"Café é memória, encontro e experiência”: o rito que move estabelecimentos de Santa Maria

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Seja expresso, passado na hora, curto, longo, puro ou com leite, o café vai além de um produto comercial: ele representa uma tradição diária para milhões de brasileiros. Neste domingo (24), é celebrado o Dia Nacional do Café, data que marca o início da colheita do grão no país. Mas é longe das lavouras, no interior das cozinhas e no burburinho das esquinas de Santa Maria, que o fruto atinge sua verdadeira maturidade: quando vira pretexto para encontro.

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Nas manhãs frias que começam a desenhar o inverno na região, o aroma encorpado da bebida adentra os espaços e desperta os sentidos. É o afago inicial que toca as mãos no início do dia, o acalento logo após o almoço ou a energia extra que estica o entardecer. 


Aumento no consumo

No Brasil, o consumo da bebida voltou a registrar crescimento após a desaceleração dos preços nos supermercados. Nos primeiros quatro meses deste ano, houve uma alta de 2,44% na demanda nacional em comparação com o mesmo período do ano anterior, alcançando a marca de 4,9 milhões de sacas de 60 quilos, conforme dados do setor.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Na última quinta-feira (21), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou que a produção de café deverá crescer 18% na safra deste ano frente ao volume colhido na temporada passada, alcançando 66,7 milhões de sacas. Se isso se confirmar, esta será a maior produção já registrada na série histórica da Conab, superando em 5,74% a colheita registrada em 2020.


“Café é memória, é encontro, é experiência”

Para além da imponência das safras recordes e dos números de consumo, o café opera em uma escala menor e mais íntima: a do cotidiano. Há seis anos, Daniela Pigatto, 44 anos, decidiu que sua vida seria moldada pelo compasso das xícaras. 

O Fabuloso Café, que nasceu na Rua Pasqualini, caminhou para o Calçadão e ganhou corpo na Rua Dr. Bozano, foi erguido sobre uma certeza: a de que as pessoas não buscam apenas cafeína, mas uma experiência. Trabalhando com grãos selecionados de Minas Gerais, a empresária percebeu que a bebida também engloba uma carga emocional:

Daniela Pigatto, 44 anos, proprietária do Fabuloso CaféFoto: Vinicius Becker (Diário)

– Hoje o café é memória, é encontro, é experiência. Então, precisamos de um espaço onde as pessoas venham compartilhar momentos e criar memórias afetivas, encontros de colegas ou reuniões. É uma bebida, símbolo que transforma a vida das pessoas.

A relação de Daniela com o grão carrega o peso da própria ancestralidade afetiva. O vínculo nasceu dos momentos partilhados com a filha, Laura Pigatto, hoje com 19 anos. Na infância da menina, os passeios de final de tarde tinham endereço certo: as cafeterias da cidade. 

Essa mesma costura de afetos se repete do outro lado do balcão. Daniela relembra a rotina de um cliente cativo que, há cerca de um ano, converteu o café em destino. Próximo ao entardecer, ele realiza uma caminhada pelo centro da cidade e faz do café passado na hora o ponto final – e mais caloroso – do seu dia.


“O café deve ser apreciado sem açúcar”

O mesmo movimento é presenciado na Alameda Buenos Aires, sob as luzes alaranjadas do Quiero Café – espaço que há sete anos abriga desde longas conversas entre amigos à escritórios improvisados de quem faz do balcão o seu lugar particular.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Com um cardápio extenso, que ultrapassa os 400 itens, a casa aposta no rito de filtrar a bebida diretamente na mesa do consumidor, permitindo que o aroma alcance o ambiente antes mesmo do primeiro gole. A gerente, Rayssa Gomes, de 27 anos, encontra na própria produção da franquia, cuja torrefação é feita em Gramado, a matéria-prima para desconstruir velhos hábitos do paladar.

Muitos clientes associam um café mais claro ao chamado "chafé" pela cor, mas não é a tonalidade que dita a qualidade, e sim o aroma, as notas de caramelo ou frutadas e o gostinho na boca. O café de qualidade deve ser apreciado sem açúcar, com certeza.


