Foto: Arquivo Pessoal
O céu parece mais cinza, as sirenes interrompem o sono na madrugada e casas abandonadas dividem a paisagem com carros destruídos. É nesse cenário de devastação, a mais de 11 mil quilômetros do Rio Grande do Sul, que o santa-mariense Jaderson Vinicius Marsona, de 30 anos, escolheu viver após atravessar o oceano para fazer da Ucrânia o seu país.
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Conhecido pelo nome de guerra "Bradock" – em referência à uma clássica franquia de filmes de ação dos anos 80 – ele deixou o Estado em 22 março para ser voluntário nas forças de defesa territorial da Ucrânia. O gaúcho passou por São Paulo, Lisboa em Portugal e pela cidade de Wroclaw, na Polônia, até desembarcar no território ucraniano.
Atualmente, Jaderson possui um contrato de três anos com o exército para atuar como defensor territorial e recrutador. Ele integra o International Training Center – unidade especializada em treinar estrangeiros na cidade de Lviv, na região oeste do país. Ali, ele se prepara para comandar uma equipe responsável por proteger vilarejos e regiões próximas à fronteira com a Rússia, além de defender cidades contra ataques de blindados e drones.
A guerra entre os dois países começou em fevereiro de 2022 e se tornou o maior conflito armado da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), até o momento, estima-se que 15 mil civis morreram e mais de 40 mil ficaram feridos. Na última quinta-feira (4), o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que a Rússia irá derrotar a Ucrânia no campo de batalha se necessário, mas que está disposta a encerrar a guerra por meio da diplomacia.
A mudança
A nova realidade de Jaderson contrasta com a rotina simples que ele mantinha no Bairro Caturrita, na zona norte de Santa Maria, onde trabalhava como auxiliar de manutenção predial e motorista de aplicativo. A sua base militar veio ainda na juventude: ele serviu ao Exército Brasileiro no Regimento Mallet por três anos.
Ao longo do tempo, manteve contato com amigos ligados à área militar, debatendo sobre os rumos do confronto e o sofrimento humano – até decidir iniciar o processo de alistamento.
Sem apresentar ligação familiar com a nação europeia, ao Diário, Jaderson revelou que a decisão de se voluntariar surgiu, principalmente, ao acompanhar imagens do conflito. Após emitir o passaporte, ele iniciou o processo de recrutamento junto às forças ucranianas, passou pela análise de documentos e recebeu a autorização para viajar.
"Cemitério é muito, muito cheio aqui"
Embora o vilarejo onde está alojado não tenha sido bombardeado, durante seu treinamento Jaderson conheceu Kharkiv – a segunda maior cidade da Ucrânia, atacada desde o início do conflito.

Ali, a sensação é de que a guerra não começa propriamente pelas invasões, mas sim pelo silêncio e pelas ausências. Áreas inteiras foram esvaziadas, transformando espaços antes movimentados em vilarejos fantasmas. O cenário é dominado pelo abandono: carros largados no meio das ruas e casas com estruturas colapsadas, onde janelas estilhaçadas e cortinas rasgadas pelo vento dão o tom da devastação.
– Tudo que vivenciamos aqui são coisas que vamos levar para a vida inteira, são coisas terríveis, cabulosas, tenebrosas, nada comparado ao que conhecemos. Não é comum o que acontece aqui. Muitos lugares da Ucrânia, muitas cidades, estão devastadas, não podem morar – declara Jaderson.
Outro aspecto que chama atenção é a perda das cores no horizonte: o céu foi destituído do azul do dia e do breu natural da noite, restando apenas um cinza denso e permanente, alimentado pela fumaça que paira sobre o conflito. Em um único final de semana, por exemplo, a Força Aérea Ucraniana intercepta periodicamente ondas que chegam a disparar mais de 600 drones e 70 mísseis.
Em meio aos destroços, os sentimentos de soldados e civis se misturam. São pessoas que vivem da insegurança, do improviso, do improvável e, principalmente, da perda – a perda da rotina, da paz, da identidade e daqueles que um dia foram sua família. Em meio à guerra, o país se molda como uma nação de órfãos que, acima de tudo, lutam por si e pela soberania do seu povo.
– Eu perdi amigos meus há poucos dias. Pessoas muito boas, que deram a vida pela Ucrânia. Vou levar eles para o resto da minha vida comigo. Cemitério é muito cheio aqui, muito, muito cheio, um monte de cemitério.
"Às vezes toca a sirene e temos que ir correndo para o bunker"
A rotina no acampamento militar começa cedo, às 6h da manhã, e se estende até às 21h. O dia a dia inclui testes físicos diários, disciplina, além de treinamentos táticos, operacionais e de tiro com todos os tipos de armas.

