
Fundado em 1938 e responsável pela formação de centenas de aviadores ao longo de quase nove décadas, o Aeroclube de Santa Maria vive agora um novo capítulo. Em janeiro deste ano, a instituição recebeu da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) a certificação que permite ampliar a formação de pilotos, incluindo cursos de piloto comercial, voo por instrumentos e instrutor de voo. A conquista reforça o papel do aeroclube como um dos principais polos de instrução aérea do Rio Grande do Sul e também ajuda a aproximar a comunidade de um espaço que, apesar de tradicional na cidade, ainda é pouco conhecido por muitos.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
A convite da instituição, a reportagem do Diário passou um dia no aeroclube para conhecer de perto a rotina de quem aprende a voar. Ao longo da visita, foi possível acompanhar o funcionamento da escola, conversar com instrutores e alunos e entender as etapas da formação de um piloto. A experiência também incluiu um voo de instrução, que permitiu sentir na prática a emoção e a responsabilidade de estar no ar.

Um espaço histórico que formou gerações de pilotos

A história do Aeroclube começou em 1938, quando o funcionário municipal João Carlos Hausen, que mais tarde se tornaria piloto, idealizou a criação do então Santa Maria Aeroclube Sport. No início, a estrutura era simples: um planador, poucos recursos e muita determinação.
Com o passar das décadas, o espaço se consolidou como uma escola de voo e também como um símbolo da cultura aeronáutica na cidade. Hangar, aeronaves de instrução e salas de aula passaram a compor a estrutura que atraiu jovens interessados em aprender a voar e construir carreira na aviação.
Hoje, instalado na Base Aérea de Santa Maria e compartilhando o espaço com a Força Aérea Brasileira e com o aeroporto civil da cidade, o aeroclube é reconhecido como um centro de instrução de aviação civil. A estrutura atual inclui hangar, salas de aula equipadas, simulador de voo e uma frota voltada à formação completa de pilotos.

Certificação amplia formação e evita que alunos precisem sair da cidade

A certificação obtida junto à ANAC representa um avanço importante para a instituição. A partir dela, o Aeroclube de Santa Maria passou a operar sob as exigências do Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC) nº 141, que estabelece padrões mais rigorosos para a formação de pilotos. Com a nova autorização, a escola agora oferece cursos e qualificações que abrangem diferentes etapas da carreira aeronáutica, sendo uma delas é a habilitação para voo por instrumentos, necessária para operar em condições meteorológicas adversas.
De acordo com o diretor-presidente da Escola de Aviação Civil, Aleques Machado Martins, 51 anos, a certificação foi resultado de um processo de cerca de um ano e meio de preparação da instituição para atender às exigências da agência reguladora. Essa ampliação também deve mudar a realidade dos alunos que iniciam a formação na cidade.
– A partir de agora, o aluno pode começar a carreira aqui e terminar aqui. Antes ele precisava sair da cidade para completar a formação, o que significava mais custos com deslocamento e hospedagem – conta Martins.

Como funciona a formação de um piloto

Para quem observa um avião cruzando o céu, o caminho até a cabine pode parecer distante. No aeroclube, porém, a formação é aberta à comunidade e começa com passos bem definidos.
O primeiro contato do aluno é com o curso teórico, realizado em turmas que costumam ter entre oito e quinze estudantes. As aulas ocorrem no período da noite, das 19h às 22h, e abordam cinco disciplinas principais: meteorologia, navegação aérea, teoria de voo, conhecimentos técnicos e regulamentos aeronáuticos.

Após essa etapa, Aleques explica que o estudante realiza uma prova teórica aplicada pela ANAC. Somente depois da aprovação começa a fase prática de voo. E antes de subir ao avião, o futuro piloto ainda precisa comprovar aptidão física por meio de exames médicos específicos exigidos pela aviação civil.
Já na etapa prática, os alunos passam por uma sequência de missões de voo que atualmente totalizam cerca de 42 horas de treinamento até a obtenção da primeira licença. O curso teórico tem duração de quatro meses e custa R$ 1.527. Segundo Martins, esse valor pode ser parcelado em até quatro vezes. Já a hora de voo para os alunos custa R$ 540 cada.
Nesse processo, um dos momentos mais marcantes é o chamado voo solo, quando o aluno pilota a aeronave sozinho pela primeira vez.
– É o batismo do piloto. O instrutor sai do avião, bate nas costas do aluno e diz que agora é com ele. Todos relatam aquele momento em que olham para o banco vazio ao lado e percebem que estão voando sozinhos — conta o diretor-presidente.