“É quase um estilo de vida”

Por trás do balcão, Bruno da Silva, de 26 anos, descobriu há dois anos que a profissão de barista exige tanto rigor técnico quanto sensibilidade artística. Entre a moagem dos grãos e o controle térmico da água, ele se especializou no latte art (arte com leite), desenhando corações e silhuetas de animais na textura densa do leite vaporizado. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Fazer café significa muita coisa para mim. Envolve tanto a parte artística, onde consigo desenvolver os desenhos, quanto a interação com amigos e trabalho. É quase um estilo de vida. Na nossa área, o aprendizado é muito compartilhado; uma pessoa ensina a outra e todo mundo treina para evoluir. 


“O café surge para darmos essa pausa”

É essa precisão artesanal que molda os encontros na mesa de centro onde Pedro Farias, de 27 anos, e Rafael Rohde, de 30, celebram uma amizade que já ultrapassa os dez anos. Para o gestor e o empreendedor, a xícara fumegante é uma pausa necessária para suspender o ritmo acelerado da rotina. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Hoje, o café é uma oportunidade de parar e fazer uma retrospectiva do que estamos fazendo na nossa vida. Iniciei há dez anos tomando café com açúcar, mas fui eliminando as colheres aos pouquinhos. Não há nada melhor do que uma boa xícara de café e uma boa conversa, principalmente no inverno do Sul.

Ao olhar para o café já servido junto ao amigo, Rafael resume a vocação mais antiga desse costume atemporal: 

– Muitas vezes nos deparamos com a correria do dia a dia e deixamos de ter um momento com um amigo. O café surge para darmos essa pausa, reconectando as pessoas para uma troca de experiências, seja para falar sobre negócios ou simplesmente para manter uma boa conversa.


Aliado do bem-estar

Para além do prazer sensorial, a bebida também se destaca pelos efeitos funcionais no organismo, desde que consumida de forma moderada. O grão é rico em antioxidantes e substâncias biologicamente ativas que auxiliam na liberação de energia. Único na natureza, o café concentra minerais, açúcares, aminoácidos e vitaminas do complexo B, elementos que atuam como aliados diretos do metabolismo celular.

Outro efeito central da bebida é a capacidade de reduzir os impactos da adenosina – o neurotransmissor responsável por sinalizar o cansaço ao cérebro, o que retarda a sensação de sono, eleva discretamente a frequência cardíaca e deixa o corpo em estado de alerta. Em contrapartida, o excesso pode ser prejudicial, abrindo espaço para quadros de fadiga motora e de ansiedade.


A origem

  • Na Etiópia – Reza a lenda de que, no ano 575, na Etiópia, na África, um pastor de cabras chamada Kaldi percebeu que os animais ficavam mais ativos e energizados após comer frutinhas vermelhas. Ele teria contado o fato a um monge local, que passou a investigar os poderes mágicos dessa fruta. Foi então que os monges descobriram o café e começaram a preparar a bebida. 
  • No mundo árabe – O cultivo do café a e bebida acabaram se espalhando pelo mundo árabe, onde ganhou fama. No século 15, o café já era cultivado em países como Iêmen e Egito. Nos países árabes, surgiram as primeiras casas de café, onde ocorriam encontros para conversar e também filosofar.
  • Na Europa – No século 17, o café chega à Europa em Veneza, por meio de mercadores italianos. Poucos anos depois, começaram a serem abertas cafeterias em cidades como Londres, Paris e Viena. Em 1675, o rei rei da Inglaterra chegou a tentar fechar as casas de café, alegando que o povo se reuniu nesses locais para conspirar contra o governo.
  • No Brasil – Aqui, o café chegou em 1727, vindo de forma clandestina em uma mala trazida pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta. O grão começou a ser cultivado no Nordeste, depois foi para o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.


Maiores produtores do mundo – Os maiores produtores de café do mundo hoje são o Brasil, com 66 milhões de sacas por ano, seguido do Vietnã (29 milhões), Colômbia (13 milhões), Indonésia (10 milhões) e Etiópia (8 milhões)

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