Mesmo com adoção de medidas, Husm ainda lida com superlotação de pronto-socorro

Mesmo com adoção de medidas, Husm ainda lida com superlotação de pronto-socorro

Fotos: Vinicius Becker

Referência para mais de 40 municípios gaúchos, o Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) voltou a registrar superlotação no Pronto-Socorro. Segundo dados da instituição, 54 pacientes estavam em atendimento na unidade na tarde de segunda-feira (13). O fenômeno altera tanto a dinâmica das equipes hospitalares quanto a vida de quem busca atendimento.

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De uma maca no corredor, a autônoma Cleida Rocha, 58 anos, acompanha a movimentação. Moradora de Tupanciretã, ela foi encaminhada para o Husm na madrugada do dia 6 após sofrer um acidente de moto. No local, aguarda por uma cirurgia no braço esquerdo. Em entrevista ao Diário na última quinta-feira, ela falou sobre a situação:

Eu fui transferida de Tupanciretã para cá, porque lá não tem como fazer a cirurgia. Quando cheguei, colocaram-me no corredor e por aqui, estou aguardando, sem previsão de cirurgia. É uma situação horrível, porque você não tem descanso. É muita gente.

A autônoma permanece atenta à passagem dos médicos, enfermeiros, técnicos e demais profissionais que realizam avaliações, entrega de remédios ou alimentos no local. Cada abordagem é uma chance de entender a situação e delimitar o tempo de espera por uma solução.

As enfermeiras são sempre bem prestativas, e os médicos, também. Eles chegam e explicam que não tem previsão (para a cirurgia) e eu não tenho queixa. Sou muito bem atendida. Agora, é aguardar. Não tem outra coisa – afirma Cleida, que até essa segunda-feira, permanecia no Pronto-Socorro à espera do procedimento cirúrgico.


Esforços

O total de pessoas em atendimento hoje supera a capacidade projetada para o Pronto-Socorro, que é de 29 leitos. A situação tem levado a superintendência da instituição a adotar medidas que pudessem reduzir os números. O plano de trabalho foi compartilhado pelo superintendente do Husm, Humberto Palma, em entrevista ao Diário:

– Temos um número (de pacientes) que flutua conforme altas e chegadas. Já registramos de 80 a 85 pacientes aqui, sendo que só temos 23 leitos de observação e seis na sala vermelha, que é destinada a pacientes de alto risco. Conseguimos, ao longo do ano passado, com o projeto Lean em Emergências, otimizar o fluxo do paciente dentro do hospital e, até mesmo, obter um número significativo de transferências de pacientes para outros hospitais, diminuindo o tempo de espera. Também aumentamos o número de cirurgias e giro de leito, ou seja, aquele paciente sai mais rápido e entra um outro no lugar. Com isso, atingimos 95% de cumprimento do nosso contrato com o Estado. Somos o único hospital aqui de Santa Maria que atingiu isso. Mas, essas são apenas as medidas internas. Podemos melhorar e estamos trabalhando para isso.

O aumento no número de atendimentos no intervalo de um ano também é uma preocupação levantada por Palma:

– Nós temos um limite. Em março de 2025, chegavam ao nosso hospital 800 pacientes por mês. Este ano, até março, chegaram 1.317 usuários em uma linha de crescimento como se fosse uma rampa. Não tem outro caminho senão subir. E para nós, isso é muito perigoso, porque sobrecarrega a equipe, a estrutura e os equipamentos, impactando no nosso ensino e no nosso objetivo principal, que é cuidar de forma humanizada do paciente.

Considerando o atual cenário, o hospital orienta que a população procure o Pronto-Socorro apenas em situações de necessidade imediata. Casos com sintomas de baixa gravidade devem receber encaminhamento para postos de saúde ou unidades de Pronto Atendimento. A medida busca garantir, principalmente, o socorro aos casos de alta complexidade em Santa Maria e região.

– O Husm atende pacientes de alto risco ou com necessidades imediatas. Se o paciente tem condição de ser tratado, observado ou orientado em Pronto Atendimento ou unidade de saúde, ele não precisa vir para o nosso Pronto-Socorro. É importante que ele não venha para cá em busca de alívio para uma dor simples ou pequeno trauma, mas, sim, se realmente necessário – afirma Palma.


