Foto: Vinicius Becker
Transporte rodoviário de cargas movimenta 85% de toda a economia do Estado
O aumento no preço do diesel continua a chegar ao bolso do consumidor e a pressionar toda a cadeia logística no Rio Grande do Sul. Em entrevista ao Bom Dia Cidade, da Rádio CDN, nesta sexta-feira (24), o presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul), Francisco Cardoso, afirmou que o reajuste no combustível obrigou transportadoras a renegociarem contratos e repassarem os custos ao frete. Na sua avaliação, a tendência é que o preço continue alto mesmo com possível trégua na guerra no Irã.
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Segundo ele, o diesel representa entre 40% e 45% dos custos variáveis das empresas de transporte rodoviário de cargas.
— Para que as pessoas tenham ideia do impacto disso, o transporte rodoviário de cargas movimenta 85% de toda a economia do Rio Grande do Sul. E o combustível, o diesel, representa entre 40% e 45% dos nossos custos variáveis. Quando acontece um aumento dessa magnitude, as empresas não têm capacidade de absorver e precisam renegociar seus contratos para garantir a continuidade das operações — explicou.
Reajuste no diesel chegou a 30%
De acordo com Cardoso, após a escalada da tensão internacional envolvendo o Irã, o diesel teve alta entre 25% e 30%, dependendo da região do país. O reflexo foi imediato no setor de transportes.
Segundo ele, a orientação da federação foi para que as empresas buscassem rapidamente a revisão das tarifas com seus contratantes.
— O aumento foi muito grande e muito rápido. Quando tu tens uma alta de 25% a 30% sobre um insumo que representa quase metade do custo da operação, não existe margem para absorção. A empresa precisa repassar isso, senão ela compromete a segurança, a qualidade do serviço e até a própria sustentabilidade do negócio — afirmou.
Frete subiu, em média, 10%
O presidente da Fetransul destacou que o repasse já foi feito pela maior parte das transportadoras. Uma pesquisa realizada pela entidade apontou que cerca de 70% a 75% das empresas já haviam renegociado os valores há cerca de 25 dias.
Na média, o reajuste no frete ficou em torno de 10%, embora o percentual varie conforme a operação e a região atendida.
— O frete não tem um índice único porque depende muito da atividade e da rota. Mas, em média, o aumento ficou em torno de 10%. É um percentual elevado, mas necessário diante da participação que o diesel tem dentro da estrutura de custos — disse.
Diferença regional agrava cenário
Francisco Cardoso também ressaltou que o impacto não é igual em todo o país. Segundo ele, à medida que o transporte se afasta do Rio Grande do Sul, o custo tende a subir ainda mais.
Estados como Santa Catarina, Paraná, São Paulo e principalmente o Nordeste apresentam maior pressão sobre o preço do diesel, em parte por conta da política de paridade internacional e da atuação de refinarias privadas.
— No Nordeste, por exemplo, existe uma refinaria privada que pratica preço com paridade internacional. Isso eleva ainda mais o custo. Então, dependendo da região, o impacto pode ser ainda mais severo para o transportador e, consequentemente, para o consumidor final — pontuou.
Setor cobra redução de ICMS e medidas do governo
Diante do cenário, a Fetransul tem buscado alternativas junto aos governos estadual e federal para reduzir a pressão sobre o diesel. Uma das propostas apresentadas foi a redução ou até a suspensão temporária da cobrança de ICMS sobre o combustível.
Segundo Cardoso, o pedido foi levado ao governo do Estado para que houvesse protagonismo no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), já que qualquer mudança precisa de aprovação unânime entre os estados.
— Nós defendemos que o governo tivesse protagonismo nessa discussão, buscando a redução ou suspensão do ICMS. Como isso depende do Confaz, precisa de uma decisão nacional. Depois, o próprio governo federal também começou a discutir medidas, como subvenções e redução de tributos, mas ainda há muita incerteza sobre como isso vai funcionar na prática — explicou.
Expectativa é de diesel caro ao longo de 2026
Para o presidente da entidade, mesmo com eventual trégua no cenário internacional, a tendência é de manutenção dos preços elevados ao longo do ano.
Ele avalia que os impactos da guerra sobre refinarias, estoques e embarques ainda devem manter o petróleo acima do patamar anterior ao conflito.
— Mesmo que haja um acordo internacional, os reflexos não desaparecem de imediato. Houve atraso em embarques, problemas em refinarias e reposição de estoques. A nossa expectativa é que ainda neste ano o combustível continue com preços altos. O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, então essa dependência externa pesa muito — concluiu.
Confira a entrevista