Foto: Reprodução
A educação pública de Santa Maria rompe, mais uma vez, fronteiras e alcança um dos endereços acadêmicos mais prestigiados do mundo. Aos 18 anos, a estudante Mariana Rodrigues Chaves, do Colégio Militar de Santa Maria, foi aprovada com bolsa integral para cursar Governo e Economia na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Além de um currículo de excelência, ela carrega a formação da escola pública e o propósito de transformar conhecimento em impacto social.
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A confirmação da aprovação chegou próximo ao final de 2025, em 18 de dezembro, poucos dias após a conclusão do Ensino Médio. O momento, vivido ao lado da mãe, resume anos de preparação silenciosa, disciplina e escolhas feitas com antecedência. Mariana ingressou no Colégio Militar aos 12 anos e passou sete anos no Sistema Colégio Militar do Brasil, período em que construiu uma rotina intensa de estudos e atividades extracurriculares.
Como tudo começou

Foi ainda na adolescência que ela começou a se aproximar do debate político e das relações internacionais, ao integrar um clube voltado a simulações da Organização das Nações Unidas (ONU). Ali, discutia conflitos globais, diplomacia e decisões internacionais. No entanto, foi o voluntariado, por meio do Interact Club de Santa Maria-Dores, clube de voluntariado ligado ao Rotary International, que aproximou a estudante de realidades sociais mais próximas e ajudou a dar sentido prático ao conhecimento teórico.
– Eu comecei entendendo muito sobre os problemas do mundo, mas pouco sobre os problemas da minha própria realidade. O voluntariado me mostrou pessoas, histórias e desafios concretos. Foi ali que eu entendi que queria trabalhar com impacto social, por meio da política e da economia – relata Mariana.
Paralelamente, ela se tornou bolsista de iniciação científica (PIBIC) ainda no Ensino Médio, desenvolvendo pesquisas na área de finanças comportamentais, em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A experiência aprofundou o interesse pela economia e pela formulação de políticas públicas, área que passou a enxergar como um caminho possível para transformar realidades de forma estrutural.
“A felicidade é enorme, mas também dá medo”
O processo de candidatura para universidades estrangeiras começou bem antes do terceiro ano. Mariana se preparou ao longo do tempo, com planejamento, organização e apoio de mentoria especializada da Fundação Estudar. Diferentemente do vestibular tradicional, o sistema norte-americano exige histórico escolar consistente, envolvimento extracurricular, cartas de recomendação, testes de proficiência, entrevistas e uma narrativa clara sobre quem é o estudante e o que ele pretende construir.
Para além do prestígio acadêmico, a escolha pela universidade está ligada ao perfil do curso, que alia política aplicada, tecnologia e formação de lideranças. Mariana destaca que se identifica com a cultura de engajamento dos estudantes e com a ideia de que a instituição deve dialogar com os problemas do presente.
A conquista também é atravessada pela dimensão familiar. Junto à mãe, Angélica Moraes, 34 anos, policial militar, Mariana sempre encontrou apoio em casa – ainda que o caminho fosse incerto.
– Eu sempre acreditei no potencial dela, mas sabia que era um processo muito difícil. A felicidade é enorme, mas também dá medo. É ver a filha indo para o mundo. Mesmo assim, eu confio muito nela e nos valores que ela carrega – afirma Angélica.
“Precisamos ocupar esses espaços”

A mudança para os Estados Unidos está prevista para agosto de 2026, início do ano letivo norte-americano. Mariana pretende concluir a graduação em 2030 e, depois, retornar ao Brasil. O plano não inclui, ao menos por enquanto, uma pós-graduação no Exterior.
– Eu quero voltar. Nunca pensei em sair para sempre. A ideia é trazer de volta o que eu aprender, tornar acessível um conhecimento que muitas vezes parece distante da nossa realidade – afirma a estudante que, na semana passada, foi recebida pelo governador Eduardo Leite (PSD) e pela secretária estadual da Educação, Raquel Teixeira.
Para a estudante, ocupar um espaço como Harvard não é apenas uma conquista pessoal, mas um gesto político no sentido mais amplo: mostrar que jovens da educação pública brasileira podem – e devem – estar onde as decisões globais são pensadas.
– Precisamos ocupar esses espaços. Não só eu, mas muitos outros estudantes. É uma forma de devolver à comunidade tudo o que ela me proporcionou – conclui.
A história de Mariana é, ao mesmo tempo, singular e coletiva. Singular pela trajetória construída com disciplina e visão de futuro; coletiva porque reflete o potencial de uma geração que insiste em transformar oportunidades em compromisso com o país de onde veio.