Segurança hospitalar

Além do atual cenário, o Husm teve que lidar com o boato de que uma superbactéria estaria circulando pelo hospital e teria resultado em amputações de membros de pacientes. Ao Diário, Palma negou a existência de casos do tipo:

Não confere. Não há superbactéria aqui no hospital universitário. O que tem são as infecções comuns no próprio hospital, mas não existem superbactérias, supervírus, super agentes. O que temos são pacientes que tiveram a necessidade de fazer o procedimento cirúrgico de amputação por infecção ou por insuficiência vascular, de acordo com as indicações utilizadas em protocolos das suas especialidades. Mas não há casos de superbactéria.

Ainda de acordo com Palma, a segurança de pacientes e acompanhantes é uma prioridade do Husm, embora muitas normas e regras específicas não prevejam a atual situação.

– Seguimos as regras da Vigilância em Saúde, conselhos profissionais, normas de segurança do paciente da Ebserh, entre outras. Mas a superlotação implica em um risco maior, porque as normas não preveem essa situação. Seguimos o passo a passo para evitar complicações. Mas, infelizmente, podemos ter. Nosso objetivo é dar maior segurança possível para as 5 mil a 7 mil pessoas que circulam diariamente no hospital – conclui o superintendente do hospital.

Foto: Vinicius Becker



“Sempre comunicamos as situações críticas e não é de hoje”

Com os altos índices de ocupação do Pronto Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), o envio de dados para o Ministério Público, Secretaria Estadual da Saúde (SES), Coordenadorias Regionais de Saúde e demais secretarias municipais de saúde se tornou parte da rotina da gestão. Segundo o superintendente Humberto Palma (foto abaixo), a finalidade desta comunicação é atualizar os órgãos de fiscalização sobre a realidade da unidade, que apresenta quadros de superlotação há muitos anos.

Nós sempre comunicamos a todos os órgãos. O Ministério Público, o Conselho de Medicina, a Secretaria Estadual de Saúde, a Regional e Brasília sobre as nossas condições. Isso é para que nenhum órgão seja tomado de surpresa. Sempre comunicamos as situações críticas e não é de hoje que é sabido que o Hospital Universitário apresenta um Pronto-Socorro em situação de superlotação, diferente da capital que tem seus ciclos – afirma Palma.

O objetivo da gestão hoje é alterar a lógica de funcionamento do Pronto-Socorro, no qual o número de pessoas em atendimento excede a marca de 100% da capacidade instalada. Conforme Palma, a busca por atendimento no HUSM não apresenta quedas significativas em períodos específicos, o que diferencia a unidade de outros centros de saúde do estado.

Temos aqui constantemente há anos o hospital superlotado e o nosso objetivo é inverter essa lógica. O normal é estar até 100% e não acima disso. Então, vamos continuar lutando e trabalhando para atingirmos número inferior a 100% de ocupação no nosso Pronto Socorro.

Superintendente do hospital, Humberto Palma admite situação críticaFoto: Vinicius Becker



Posicionamentos

Diante da situação do Husm, que recebe recursos estaduais e federais, a reportagem entrou em contato com o Ministério da Saúde e a Secretaria Estadual da Saúde (SES).

Em nota, o órgão federal disse que “o SUS tem gestão descentralizada, com responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios” e que caberia apenas a pasta “formular políticas, definir diretrizes e repassar recursos”.
Os repasses são feitos regularmente com base em critérios como população, perfil epidemiológico e capacidade instalada. A execução dos serviços é responsabilidade dos gestores locais, que organizam a rede e definem prioridades, inclusive nas unidades com gestão federal – completou o Ministério.

Já a Secretaria Estadual da Saúde afirmou que “tem ciência do cenário de superlotação enfrentado pelo Pronto-Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), o qual vem sendo sistematicamente acompanhado por meio das informações encaminhadas pela instituição, bem como pelos dados assistenciais monitorados pela gestão estadual, em articulação com a 4ª Coordenadoria Regional de Saúde e os demais entes da Rede de Atenção às Urgências e Emergências”.

Ainda segundo a pasta estadual, o “Husm configura como serviço de referência macrorregional, com múltiplas habilitações em média e alta complexidade no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)”, atendendo 1,2 milhões de usuários e “tal condição implica elevado volume de atendimentos e o torna mais suscetível a períodos de superlotação sazonal, fenômeno igualmente observado em outros serviços de porte semelhante no Estado do Rio Grande do Sul”.

Mesmo com a justificativa, a SES reforça que “permanece acompanhando de forma contínua o cenário” e deve buscar “à adoção de medidas que contribuam para a mitigação dos efeitos da superlotação e para a qualificação do atendimento prestado à população”.

Questionada sobre um possível fechamento do Pronto-Socorro do Husm, a Secretaria Estadual da Saúde descartou a possibilidade.

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