez netos, seis bisnetos e cinco tataranetos. Uma árvore genealógica que cresce, se expande e se renova também por todos os cantos do país, já que tem familiares em Santa Catarina e São Paulo.

Entre os quatro filhos presentes na roda da conversa, um nome era consenso como preferido de dona Celina, o do filho Marcos Elias, que atualmente mora em São Paulo e veio para o aniversário da mãe.
- Esse ai é o xodó da mãe, sempre foi o mais querido dela - diz Ana Cecília, que divide a vida entre cuidar da mãe e o trabalho como enfermeira.
- Eu vim especialmente para o aniversário da mamãe, já tinha prometido que viria e não poderia perder esse momento que não é único, mas é bem raro de acontecer- relatou o xodó de dona Cecília.
Cada geração carrega um pouco dela. Nos gestos, nas histórias, nas memórias contadas em reuniões de família.
O marido, Pedro Rodrigues, companheiro de uma longa trajetória, já não está mais presente. Ferroviário, ele viveu até os 114 anos. Juntos, construíram uma vida marcada pelo trabalho, pela persistência e pelos vínculos que resistem ao tempo.

Fé como companhia diária
Se há algo que nunca faltou ao longo desses 100 anos foi a fé. Para ajudar nas rezar e espalhar sua fé, gosta de ouvir diversas musicas voltadas ao tema, mas "Se isso não for amor", de Zé Marcos e Adriano é a sua preferida.
Celina foi uma das fundadoras da igreja batista no Bairro Rosário, espaço que ajudou a construir não apenas com presença, mas com voz. Participava do coral, onde cantar era mais do que expressão, era também forma de oração.
- A mãe sempre teve uma voz muito linda. Sempre gostou de participar do coral justamente por cantar bem - relatou a psicóloga Martha Helena, filha que também divide suas funções com o cuidado da mãe.
Uma vida inteira em Santa Maria
Celina nunca saiu daqui. E, de certa forma, nunca precisou. Sua história se mistura com a própria história da cidade.
Trabalhou na antiga fábrica de refrigerantes Cyrilla, em um tempo em que o ritmo era outro, as relações eram mais próximas e o trabalho carregava também um sentido de pertencimento. Mas foi como bordadeira que passou a maior parte da vida. Linhas, tecidos e paciência. Ponto a ponto, construiu não apenas peças, mas também uma rotina marcada pela dedicação. E essa dedicação com bordado também se mostra nas vestimentas.
- Quando ela trabalhava como bordadeira, produzia diversos vestidos de casamento e de festas de aniversário, sempre foi muito talentosa. Ela sempre gostou dessa parte de arrumar os outros e de se arrumar, sempre ajudamos a colocar a roupa que ela escolhe. Ela gosta de passar batom, colocar as pulseiras, sempre muito vaidosa - Ana Cecilia, que com os olhos vidrados na mãe e um sorriso no rosto, conta sobre a trajetória da mãe.
O bordado, como sua vida, exige calma. Exige tempo. E Celina, desde o dia 29 de março de 1926, soube respeitar isso.
Um quarto do seu jeito
Conversar com Celina é como folhear um livro que não tem pressa de terminar. As histórias surgem aos poucos, sem ordem definida e cada palavra, novas curiosidades vão surgindo. Na casa onde vive com parte dos filhos, o seu quarto é o mais especial. No lado esquerdo de quem entra na casa, se nota a singularidade do local onde dorme: um quarto totalmente rosa, escolha da própria Celina, que contou com o apoio da filha Cleusa Marlene, arquiteta, para planejar o cômodo. Jogo de cama, guarda roupas, cômodas, estante e sofá, tudo rosa.
A mãe sempre gostou muito de rosa, tanto que no aniversário de 99 anos dela, estava com um vestido da mesma cor do quarto. Quando ela pediu, fizemos na hora, tudo para agradar ela - relatou a filha.
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Os 100 anos de vida trazem uma sabedoria quase única para Celina, isso fica claro nas suas respostas. Com a resposta sempre na ponta da língua, comenta o porquê da escolha pelo rosa.

