Investigação

Suspeita de causar a morte de 25 animais fala pela primeira vez e diz que 'eles foram colocados lá'

Thays Ceretta

 

 SANTA MARIA, RS, BRASIL, 14/09/2016 - Mais de 20 corpos de cães foram encontrados mortos por abandono em uma casa de Santa Maria. (FOTO MAIARA BERSCH / AGÊNCIA RBS)
Em setembro de 2016, 25 cães foram encontrados mortos em sobrado na Avenida MedianeiraFoto: Maiara Bersch / Agencia RBS

Um caso que causou comoção e revolta em Santa Maria veio à tona novamente. Um ano e dois meses depois que 25 cães foram encontrados mortos em um imóvel na Avenida Medianeira, a então locatária do sobrado, Elis Dal Forno de Freitas Parode, hoje com 23 anos,  procurou a equipe do Diário para se posicionar sobre o fato, dizendo "querer desculpar-se e justificar o seu silêncio até o momento". 

Elis é fundadora do Grupo de Apoio Santa-Mariense de Proteção Animal (Gaspa Amigos Fiéis), entidade que atuava resgatando animais em situação de abandono e da qual ela diz ainda ser a presidente, mesmo que o Gaspa não esteja ativo no momento. 

Em 14 de setembro de 2016, um oficial de justiça e dois advogados da imobiliária responsável pelo imóvel foram até o local com uma Ordem de Despejo porque Elis não estaria pagando o aluguel da residência. Ao chegar ao local, encontraram cerca de 25 animais mortos em estado avançado de decomposição, sacos de ração, fezes e o sobrado em completa desordem. Na época, o laudo pericial dos técnicos do departamento de Morfologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) confirmou que os animais morreram de fome (inanição), além disso, que houve também canibalismo. 

A Polícia Civil instaurou dois inquéritos sobre o caso, um no qual ela foi indiciada pelo crime de estelionato e outro por apropriação indébita. Um terceiro inquérito, que ainda está em aberto, apura os crimes de maus-tratos e estelionato e está sob análise do delegado responsável pelo caso, André Diefenbach, da 3ª Delegacia de Polícia.

Os dois primeiros inquéritos já foram remetidos ao Ministério Público, que ofereceu denúncia à Justiça. Os processos estão na 3ª Vara Criminal de Santa Maria. Como o oficial de Justiça não localizou Elis no endereço indicado pelo Ministério Público, ela ainda não foi citada no caso.

Elis, que deixou Santa Maria logo após o episódio e não revelou o atual endereço, mas disse estar fora do Estado, esteve na cidade no dia 10 de novembro, data em que recebeu o Diário no escritório do seu advogado, o criminalista Roger Castro. Confira, a seguir, parte da entrevista em tópicos:

Técnicos da UFSM comparam como deveria ser o osso de um dos cadáveres de cachorro encontrados no sobrado na Avenida Medianeira e como estavam o de alguns. Havia falhas que indicam que eles foram mordidos, o que levanta a hipótese de que os animais podem ter se matado por conta da fome.
Laudo pericial do Departamento de Morfologia da UFSM indicou que os cães morreram de inanição Foto: João Pedro Lamas / Agência RBS

SILÊNCIO
"Na verdade, tudo foi de repente para mim, e a gente precisou desse silêncio, eu precisei me omitir por orientação jurídica para nós podermos entender a questão que estava acontecendo e juntar até mesmo uma moção, provas, enfim. Todo mundo costuma dizer, quando é acusado, que é inocente. Eu reflito muito sobre isso, eu não posso te dizer que sou inocente, na verdade, eu sou culpada pelas minhas escolhas, eu sou culpada por ter deixado pessoas entrarem na minha vida, eu sou culpada por ter confiado, tenho inúmeras culpas, mas, assassina, bandida, ladra, eu não sou. Procurei vocês, pois, agora, o que quero é desculpar-me e justificar-me pelo meu silêncio até aqui. Infelizmente, a mídia destruiu a minha vida. Neste nosso primeiro encontro, busquei expor toda uma "linha do tempo" para entenderes minhas atitudes, como o descumprimento do acordo (leia mais sobre o acordo na cronologia abaixo)".

