O que a Copa do Mundo nos ensina sobre liderança

Confesso que toda Copa do Mundo eu assisto com dois olhares. Um é o do torcedor, que sofre e comemora. O outro é o de quem trabalha com pessoas todos os dias e não consegue deixar de reparar nos bastidores, nos comportamentos. Bom, é um curso intensivo de liderança. Em poucas semanas, o torneio escancara o que costuma levar anos para ficar claro dentro de uma empresa: times cheios de estrelas que desmoronam, seleções modestas que vão além do esperado e sempre alguém no centro fazendo a diferença.

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Talento não vence sozinho: o poder da coesão

A história das Copas é um cemitério de seleções brilhantes que não deram certo. A França em 2002, o Brasil em 2006: grupos cheios de craques que voltaram para casa cedo, enquanto times disciplinados e unidos seguiam em frente. Para mim, a mensagem não poderia ser mais direta: liderança nunca foi juntar os melhores currículos numa sala e esperar mágica. É pegar esses talentos e transformá-los em um time de verdade, com identidade e um objetivo que todo mundo compra. O exemplo que sempre me vem à cabeça é a Espanha de 2010. Não era o time do craque salvador, do jogador que resolvia sozinho; era o time do coletivo, do toque de bola, de onze pessoas jogando como uma só. Cada um abria mão de um pouco do próprio brilho para que o conjunto funcionasse e foi exatamente assim que levantaram a taça. A Espanha nos ensina que, quando o time para de disputar holofotes e passa a jogar junto, ele fica maior do que a soma dos seus nomes. As equipes que me marcaram nunca foram as mais estreladas. Foram as que confiavam umas nas outras.

Decisão sob pressão e resiliência nos momentos decisivos

Se a fase de grupos mostra preparo, o mata-mata mostra caráter. É ali que a liderança aparece de verdade: na hora de mudar o plano que não está funcionando, de fazer a substituição que ninguém espera, de bancar uma decisão sabendo que ela pode dar errado. E, talvez o mais difícil, seja segurar o time emocionalmente depois de um gol sofrido ou de um pênalti perdido. Aprendi a admirar essa resiliência, a capacidade de virar a página rápido e seguir jogando. Não é frieza; é maturidade. E reparo que isso raramente vem de uma pessoa só: os grandes times têm líderes espalhados pelo campo, gente que puxa o grupo quando o técnico não alcança. Cabo Verde, na Copa de 2026, é o retrato disso para mim. Um país de meio milhão de habitantes, estreando na Copa do Mundo pela primeira vez na história, sem estrelas milionárias, foi longe justamente porque cada jogador entendeu que ali ninguém era grande sozinho; o tamanho vinha do grupo. Ver aquele time segurar a pressão contra seleções muito mais poderosas me lembrou que liderança não depende de orçamento nem de fama: depende de gente que acredita junto e não se acovarda quando o jogo pega fogo. Crises vão acontecer sempre. O que muda o jogo é como você se comporta quando tudo parece desabar.

O troféu vai para o mais bem liderado

A Copa do Mundo nos lembra que liderar é muito mais do que reunir talentos: é criar estrutura, cultivar coesão e sustentar a equipe emocionalmente diante da adversidade. Os grandes líderes, dentro e fora dos gramados, são aqueles que transformam indivíduos em times, mantêm a serenidade sob pressão e constroem uma cultura capaz de sobreviver a qualquer ciclo. No fim, o troféu não vai para o time mais estrelado, mas para o mais bem liderado.

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Ronie Gabbi

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