- Sempre achei muito bonita as princesas que usam rosa, aí escolhi - respondeu, enquanto segurava a coroa que utilizou na comemoração do aniversário anterior.
Rotina bem estabelecida
Naturalmente, ao longo dos 100 anos, algumas dificuldades aparecem no caminho. Celina se recuperava de uma gripe que havia pego recentemente. As portas e janelas fechadas demonstraram o cuidado dos filhos com a idosa, que se mostrava recuperada e pronta para voltar a sua rotina.
- Agora estou bem, graças a Deus estou bem, estava gripada mas me cuidaram bem - relatou.
Nos próximos dias, deve retomar a sua rotina semanal, que inclui fisioterapia, podologia e também as tradicionais reuniões com familiares para um churrasco.
- Eu gosto bastante de churrasco, uma carne bem gordinha, bem macia. Gosta de tomar suco natural também - contou sobre seus gostos.
Apesar da idade, os filhos relatam que não há restrições alimentares no dia a dia da Celina, sempre comeu de tudo.
- A mãe sempre foi assim, sempre comeu bem, desde mais nova comia de tudo e até hoje é assim, com a carne com um pouco de gordura que ela gosta- relatou Martha Helena, mais uma filha e personagem que fez e faz de tudo pela sua mãe.
O café da tarde e o segredo dos 100 anos
Era passado das 15h quando os filhos começaram a preparar o café da tarde, inserido na rotina de Celina. Mas sem saber se de fato ela gostaria de se alimentar naquele horário, perguntam para ela que horas ela gostaria de comer, e com a língua afiada, responde prontamente.
- A hora que estiver pronto! - Responde rapidamente a matriarca da família.
Os filhos começam a rir, como se já estivessem acostumados com o humor e as rápidas respostas da mãe. E de bate e pronto, o café estava servido. Um prato com frutas e suco. A reportagem entendeu que aquele momento era o certo de deixar Celina aproveitar seu momento.
Mas antes, não podia faltar uma pergunta: Qual o segredo para se viver até os 100 anos? Uma pergunta que entre as seis pessoas presentes na roda da conversa, apenas uma poderia responder. Todos atentos para compreender e talvez tentar replicar na sua rotina, mas Celina é simples e direta em sua resposta.
- É ter muita fé em Deus, ter bondade no coração e sempre estar ajudando os outros - finalizou.
A resposta parece simples, até mesmo de se replicar, mas talvez seja difícil de imitar da mesma forma. Na despedida, ao cumprimentar a idosa, ela pede a mão para dar benção e se despedir da reportagem.
No próximo sábado, a rotina de Celina vai mudar um pouco, inclusive com a cor da roupa, que será prata, e não o costumeiro rosa. Cerca de 200 pessoas estarão se reunindo com ela para comemorar mais um aniversário.
O que Celina já viu?
- Invenção da TV (1926)
- Segunda Guerra Mundial (1939)
- Duas maioras enchentes da história do Estado (1941 e 2024)
- Inauguração da UFSM (1961)
- Ida do homem até a Lua (1969)
- Transmissão a cores da TV no Brasil (1972)
- Queda do Muro de Berlim (1989)
- Construção Viaduto Evandro Behr em Santa Maria(1991)
- Morte de Ayrton Senna (1994)
- Covid-19 (2020)
- Mais de 20 presidentes no comando do Brasil
- Mais de 30 prefeitos no comando de Santa Maria
- Duas copas do Mundo realizadas no Brasil (1950 e 2014)
- Todos os títulos do Brasil em Copas do Mundo
- Títulos do Grêmio: 42 títulos do Campeonato Gaúcho, 1 Mundial, 3 Libertadores, 5 Copas do Brasil além de 2 Campeonatos Brasileiros