Antes do primeiro voo

Antes de qualquer decolagem, a preparação começa em sala, no chamado briefing, momento em que instrutor e aluno revisam o plano do voo. Instrutor no Aeroclube de Santa Maria, Irajá Santos Witt, 43 anos, afirma que essa conversa inicial é obrigatória. É nessa estapa que também é analisado o desempenho em voos anteriores e explicado detalhadamente o que será feito durante a missão.
O curso de piloto privado, porta de entrada para quem deseja seguir carreira na aviação, exige entre 45 e 50 horas de voo e é dividido em diferentes fases. No início, os alunos aprendem as manobras básicas, como decolagem, alinhamento na pista e controle da aeronave. A primeira etapa é chamada de pré-solo. Ela antecede um dos momentos mais marcantes da formação: o voo solo. Geralmente por volta da 18ª hora de voo, o aluno decola sozinho pela primeira vez, realiza um circuito e pousa sem a presença do instrutor.
– É quando o aluno “ganha asas”. Ele decola sozinho, faz o circuito e pousa – resume Witt.

Depois dessa etapa, o treinamento avança para fases de aperfeiçoamento, navegação e voos noturnos, até chegar ao chamado check, a avaliação final que habilita o piloto privado. Segundo o instrutor, nas primeiras aulas o aluno observa mais do que executa. Aos poucos, porém, passa a assumir os comandos da aeronave.
– No começo ele está memorizando e entendendo o que acontece. Depois passa a aplicar e, lá na frente, a executar praticamente tudo sozinho, enquanto o instrutor apenas corrige – explica.
Além da formação técnica, os alunos do aeroclube também treinam em um ambiente considerado privilegiado para a aprendizagem. O aeroporto de Santa Maria possui torre de controle e tráfego aéreo organizado, algo que nem sempre ocorre em outros aeroclubes do país.
– O aluno já aprende em área controlada, falando com a torre e seguindo todos os procedimentos. Isso faz diferença quando ele vai voar em aeroportos maiores – afirma.
“O avião ensina a ter respeito”, diz piloto com mais de meio século de experiência

Entre os nomes que ajudaram a construir a história da aviação em Santa Maria está o piloto Alcion Nunes Leite, 77 anos, considerado o mais antigo na cidade. Com 55 anos de experiência na aviação, hoje ele atua como coordenador dos cursos teóricos e dedica parte do tempo a ensinar aerodinâmica aos novos alunos.
Segundo Leite, o princípio do voo está ligado à diferença de pressão gerada nas asas da aeronave. Quando o ar passa pela parte superior da asa, ele se desloca mais rápido, criando uma região de menor pressão. Na parte inferior, a pressão maior empurra o avião para cima, garantindo a sustentação.
Ao longo de décadas de atuação, Leite já deu aula para mais de 100 turmas na escola. Mais do que ensinar conceitos técnicos, ele afirma que a formação de um piloto também envolve disciplina e responsabilidade.
– O avião ensina a gente a ter respeito. Não é uma máquina que admite descuido – costuma dizer aos alunos.

Uma comunidade unida pela paixão pela aviação

Mais do que uma escola, o aeroclube funciona também como um espaço de pessoas que compartilham o interesse pela aviação. Ex-alunos que hoje trabalham em companhias aéreas mantêm contato com a instituição e, em alguns casos, chegam a sobrevoar a cidade e se comunicar pelo rádio para enviar mensagens aos instrutores.
– Às vezes o piloto passa aqui em cima e chama no rádio para mandar um abraço. É o nosso combustível – conta Martins.
A trajetória dos alunos também costuma ser acompanhada de perto pela equipe da escola, que muitas vezes conhece famílias inteiras ligadas à formação. Recentemente, um jovem formado na instituição foi contratado por uma companhia aérea aos 22 anos para atuar como copiloto de um Airbus A320.
— São momentos que mostram que todo o trabalho vale a pena — afirma o diretor.

O mascote

O personagem Muttley, conhecido pelo riso característico no desenho animado americano exibido na televisão nos anos 1970, acabou se tornando o mascote do Aeroclube de Santa Maria. Na animação, o cachorro aparecia em aventuras envolvendo aviões e estava sempre aprontando ao lado de outros personagens.
A figura chamou a atenção de um piloto do aeroclube na época, que decidiu usar o personagem como símbolo da instituição, pintando o desenho na cauda de uma das aeronaves. A ideia agradou aos demais integrantes e, desde então, o Muttley passou a representar o aeroclube, mantendo-se como mascote até hoje.
A vivência da reportagem
"A experiência que nossa equipe viveu no Aeroclube foi fora da curva. Conhecer um espaço com tanta história, responsável por um trabalho tão importante, foi muito especial. Desde o início da visita, fomos muito bem recebidos e acompanhamos cada etapa que os alunos também vivenciam durante a formação. Todos sempre muito pacientes e cheios de experiência para compartilhar.
Além de todo o processo de viver a experiência de voar, é muito bonito ver a forma como toda a equipe trabalha. Empolgação, brilho nos olhos e muita vontade de ensinar são características presentes em todos, e isso certamente é algo muito precioso.
Saímos cheios de histórias para contar e com muito respeito por essa comunidade tão unida e receptiva. Voar é realmente algo mágico. Obrigada, Aeroclube, por essa vivência única."
