Foto: Vinicius Becker (Diário)
Marcelo da fontora, 52 anos, sapateiro
A troca minuciosa de uma peça de relógio que não volta a bater, a colagem precisa de uma nova sola de couro que permite ao cliente caminhar mais alguns quilômetros, a fundição de uma joia única ou a confecção de um terno com o caimento exato que só a alfaiataria permite. Estas cenas, que parecem pertencer a um filme de época, ainda moldam o cotidiano de trabalhadores santa-marienses.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
A modernidade, com o consumo do "descartável", impôs um desafio a esses mestres. Mais do que a concorrência com as máquinas, o que amedronta é o silêncio do legado. Em Santa Maria, o cenário é de uma despedida gradual: os profissionais dessas áreas confessam que o conhecimento acumulado por décadas corre o risco de terminar neles mesmos, já que as novas gerações – incluindo seus próprios filhos – escolheram outros caminhos.
Nesta sexta-feira (1), em alusão ao Dia do Trabalhador, o Diário buscou entender como essas histórias são construídas e o que faz o amor pelo ofício permanecer.
“Gosto de fazer roupa”
Na Rua Marechal Deodoro, no Bairro Itararé, um prédio de dois andares com revestimento de mármore ostenta uma placa que é um marco na cidade: “Loja e Alfaiataria Daronco". Ali, o tempo parece respeitar o ritmo da fita métrica de Alvorino Antônio Daronco, 90 anos.
Natural de Ivorá, ele abriu o espaço em agosto de 1957, logo após deixar o serviço militar e dedicar dois anos a um curso de costura – que garantiria o sustento dos seus cinco filhos pelas décadas seguintes.

Hoje, de cabelos brancos, voz mansa e passos lentos, 'Seu Daronco', como é popularmente conhecido, ainda recebe clientes de longa data e jovens que buscam a exclusividade que o pronto-a-vestir de shopping não oferece.
Atrás do balcão, o cenário revela uma paleta de texturas e história: prateleiras repletas de caixas que guardam tecidos de diversas gramaturas, carretéis de linhas de todas as cores que parecem escalar as paredes e o brilho fosco das tesouras pesadas – ferramentas que são extensões de suas próprias mãos. Ele é um dos últimos de uma linhagem que já foi numerosa.

Ao Diário, seu Daronco relatou que, anos atrás, era possível encontrar cerca de 35 alfaiates trabalhando no município e, atualmente, ele sequer conhece outro, além dele mesmo, que atue na área.
Ao ser questionado sobre o que mais o cativa no ofício, seu Daronco não hesita. Para o mestre, a elegância está longe de ser uma futilidade; é, antes de tudo, uma percepção técnica apurada:
– Gosto de fazer roupa, de vestir. Eu enxergo o homem que passa do outro lado da rua e vejo se ele está bem vestido, se é feito por profissional ou se é comprada. Alfaiataria é outra coisa, é único – diz ele, com o olhar de quem entende a alma de um tecido.
“Somos médicos dos relógios”
Enquanto seu Daronco analisa o corte da roupa, algumas quadras dali, na antiga Rua Doutor Alberto Pasqualini, outros artesãos observam o que é ainda menor. No térreo do imponente Edifício Arquipélago, o pequena estabelecimento Tectime guarda um contraste entre eras.
Nas paredes, modelos antigos e modernos convivem: relógios que vieram da Alemanha dividem espaço com produções da serra gaúcha. Ao fundo, o silêncio é preenchido pelo tique-taque incessante e pelo som de pinças ágeis.

Ali trabalha o relojoeiro Gilvan Ramos Lunardi, 64 anos. Natural de Porto Alegre, ele começou no ofício aos 10 anos de idade, junto ao cunhado, Pedro Carlos da Silva – já falecido. Há cinco décadas, Gilvan tomou a decisão de deixar a Capital e se estabelecer em Santa Maria, motivado justamente pela escassez de mão de obra qualificada na cidade, que carecia de profissionais com o seu domínio técnico.
Hoje, plenamente integrado à comunidade, ele chega pontualmente às 7h30min, ajusta a lupa sobre a vista e mergulha nas engrenagens. O trabalho é minucioso: desde a troca de pilhas e o ajuste de pulseiras até o restauro de máquinas complexas de bolso.

