Foto: Nathália Schneider (arquivo, Diário)
Na região, cidades banhadas por rios possuem a tradição de procissões fluviais
No Brasil, 02 de fevereiro é o dia em que duas grandes expressões da fé popular se encontram: a celebração de Iemanjá, orixá, considerada rainha das águas nas religiões de matriz africana e a devoção católica a Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos que vivem, da pesca, da navegação, dos rios e do mar.
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Apesar de origens distintas, as duas figuras compartilham algo essencial: são mães espirituais, guardiãs dos caminhos líquidos que ligam povos, histórias e esperanças. A popularidade de ambas atravessa religiões, gerações e classes sociais, transformando o 02 de fevereiro em uma das datas religiosas mais simbólicas do país.
A força de Iemanjá: a mãe das águas que acolhe pedidos e oferendas
Nas religiões de matriz africana, como a Umbanda, Iemanjá é uma das orixás mais cultuadas. Considerada a rainha das águas, ela representa a maternidade, a proteção, o acolhimento e a fertilidade. Seu domínio são as águas salgadas, mas sua presença simbólica se estende a rios, lagoas e cachoeiras, especialmente em regiões onde o litoral não está próximo.

Santa Maria possui uma forte tradição umbandista. Segundo a Liga Espiritualista de Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros de Santa Maria (Leucab), a cidade possui cerca de 1,3 mil Casas de Umbanda, o que reforça a participação da religião na cidade.
Na Umbanda, o ritual à Iemanjá costuma ser acompanhado por pontos (cantigas) cantados, palmas, sons de atabaque e orações que pedem saúde, equilíbrio emocional e caminhos abertos. Para Ronaldo Gonçalves Dias, vice-presidente da Leucab, a devoção atravessa mais de 40 décadas.
– Iemanjá é a mãe de todas as mães. Aquela que acolhe dores, acalma tempestades internas e conduz os filhos espirituais em segurança. Dentro da religião nós cultuamos ela o ano inteiro, mas neste dia é comum que as pessoas preparem oferendas com e rituais dentro dos terreiros e em pontos da natureza. Para ela são oferecidos canjica branca, arroz doce, cocada, flores e espumantes claros, frutas, além de produtos e itens de beleza, como o abebê (espelho de mão) e pente – explica

As cores mais associadas a Iemanjá são o branco e os tons de azul, que representam a pureza, a tranquilidade e a imensidão das águas. Muitos fiéis vestem roupas nessas cores como sinal de respeito e conexão espiritual.
Ronaldo destaca ainda que relatos de graças alcançadas são comuns, como curas, reconciliações familiares, empregos conquistados e proteção em momentos de perigo.
Nossa Senhora dos Navegantes: a protetora das travessias e dos que vivem do mar
No catolicismo, o mesmo dia 02 de fevereiro é dedicado a Nossa Senhora dos Navegantes, uma das invocações mais populares de Maria no Brasil, especialmente no Sul.
A devoção chegou ao país por influência portuguesa e espanhola, ligada à proteção dos marinheiros e pescadores que enfrentavam longas e perigosas viagens marítimas. No entanto, o padre Junior Lago, da Arquidiocese de Santa Maria, explica que as primeiras demonstrações de fé à Navegantes datam de cerca de 2 mil anos atrás
– Na igreja católica é uma das tradições mais antigas. No passado ela era chamada de Nossa Senhora Estrela do Mar, pois os navegantes se guiavam pelas estrelas durante as noites escuras. Com o passar dos anos a santa passou a ganhar popularidade na igreja católica, pois na Bíblia está escrito que jesus chamou pescadores e andou na barca de Pedro, então existe essa proximidade com os rios, mares e peixes. Onde existir rios, mares, lagos, haverá uma Nossa Senhora intercedendo por aquele povo – ressalta o pároco da Catedral Metropolitana de Santa Maria.
As celebrações costumam reunir grandes procissões terrestres e fluviais. Na região, a festa mais antiga acontece em Dona Francisca. São mais de 100 anos de devoção pelas águas do Rio Jacuí com dezenas de embarcações que carregam a imagem da santa enfeitadas com flores e bandeiras. Restinga Sêca, Rosário do Sul e São Gabriel, são outros municípios que também possuem essa tradição à Navegantes.
– Para muitos devotos, a santa é presença constante nas travessias da vida, tanto as físicas quanto as emocionais – ressalta o padre
Duas devoções, um mesmo sentimento popular
Embora pertençam a tradições religiosas distintas, Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes se encontram no coração do povo brasileiro como símbolos de cuidado, proteção e esperança.
Em muitas cidades, é comum ver pessoas que participam tanto das homenagens à orixá quanto das procissões católicas, refletindo o sincretismo religioso que marca a história do país. Para uns, é a mãe das águas que recebe as oferendas; para outros, é Maria que guia os barcos e as famílias. Para muitos, são diferentes nomes que expressam a mesma busca por amparo espiritual.

Seja sob os cânticos da Umbanda ou as orações católicas, as águas seguem levando pedidos, agradecimentos e sonhos
Celebrações na Região:
Dona Francisca:
- 31/01: Missa
- Local: Paróquia São José
- Horário: 19h
- 01/02: Missa Festiva e almoço no Salão Paroquial
- Horário: 10h (missa) e 12h (almoço)
- 02/02: Procissão fluvial e após missa festiva na Paróquia São José
- Local: Porto do Rio Jacuí
- Horário: 19h30 (procissão)
Restinga Sêca:
- 01/02: Procissão fluvial e terrestre
- Local: Balneário Passo das Tunas
- Horário: 09h15 (fluvial) e 09h40 (terrestre)
- Missa Campal no Balneário
- Horário: 10h
- Almoço Festivo no Balneário
- Horário: 12h
- Show-Baile no Balneário
- Horário: 14h
Rosário do Sul
02/02: Procissão e benção das velas e das águas
Local: Praia das Areias Brancas
Horário: 19h45
*Procissão parte da Praia das Areias Brancas e segue em procissão até a paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes no Bairro Progresso onde haverá missa campal
São Gabriel
01/02: Carreata pela cidade e procissão fluvial no Rio Vacacaí
Local: Bairro progresso até a Praia da Alegria
Horário: a partir das 21h
*As celebrações nas casas de umbanda em Santa Maria, variam conforme a programação individual de cada.