A falta de vagas em creche é uma das demandas mais frequentes das famílias brasileiras. Ela aparece nas filas das secretarias de educação, nos debates eleitorais, nas audiências públicas e na rotina das mães e pais que precisam trabalhar, estudar e organizar a vida familiar. Mas, por trás de cada vaga solicitada, existe uma questão maior: a capacidade do município de planejar sua rede de educação infantil.
O Brasil avançou, mas ainda tem um longo caminho pela frente. Segundo dados do Censo Escolar de 2025, o país alcançou o maior patamar histórico de crianças de 0 a 3 anos com acesso à creche: 41,8%. É um avanço importante, mas ainda distante do novo desafio colocado para a próxima década. O novo Plano Nacional de Educação estabelece que o país deve atender 100% da demanda manifesta por creche e atingir, em nível nacional, pelo menos 60% das crianças de até 3 anos até o final de sua vigência.
Esse dado muda o peso da discussão. A creche deixa de ser apenas uma promessa desejável e passa a ser uma obrigação concreta de planejamento público. Não basta dizer que serão criadas novas vagas. Será preciso saber onde está a demanda, qual faixa etária precisa ser atendida, quais bairros concentram maior pressão por matrícula e quais soluções são mais adequadas: construção de nova unidade, ampliação de escola existente, reorganização da rede ou combinação de diferentes estratégias.
Em Santa Maria, os dados oficiais do relatório do MEC ajudam a dimensionar o tema. O município possui 79 escolas com oferta de creche, 515 professores e 3.872 estudantes nessa etapa. Na pré-escola, são 115 escolas, 609 professores e 5.598 estudantes. No total, considerando todas as redes, Santa Maria possui 186 escolas de educação básica e 51.745 estudantes. São números expressivos, que mostram a importância da educação infantil dentro da estrutura educacional do município.
O relatório também informa que Santa Maria teve 211 matrículas ampliadas em 2025 no Programa de Apoio à Manutenção da Educação Infantil, com investimento de R$ 1.262.508. É um dado relevante porque mostra que existem políticas federais em andamento. Mas o acesso ao recurso, por si só, não resolve o problema. Para que a política chegue à criança, é preciso transformar financiamento em vaga real, em sala funcionando, em equipe contratada, em alimentação, mobiliário, segurança, projeto pedagógico e espaço adequado.
A nova meta do PNE também reforça outro ponto essencial: creche não é apenas atendimento. É educação infantil. Isso significa que a ampliação de vagas precisa vir acompanhada de qualidade. Uma unidade de creche exige projeto arquitetônico adequado, ambientes seguros, áreas de repouso, espaços de alimentação, banheiros infantis, acessibilidade, áreas externas, materiais pedagógicos e condições dignas para os profissionais que atuam com as crianças.
O desafio da próxima década será justamente esse: unir acesso e qualidade. Municípios que não tiverem diagnóstico territorial, projetos técnicos prontos, terrenos aptos, planejamento orçamentário e capacidade de execução terão dificuldades para aproveitar as oportunidades abertas pelos programas federais. A experiência mostra que, muitas vezes, o recurso existe, mas a obra não avança porque faltou etapa anterior: estudo de demanda, definição correta do local, projeto viável e acompanhamento técnico.
Santa Maria e os municípios da região central do Rio Grande do Sul precisam olhar para essa agenda com seriedade. A educação infantil é a porta de entrada da trajetória escolar. Uma boa creche apoia o desenvolvimento da criança, dá segurança às famílias e fortalece a política educacional do município desde a primeira infância.
O novo PNE aponta o caminho. Cabe aos municípios transformar a meta nacional em planejamento local. Creche não se resolve apenas com promessa. Resolve-se com diagnóstico, projeto, gestão e execução.
A TR Assessoria e Projetos atua justamente nessa integração entre planejamento educacional, infraestrutura e políticas públicas, apoiando municípios na leitura de seus dados, na organização de prioridades e na transformação de programas federais em soluções concretas para a rede de ensino.
Tiago Radünz | Arquiteto e Urbanista | CEO da TR Assessoria & Projetos