Caso Gabriel: "As fardas estavam limpas e secas", sustenta defesa de PMs sobre chegada ao batalhão na noite do crime

Andreina Possan e Vitória Parise

Caso Gabriel:

Foto: Vitória Parise (Diário)

Advogado de defesa, Isaac Mello, durante sustentação, nesta sexta-feira (3).

A defesa dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro prosseguiu no fim da tarde desta sexta-feira (3), no quinto dia do Tribunal do Júri realizado no Foro da Comarca de São Gabriel. Após a sustentação do advogado Maurício Adami Custódio, foi a vez do advogado Jean Severo apresentar os argumentos em favor dos réus. Durante a exposição, ele buscou contestar a tese apresentada pelo Ministério Público, sustentando que o tempo de permanência da viatura no local onde o corpo foi encontrado seria insuficiente para a execução e ocultação do crime, além de questionar a credibilidade de depoimentos prestados durante a investigação. Também participou da sustentação o advogado auxiliar Isaac Mello, que reforçou os argumentos relacionados à dinâmica dos fatos e às provas periciais. Além do sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen, respondem ao processo os soldados Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima, denunciados pela morte de Gabriel, então com 18 anos, em agosto de 2022.

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Logo no início da sustentação, Jean Severo vestiu um colete balístico semelhante ao utilizado pelos policiais militares no dia da ocorrência. Segundo ele, o equipamento pesa cerca de 10 quilos e a demonstração buscava ilustrar a dificuldade física que, na visão da defesa, existiria para retirar o corpo de Gabriel da viatura e levá-lo até a barragem onde foi encontrado.

Na sequência, o advogado deixou o plenário por 1 minuto e 48 segundos, retornando logo depois. A iniciativa teve como objetivo reproduzir o tempo em que, conforme registros de geolocalização apresentados pela defesa, a viatura permaneceu parada na região da barragem. Para a defesa, esse intervalo seria incompatível com a hipótese de ocultação do corpo sustentada pela acusação.

Defesa questiona depoimentos de testemunha

Assim como na sustentação anterior, Jean Severo voltou a concentrar parte de sua argumentação nos depoimentos de uma das testemunhas ouvidas durante a investigação, cuja identidade não pode ser divulgada por determinação da juíza responsável pelo julgamento.

O advogado afirmou que a testemunha apresentou diferentes versões ao longo do processo e atribuiu as mudanças à repercussão que o caso teve na cidade.

– (Ela), apresentou uns cinco depoimentos diferentes. Mas por que ela iria mentir? Sabe por que? Porque azedou para ela. Porque ela começou a perder faxina na cidade, porque o pessoal começou a cobra-la "mas foi tu que chamou? aconteceu isso?". E ela começou a criar, criar, criar, criar, criar (versões do depoimento). Para quê? Para destruir três vidas. Isso é fazer justiça, meu Deus? – argumenta Severo.

Fardas limpas e secas

Na sequência da sustentação, o advogado auxiliar Isaac Mello retomou a tese apresentada pela defesa de que o tempo registrado para a parada da viatura seria incompatível com a dinâmica descrita pela acusação.

Segundo ele, as imagens dos policiais chegando ao Batalhão também seriam incompatíveis com a hipótese de que eles teriam entrado em uma área alagada para ocultar o corpo de Gabriel.

– No momento em que eles chegam ao Batalhão, de fardas limpas e secas. Eles conseguiram entrar num banhado daqueles, em 1 minuto e 48 segundos, e voltar com uma roupa que é pesada? O menino, eu acredito,deveria ter aproximadamente 70 kg. Havia sangue na viatura, mas não é era de Gabriel, em um dos relatórios, o soldado Pedroso explicou que aquele sangue seria de um brigadiano que, em uma ocorrência, teria tomado uma voadora de uma pessoa e se machucou – explica Mello.

Ao longo da manifestação, a defesa voltou a sustentar que os elementos reunidos durante a investigação não demonstrariam a participação dos três policiais no homicídio e pediu a absolvição dos réus.

Relembre o caso

Gabriel havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de prestar o serviço militar obrigatório no Exército. Na noite do dia 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na residência de um tio no Bairro Divina Providência, o jovem saiu do imóvel para tomar uma cerveja.

Uma moradora das proximidades acionou a Brigada Militar via telefone relatando que um homem desconhecido tentava forçar o portão de acesso à sua propriedade. Conforme o registro da denúncia e imagens gravadas por testemunhas na localidade, os três policiais atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Relatos coletados durante o inquérito apontaram o uso de golpes de cassetete. Essa foi a última ocasião em que o jovem foi visto com vida.

O corpo de Gabriel foi localizado uma semana depois, em 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural do município.

No banco dos réus, estão o sargento Arleu Júnior Cardoso Jacobsen, de 46 anos, e os soldados Raul Veras Pedroso, de 32 anos, e Cléber Renato Ramos de Lima, de 44 anos. Eles respondem por homicídio qualificado por motivo fútil e por recurso que dificultou a defesa da vítima. Os três estão presos preventivamente desde agosto de 2022, no Presídio Policial Militar de Porto Alegre.

O Ministério Público afirma que vai ao júri com pedido de condenação e responsabilização dos acusados. A assistência de acusação, que representa a família de Gabriel, sustenta que o julgamento é um momento decisivo para o reconhecimento da responsabilidade criminal.

as defesas dos réus afirmam a inocência dos policiais e defendem que o julgamento seja baseado exclusivamente nas provas produzidas no processo.

Acompanhe o julgamento em tempo real

O Diário acompanha, em tempo real, o júri dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro. O julgamento teve início na segunda-feira (29) e tem previsão de durar quatro dias. Clique aqui para conferir as atualizações ao longo da cobertura.

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