Grupos reflexivos reduzem em quase três vezes novos casos de violência doméstica em Agudo

Grupos reflexivos reduzem em quase três vezes novos casos de violência doméstica em Agudo

Google Street

Um levantamento realizado pela Comarca de Agudo aponta que a participação efetiva de homens autores de violência doméstica em grupos reflexivos de gênero tem impacto direto na redução de novos episódios de agressão. Os dados divulgados pela a juíza Bruna Faccin Beust, titular da Vara Judicial da Comarca de Agudo, durante entrevista ao programa Bom dia, Cidade!, referentes aos anos de 2024 e 2025, mostram que quanto maior o comparecimento aos encontros, menor a reincidência.

+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp

O estudo analisou oito grupos realizados no período, envolvendo 155 homens que já respondiam por violência doméstica. A avaliação considerou se, após a participação nos encontros, houve ou não o registro de novos fatos.

Entre os homens que compareceram a apenas um ou dois encontros, 34,78% voltaram a se envolver em novos episódios de violência doméstica. Já entre aqueles que participaram de três a cinco reuniões, o índice caiu para 12,5%. O melhor desempenho aparece no grupo que frequentou seis a oito encontros: apenas 13,89% cometeram novo fato, enquanto 86,11% não voltaram a aparecer em ocorrências do gênero.

Para a juíza, os números confirmam algo que já vinha sendo percebido na prática.

- O que a gente pode notar é que, quanto mais os homens participam dos encontros até a conclusão do grupo, menor é a prática de novas ocorrências de violência doméstica depois - disse durante a entrevista ao programa.

Reveja a entrevista


Segundo ela, os grupos reflexivos de gênero fazem parte de um projeto do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) e têm caráter preventivo. A proposta surgiu da constatação de que apenas a resposta repressiva do sistema penal não era suficiente para interromper o ciclo da violência.

- A gente faz toda a parte repressiva, mas se observou que só isso não bastava. Então o Tribunal pensou em agregar uma frente de prevenção, com orientação e diálogo, tentando mudar comportamentos - explica.

Funcionamento dos grupos

Na Comarca de Agudo, os encontros começaram no fim de 2023 e passaram a ocorrer regularmente ao longo de 2024 e 2025. Os grupos reúnem, em média, de 15 a 20 homens que possuem medidas protetivas deferidas pela Justiça. A participação é obrigatória e integra as determinações judiciais previstas na Lei Maria da Penha.

Os encontros são conduzidos por facilitadores voluntários, capacitados pelo Tribunal de Justiça, e acontecem semanalmente. Ao longo de sete a oito reuniões, os participantes recebem orientações sobre a legislação, discutem comportamentos, refletem sobre masculinidades e compartilham experiências.

- Eles conversam sobre suas atitudes, sobre a Lei Maria da Penha, têm uma parte educativa e também uma troca em grupo. Aqui nós contamos com três facilitadores, todos voluntários. A gente não quer só reprimir. Quer mudar comportamento, mudar cultura - relata a magistrada.

Dados reforçam importância da presença contínua

A análise estatística foi concluída no dia oito de fevereiro deste ano e revelou um padrão: homens que abandonam precocemente o processo apresentam quase três vezes mais registros de novos fatos de violência em comparação àqueles que completam os encontros.

Para Beust, isso evidencia que o vínculo criado ao longo das reuniões é decisivo:

- A gente considera que o homem realmente finalizou o atendimento quando participa de seis ou mais encontros. E são justamente esses que apresentam a menor taxa de reincidência - comentou.

A magistrada afirma que o projeto nasceu em Agudo diante do alto número de pedidos de medidas protetivas e da frequência com que os mesmos nomes voltavam a aparecer nos processos.

- Logo que assumi, em outubro de 2022, me chamou atenção a quantidade de casos e o alto índice de novo cometimento de violência. Foi isso que nos levou a implantar os grupos- relembrou.

Violência doméstica e mudança cultural

A juíza avalia que os números de violência contra a mulher seguem alarmantes em todo o Estado, mas pondera que hoje há maior visibilidade e mais canais de denúncia. Ela ressalta que o fenômeno está ligado a uma estrutura histórica.

- A violência doméstica sempre existiu. O que mudou é que agora a informação circula rápido, as mulheres estão mais empoderadas, procuram a polícia, pedem medida protetiva. É uma cultura patriarcal, de homens que se sentem donos das mulheres. Muitas vezes, quando o relacionamento termina, isso se manifesta de forma extrema - finalizou.


Carregando matéria

Conteúdo exclusivo!

Somente assinantes podem visualizar este conteúdo

clique aqui para verificar os planos disponíveis

Já sou assinante

clique aqui para efetuar o login

Carnaval exige atenção redobrada nas estradas e zero álcool ao volante, alerta Escola de Trânsito de Santa Maria Anterior

Carnaval exige atenção redobrada nas estradas e zero álcool ao volante, alerta Escola de Trânsito de Santa Maria

Jovem é agredida por golpes de facão após discussão envolvendo o ex-companheiro e o atual namorado em Santa Maria Próximo

Jovem é agredida por golpes de facão após discussão envolvendo o ex-companheiro e o atual namorado em Santa Maria

Polícia/Segurança