IMÓVEL NA MEDIANEIRA
"Com o tempo, eu consegui esse imóvel na Avenida Medianeira para trabalhar e também para residir, em novembro de 2014... Eu fiz essa locação tanto comercial quanto residencial... Eu fiz o contrato enviei para o proprietário, ele mandou de volta... Eu comecei a fazer a legalização, mas não pude mais, a casa não era comercial. Eu tive que parar de trabalhar formalmente, isso logo no início de 2015. O proprietário da casa é de Santa Catarina, mas eu loquei no meu nome, com toda segurança para mim e para ele. Fiz isso, comecei a tentar uma maneira de resolver, conversei com ele, que disse que ia me mandar a documentação. Nunca chegou. Entrei com uma ação judicial. Não vou te dizer que não fazia alguns banhos (nos animais) para os conhecidos, mas eu tinha um lucro de R$ 400, R$ 500 mensais, lucro entre aspas, uma renda irrisória. O aluguel era de R$ 1.340, eu tinha R$ 500 para comer, para alimentar meus animais, para água, luz. O oficial de Justiça não encontrou o proprietário para ser intimado por muitos meses, e, muitos, muitos meses aquele processo ficou trancado."

AÇÃO DE DESPEJO
"Um belo dia, eu soube que ele (o proprietário) havia ingressado com uma ação de despejo, e eu soube também que tinha uma audiência marcada. Para me facilitar e fazer um acordo, eu fui nessa audiência mesmo sem ter sido intimada. Essa audiência foi em maio de 2016, nós fizemos um acordo, como eu não estava depositando para ele o valor, tendo em vista que ele tinha que me ressarcir pelo lucro cessante. Nós fizemos um acordo. Eu retirava minha ação e, com mais 90 dias de posse do imóvel, eu deixava nesse período, que dava em média R$ 20 mil com a face indenizatória. Ele aceitou, e eu também. A entrega do imóvel era para o dia 13 de agosto de 2016. Só que eu tenho endometriose, e, em 3 ou 4 de agosto, eu comecei a ter uma crise por uns 30 dias. Isso me impossibilitou de cumprir o prazo da entrega da desocupação do imóvel porque eu já não estava mais lá. Nesse meio tempo, eu entrei em contato com o advogado do proprietário. Eu sabia que, a qualquer momento, poderia fazer a desocupação com ordem de despejo. No dia 17 de agosto, foi a última vez que eu estive no imóvel. Dali em diante, eu já tinha informado o advogado e tudo. Eu agendei minha mudança para o domingo, dia 18 de setembro."

GASPA
"Todo mundo pensa que o Gaspa, fundado por mim em 2012, tinha uma riqueza, mas, na verdade, não teve muita arrecadação. Desde 2014, eu não deixava mais fazerem depósito na conta. A conta foi desativada porque aumentou a taxa de cobrança mensal e, como não foram pagas, foi desativada pelo banco. O que eu precisava, nós fazíamos rifa. O que chegava, eu já gastava, só que foi muito pouco, as rifas que fizemos foram infrutíferas, não arrecadamos nem 30% do que a gente esperava. Não usei o dinheiro do Gaspa para outros fins, de maneira nenhuma. As doações em 90% eram de materiais, dificilmente precisava de dinheiro, a não ser para alguma castração. Os veterinários dificilmente cobravam consulta, apenas o procedimento, quem queria doar deixava lá na clínica. Há muitos rumores de estelionato, eu dou risada, nós temos um estatuto que rege como funcionam as diretrizes, como funcionam as contas. As pessoas se associavam, pagavam um mês e esqueciam, não pagavam mais, e, na verdade, aquela ajuda fixa não tinha. A acusação de estelionato é de pessoas que não tiveram nenhum vínculo com o Gaspa, não são pessoas legítimas para fazer tal cobrança. A gente tinha, sempre tive a prestação de contas e as notas. As notas, eu estou reavendo as segundas vias, porque os documentos foram roubados da casa."

OS ANIMAIS NO SOBRADO
"Os animais foram colocados lá, fato consumado, porque não tinha nenhum animal lá. Os animais não podem ter atravessado as paredes. A única coisa que eu digo é que não é ilusão da minha cabeça, as chaves estavam ali na loja (pet shop da Rua Tuiuti). A última vez, eu fui no imóvel da Medianeira no dia 17 de agosto. Tem um veterinário aqui em Santa Maria que ajudava com um cachorrinho paraplégico. Ele frequentava a casa para ir lá atender o cachorrinho para mim. Isso foi até maio. Teve uma veterinária que veio de Brasília fazer acupuntura nesse que é paraplégico, que esteve na casa dia 23 de abril, então, os veterinários foram lá e não viram esses animais todos mortos? Meus sócios estiveram lá, o freteiro esteve lá, amigos, voluntários. Que os animais não foram mortos lá, isso eu tenho certeza, absoluta. Fiquei no imóvel de novembro de 2014 a junho de 2016."