A alimentação é baseada principalmente no Borsch – uma sopa de repolho e beterraba característica do país, além de carne bovina e de búfalo. À noite, mesmo longe das áreas de maior combate, a realidade do confronto interfere em todos os aspectos da vida dos soldados e parece bater à porta:
– Às vezes toca a sirene e temos que ir correndo para o bunker. Só saímos quando recebemos autorização do comandante.
Diariamente, às 9h da manhã, ocorre o “horário do silêncio”. Trata-se de um momento de respeito coletivo em memória aos que faleceram em combate, em que o trânsito é interrompido e as pessoas param suas atividades para homenagear todos aqueles que morreram no conflito defendendo o país.
Distância da família
Longe de casa, a convivência com voluntários de várias nacionalidades – como portugueses, colombianos e alemães – ajuda a amenizar a saudade. Entre os brasileiros, os gaúchos costumam formar um grupo unido. O chimarrão e as expressões regionais servem como um pedaço do Rio Grande do Sul no meio da dúvida. Jaderson conta que o povo ucraniano é receptivo e gosta de aprender sobre os costumes do Sul:
– Quando encontro um gaúcho aqui é muito legal porque tomamos chimarrão e podemos falar as nossas gírias gauchescas. Aqui na Ucrânia já ensinei várias palavras do nosso Estado, os ucranianos são um povo muito legal, gostam de aprender.
O contato com os familiares que ficaram em Santa Maria acontece apenas por meio do aplicativo de mensagem "WhatsApp" durante os horários de folga, uma comunicação que se torna um desafio diário por conta da grande diferença de fuso horário entre os dois países.
Como a Ucrânia está seis horas à frente do horário de Brasília por estar vivenciando o seu período de verão, a dinâmica exige paciência, já que muitas vezes o soldado está despertando para a rotina militar enquanto a família no Brasil se recolhe para o descanso.
"Aqui é onde mais pensamos na paz"

Pelo contrato, Jaderson poderá tirar um período de descanso ou voltar temporariamente ao Brasil após seis meses de serviço ativo. O destino imediato do soldado, no entanto, será a linha de frente. Em duas semanas, Jaderson retornará para Kharkiv. A cidade segue sob constante bombardeio de mísseis e drones russos, o que tem obrigado as autoridades a ordenar a retirada em massa de civis. Diante do perigo iminente, a frase do santa-mariense resume o sentimento de quem está no front:
– Aqui é onde mais pensamos na paz e gostaria de dizer, pessoal, a paz vale muito. Orem por mim, orem por nós, para que possamos fazer a nossa parte aqui na Ucrânia. Eu e todos os brasileiros com o mesmo pensamento.
Entenda a guerra na Ucrânia
- Começo: 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia iniciou uma invasão em larga escala ao território ucraniano.
- Motivação: oposição de Moscou à aproximação da Ucrânia com o Ocidente e a recusa da Rússia em aceitar a soberania plena do país vizinho
- Áreas atacadas: Principalmente o leste e o sul da Ucrânia, mas ataques também atingiram outras regiões do país, incluindo a capital, Kiev.
- Cenário: Cidades, vilarejos, estradas, escolas, hospitais e instalações de energia foram atingidos por ataques, especialmente nas regiões próximas à linha de frente.
- Impacto: A guerra provocou uma das maiores crises humanitárias da Europa neste século, com milhões de pessoas deslocadas dentro e fora do país.
- Mortes de civis: Cerca de 15 mil civis morreram e mais de 40 mil ficaram feridos desde o início da invasão. A Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que os números reais podem ser maiores.
- Mortes militares: Estimativas apontam cerca de 2 milhões de mortos e feridos entre militares russos e ucranianos, embora não haja confirmação oficial consolidada.
- 2025: Considerado o ano mais letal para civis desde o início da guerra, com 2.514 mortos e mais de 12 mil feridos.
- Expectativa: Na última quinta-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que está pronto para fazer concessões de paz com a Ucrânia.