Abril Azul: como promover a permanência de pessoas com TEA na graduação?

Isadora Bortolotto

Abril Azul: como promover a permanência de pessoas com TEA na graduação?

Foto: Vinicius Becker

Entre dados crescentes e desafios reais, a inclusão de pessoas com TEA exige suporte especializado e combate ao preconceito

Ingressar no Ensino Superior é motivo de alegria para muitos brasileiros. Mas a permanência ainda é um desafio para quem precisa de suporte e acolhimento. O acadêmico do 5º semestre de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Renan Silveira, 20 anos, integra o grupo de 244 estudantes com Transtorno de Espectro Autista (TEA) matriculados na instituição. 

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Natural de Cruz Alta, ele foi diagnosticado com TEA em 2017, com apenas 12 anos. O amor pela televisão também surgiu neste período. Embora gostasse de desenhos como qualquer outra criança, foi acordando cedo que Silveira começou a se aproximar do jornalismo.

Eu sempre acordava um pouco mais cedo, antes dos desenhos começarem, e pegava o jornal já no meio. Eu pensava: “Esse cara nessa bancada gigante... por que ele tá fazendo isso?”. Aquilo foi me chamando atenção, e eu comecei a gostar muito – recorda.

No tempo livre, Renan monta grades de programação e imagina como funcionaria a organização de um departamento de jornalismo e até mesmo de um canal de televisão. Na UFSM, Silveira conta com o suporte do Centro de Apoio Educacional Especializado (CAED), onde tem acesso a acompanhamento pedagógico e ações de acessibilidade. O espaço tem contribuido para a adaptação do futuro jornalista. 

Sempre tive medo de incomodar. Na escola, eu era da “panelinha dos excluídos". Às vezes, o nervosismo por uma regra de gramática vira choro e raiva. Mas, sigo. O poder público, estadual e federal têm a obrigação de dar acesso e oportunidade para que as pessoas autistas possam viver de forma digna nas universidades e em qualquer espaço público. E a sociedade que tem que respeitar as nossas demandas e as nossas individualidades – conclui o estudante.


Renan foi diagnosticado com TEA aos 12 anos, em 2017.Foto: Vinicius Becker

Além do diagnóstico

O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha o indivíduo por toda a vida, e pode afetar áreas como comunicação, interação social e comportamento. Segundo o Censo Demográfico 2022, há 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA no Brasil, o que corresponde a 1,2% da população.

A campanha Abril Azul foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de conscientizar a população sobre o transtorno, envolver a comunidade, trazer visibilidade e buscar uma sociedade mais consciente, menos preconceituosa e mais inclusiva.

Essa realidade se reflete no aumento de matrículas na rede estadual de ensino. Nos últimos anos, o Rio Grande do Sul registrou um aumento no número de alunos com TEA nos ensinos fundamental e médio, conforme dados da Secretaria Estadual de Educação:

  • 2024 – 10.943 matrículas
  • 2025 – 12,7 mil matrículas
    2026 – 14.905 matrículas

Para entender mais sobre esse transtorno e como pode se apresentar em sala de aula, a reportagem falou com o médico psiquiatra Maurício Hoffmann. Ele afirma que o TEA é marcado por dificuldades na interação social e padrões repetitivos de comportamento.

– O quadro é heterogêneo: pode haver desde pessoas com deficiência intelectual até aquelas com inteligência alta, mas com prejuízo no entendimento das relações sociais – comenta.

Sobre o diagnóstico, Hoffmann pontua que o ideal é o diagnóstico precoce, pois a identificação facilita intervenções e apoios em fases de maior plasticidade do desenvolvimento. Segundo ele, sinais podem aparecer já nos primeiros dois anos de vida. Na vida adulta, algumas pessoas podem ter o quadro mais claro tardiamente:

– Isso acontece porque os sintomas podem estar parcialmente “mascarados” por estratégias aprendidas, boa capacidade intelectual, apoio familiar/escolar ou porque as dificuldades só se tornam evidentes quando as exigências sociais e acadêmicas aumentam.

Segundo o psiquiatra, o ambiente de ensino pode e deve ser visto como positivo para o desenvolvimento de pessoas neurodivergentes.

Quando há inclusão bem estruturada, o ambiente escolar e universitário pode favorecer comunicação, autonomia, participação social, aprendizagem e comportamento adaptativo – conta Maurício.

Ele reforça que a legislação brasileira garante educação inclusiva, com acesso, permanência, participação e aprendizagem em todos os níveis:

A pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. O acompanhante especializado deve ser disponibilizado quando houver necessidade comprovada. No Ensino Superior, as instituições devem oferecer adaptações razoáveis, recursos de acessibilidade e apoio especializado conforme a necessidade do estudante.