Com um fluxo de até 900 ajustes mensais, ele vê o mercado mudar e a qualidade dos materiais cair, mas sua dedicação permanece cirúrgica. Gilvan enxerga, inclusive, a poesia no mecanismo. Para ele, o relojoeiro é um clínico geral da mecânica:
– O relojoeiro é como o médico. O relógio é uma máquina e o ser humano tem o corpo, o mecanismo é semelhante. O coração do relógio é o balanço; se ele parar, o relógio para. Então, somos médicos dos relógios.
Diferente de outros ramos, o relojoeiro conseguiu passar o conhecimento para Luan Batista, 34 anos, e Sérgio Borba, 47 anos, que trabalham com ele, mas a preocupação com o futuro da profissão é constante:
– O pessoal antigo foi morrendo e não tem mais ninguém que queira aprender. Hoje não existe curso para essa profissão, existe aquele que quer aprender e nós que queremos ensinar.
O caminho do couro e o fim anunciado de uma era
O mesmo sentimento de "médico das coisas" é compartilhado por quem cuida de onde pisamos. Na movimentada Rua dos Andradas, a placa “Rápida Grande Gala”, na porta de entrada, indica o refúgio de Milton Guareschi, 61 anos.
Se Gilvan começou aos 10 anos, Milton deu seus primeiros passos dentro de uma sapataria. Natural de São Borja e vindo de uma família de sapateiros, ele começou a confeccionar chinelos e botas aos 8 anos.

O ambiente da sapataria é sensorial para quem adentra o espaço: o cheiro forte da cola de sapateiro, o atrito das lixas, pilhas de solas de borracha e couro, cadarços coloridos e agulhas grossas que atravessam superfícies rígidas.
Ocupando cada palmo do mostruário, a variedade de calçados impressiona: dos modelos sociais aos sapatos de salto delicados e botas de montaria marcadas pelo uso, todos repousam à espera do 'milagre' do conserto.
Milton trabalha ao lado de Marcelo da Fontoura, 52 anos, e ambos observam o horizonte com preocupação:

– Os sapateiros mais novos já estão chegando perto dos 50 anos. A gurizada não quer mais nada com nada, segue outros caminhos. O dia que a minha geração parar, Santa Maria não vai ter mais conserto de calçado. Está com os dias contados – desabafa Milton, que, apesar da melancolia da previsão, sorri ao dizer que tudo o que tem na vida deve ao couro.
Embora o ofício tenha sido um legado de berço, Milton compartilha da mesma solidão geracional de seu Daronco e Gilvan. Em suas mãos experientes, a tradição familiar que atravessou décadas encontra um ponto final: nenhum de seus filhos ou parentes próximos sentiu o chamado do couro e das agulhas. Todos buscaram outros destinos, deixando o banco do sapateiro como o último posto de uma arte que, em vez de ser transmitida pelo sangue, agora depende apenas de algum aprendiz distante que resolva, por conta própria, desafiar o tempo.
“O ourives é um alquimista”
Apesar do sentimento de despedida das outras profissões, na bancada do ourives e designer de joias Luã Dietrich, 37 anos, o trabalho, mesmo que com mão de obra escassa, pulsa com um vigor renovado. Diferente dos veteranos que herdaram o saber no berço, Luã trilhou um caminho acadêmico e técnico, unindo a farda do período em que foi militar ao refinamento do design de superfície.

Hoje, ele divide o tempo entre a criação autoral em seu ateliê, localizado na região central da cidade, e as salas de aula da Universidade Franciscana (UFN), onde ensina que ser ourives é, antes de tudo, dominar a transformação.
Em sua oficina, aberta desde 2016, Luã mistura técnicas milenares com a sofisticação do design contemporâneo. Ele entende o trabalho do ourives como uma forma de eternizar momentos.
– É uma questão de alquimia mesmo. O ourives é um alquimista. Transformamos o metal bruto em algo que seja para a pessoa para sempre, um patrimônio emocional – explica Luã.

Embora utilize tecnologia como a impressão 3D, ele garante que o que o cliente busca é o acabamento manual e a exclusividade que a máquina não entrega. Como professor, ele luta para que as técnicas não se percam, enxergando na docência a ponte para que a história da joalheria continue viva. Para ele, ensinar é um ato de preservação cultural:
– Passar esse conhecimento para as próximas gerações é passar cultura, é passar a história e as técnicas milenares que muitos outros povos vieram ensinando uns para os outros durante milênios.
Neste 1º de maio, a paisagem do trabalho em Santa Maria revela-se através de mãos como as de Alvorino, Gilvan, Milton e Luã. O Dia do Trabalhador é, afinal, composto por milhares de profissionais que, apesar dos abismos geracionais e das incertezas do futuro, escolheram perseverar.