COMO ELES FORAM PARAR LÁ
"Quando ocorreu a ordem de despejo, foi uma surpresa porque eu estava aguardando ele (proprietário) ser citada no processo para a gente poder resolver a ação e regularizar. A conclusão é de que eu não tenho conhecimento de como surgiram os cães na casa. Eu sempre tive os meus animais, e os do Gaspa foram doados antes mesmo de eu ir para a loja na Tuiuti. Só um que eu te disse que não foi doado, que ficou em um lar temporário. É muito fácil encontrar uma carcaça de animal em Santa Maria, e os que estavam comigo foram roubados. Na perícia que a UFSM fez, teve ossadas de animais mortos há anos, mortos há meses, então, eu não sei. Não posso te dizer de onde que saiu. Desde o dia 17 de agosto, eu não fui mais lá no imóvel da Medianeira, e muita gente sabia que eu não estava indo mais lá. A partir do momento em que as chaves estavam ali na loja, estavam ao alcance de quem tivesse interesse de tirar a cópia. As chaves estavam ali, e todo mundo sabia. Sócios, voluntário, amigos, todos sabiam, e se qualquer pessoa chegasse ali, eu não ia ver porque eu estava trabalhando. Quem trabalhava ali sozinha praticamente era eu. Só que os meus sócios iam ali em algum dia em que eles poderiam me ajudar para atender ao telefone ou algo assim. Foi alguém conhecido, com certeza absoluta. Sinceramente, para mim, todo mundo é culpado até que se prove o contrário. Sócios, amigos e familiares, todos, inclusive pessoas com ligações íntimas comigo, de anos."

A CRONOLOGIA DOS FATOS NA VERSÃO DE ELIS PARODE
- Em 2012
– É fundado, por Elis Dal Forno de Freitas Parode, o Grupo de Apoio Santa-Mariense de Proteção Animal (Gaspa Amigos Fiéis), entidade que atua resgatando animais em situação de abandono
- Em 2013 – Elis montou o pet shop na casa onde morava com a mãe, no Bairro Perpétuo Socorro
- Novembro de 2014 – Elis diz ter alugado um imóvel na Avenida Medianeira em seu nome para morar e trabalhar no Pet Shop que ela transferiu do Bairro Perpétuo Socorro para lá. No local, permaneceu até junho de 2016. Nesse período, segundo ela, de 12 a 15 animais do Gaspa, além de oito que eram dela, passaram pelo imóvel da Medianeira
- Em 2015 – Elis ficou sabendo que o imóvel não poderia ser utilizado de forma comercial, com isso, ela ingressou com uma ação judicial para que o proprietário regularizasse o imóvel de forma que ele pudesse ser usado para fins comerciais. Porém, segundo ela, o proprietário não foi localizado, e nada foi feito
- Maio de 2016 – Ocorreu uma audiência de conciliação. O proprietário do imóvel, que seria de Santa Catarina, e Elis Parode fizeram um acordo no qual ela teria que deixar o imóvel em agosto. Segundo Elis, ela teria ficado um período doente e sem trabalhar e, por conta disso, não pagou o aluguel desde 2015. Também não conseguiu cumprir o prazo de desocupar o imóvel da Avenida Medianeira até o dia 13 de agosto. Então, o proprietário entrou com uma ação de despejo contra ela
- 2 de junho de 2016 – Elis mudou-se do imóvel da Avenida Medianeira para um apartamento na Rua Appel. Alguns móveis e documentos teriam ficado na antiga residência, na Avenida Medianeira
- 4 de junho de 2016 – O pet shop dela passou a funcionar na Rua Tuiuti. Elis alugou o imóvel em seu nome
- 14 de setembro de 2016 – O proprietário do imóvel entrou com uma ação de despejo porque Elis não estaria pagando o aluguel. Quando o oficial de Justiça e os dois advogados da imobiliária chegaram ao local, encontraram cerca de 25 cães mortos
- Depois disso, a Polícia Civil instaurou dois inquéritos, um apurou o crime de estelionato, e o outro, de apropriação indébita
- Um deles (estelionato) foi remetido ao Ministério Público no dia 22 de novembro de 2016, e o outro (por apropriação indébita), no dia 19 de abril de 2017
- Outro inquérito, que está aberto, apura os crimes de maus-tratos e estelionato. O documento está sob análise do delegado e deve ser remetido ao Ministério Público nos próximos dias
- O Ministério Público ofereceu denúncia à Justiça. Os processos estão na 3ª Vara Criminal, mas Elis ainda não foi citada por não ter sido localizada no endereço indicado

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