O ambiente universitário, segundo o psiquiatra, pode favorecer a autonomia se houver previsibilidade de horários claros, instruções objetivas e adaptação sensorial. Um laudo médico detalhado descreve o perfil funcional do estudante e orienta a equipe de acessibilidade na construção de um plano individualizado, com adaptações curriculares, recursos pedagógicos e estratégias compatíveis com suas necessidades.

Para o psiquiatra, apoios educacionais individualizados, estratégias visuais, rotinas estruturadas e intervenções escolares podem facilitar a rotina de pessoas com TEAFoto: Reprodução

O papel de todos

A UFSM possui um grupo de estudos focado na investigação acerca do processo de inclusão de crianças e jovens com Transtornos do Espectro Autista e o impacto desse processo na família. Fundado em 2009, o Grupo de Pesquisa Educação Especial e Autismo (EdEA) tem como objetivo trabalhar com conhecimento científico, tentar acessar a comunidade para produzir ciência e mostrar os benefícios que diversas pesquisas podem trazer em relação ao autismo, famílias de pessoas com o transtorno e também a formação de professores.

Para a vice-líder do EDEA/UFSM, Jéssica Oliveira, o diagnóstico precoce é fundamental para a estimulação:

– As nossas pesquisas mostram que quanto antes nós iniciarmos o processo de estimulação precoce, em relação às dificuldades que essa pessoa tem, melhores serão os resultados nas próximas fases de vida. Então como o autismo é um espectro, as características se apresentam de forma diversificada em cada indivíduo.

Jessica participa do grupo EDEA desde o terceiro semestre da graduação e atualmente é professora de Educação Especial do Colégio de Aplicação da UFRGSFoto: Arquivo Pessoal

Além do diagnóstico, o foco também deve estar na permanência desses adultos na graduação.

Mudar a rotina mexe com a organização cognitiva. É difícil essa transição, e o conhecimento geral ainda falta para que possamos pensar em estratégias sensíveis e individuais. Já vi alunas ouvirem de professores: “Nossa, tu é uma pessoa autista e está no ensino superior? Que lindo!”. Isso é um estereótipo, um capacitismo velado que pressupõe que ela não conseguiria estar ali – critica a educadora. 

Para ela, o preconceito nasce da falta de conhecimento e um dos caminhos para a inclusão é dar voz aos alunos neurodivergentes:

Não basta adaptar uma prova. Temos que trabalhar o grupo todo. A neurodiversidade está aí para todos e precisamos escutar os autistas adultos. Eles são a voz sobre o que precisam.

Foto: Vinicius Becker

Como promover inclusão no dia a dia

Os especialistas apontam algumas atitudes que podem fazer diferença no ambiente universitário:

Para professores:

  • Dar instruções claras e objetivas
  • Organizar rotinas e prazos com antecedência
  • Adaptar atividades quando necessário
  • Estar aberto ao diálogo com o estudante
  • Buscar informação sobre o autismo

Para colegas:

  • Evitar julgamentos e estereótipos
  • Respeitar o tempo e as formas de interação
  • Incluir em trabalhos e atividades em grupo
  • Buscar informação sobre o autismo

ENTENDA OS NÍVEIS DE SUPORTE

  • Nível 1 de Suporte (requer apoio) – Indivíduos apresentam dificuldades em iniciar e manter interações sociais, além de prejuízos na comunicação social (por exemplo, dificuldade em manter conversas ou interpretar pistas sociais). Podem parecer socialmente desajeitados e ter dificuldade em se adaptar a mudanças ou alternar atividades. Apesar disso, conseguem funcionar com relativa autonomia, especialmente quando recebem apoio adequado.
  • Nível 2 de Suporte (requer apoio substancial) – ​Há déficits mais evidentes na comunicação social, com dificuldades claras no diálogo e na reciprocidade social, mesmo com suporte. Os comportamentos restritos e repetitivos (como rigidez, necessidade de rotina e interesses intensos) interferem de forma significativa no funcionamento diário. A adaptação a mudanças é difícil, e o funcionamento independente é mais limitado.
  • Nível 3 de Suporte (requer apoio muito substancial) – Indivíduos apresentam comprometimento grave na comunicação social, com pouca ou nenhuma iniciativa de interação e resposta mínima aos outros. Os comportamentos repetitivos e a rigidez são intensos e causam grande prejuízo no funcionamento cotidiano. Há grande dificuldade para lidar com mudanças, podendo ocorrer sofrimento significativo diante de transições ou demandas novas.

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