Foto: Arquivo pessoal
Era uma quarta-feira, 19 de março de 1997. Era interior do Rio Grande do Sul, mas o clima era de turnê mundial. No centro do palco do antigo "Farrezão", em Santa Maria, a cantora Shakira se apresentava na cidade durante a primeira sequência de shows no Brasil. Aos 20 anos, a colombiana já cantava sucessos como Pies Descalzos, que deu nome ao seu primeiro disco.
Quase três décadas depois, a mesma artista é anunciada como atração de um megashow na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Em Santa Maria, há quem tenha visto de perto o início da carreira de uma das artistas latinas de maior sucesso global. Há quem ainda cante à Shakira “Estoy aquí, queriéndote”, ao desejar reviver um show da cantora.
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A turnê no Rio Grande do Sul
Entre novembro de 1996 e setembro de 1997, a colombiana rodou o país com uma turnê impressionante: foram 39 shows em 30 cidades brasileiras. Shakira tinha apenas 20 anos e, apesar da pouca idade, já era considerada uma grande artista do pop. Músicas como Estoy Aquí faziam sucesso nas paradas dos anos 1990.
A passagem do “furacão colombiano”, como era referido na época, começou no dia 30 de novembro de 1996, em Manaus, no Teatro Amazonas, e seguiu sem descanso por cidades do Norte e do Sudeste. No Sul, passou por seis cidades gaúchas: Caxias do Sul, Santa Maria, Pelotas, Porto Alegre, Bagé e Uruguaiana, para delírio de tantos jovens que já dançavam ao som de Shakira. Foi uma das turnês mais extensas de um artista internacional no Brasil.

O show “cheio de graça”
“Shakira, cheia de graça”. Foi assim que A Razão, o principal jornal da cidade na época, noticiou a proximidade do show. Em reportagem publicada no dia 17 de março, a jornalista Aline Felkl falou sobre a carreira da artista. “Aos 20, passou a embalar os sonhos de jovens de toda a América”, dizia o texto. Até o dia do show, eram 400 mil cópias do disco Pies Descalzos. Fãs entrevistados falavam sobre a expectativa de assistir a “cantora preferida”. Sucesso absoluto da revelação pop da música latina naquela época.

O show foi realizado no Farrezão, como era conhecido o atual Centro Desportivo Municipal (CDM). O ingresso custava R$ 20. À época, o jornal noticiava inclusive o sorteio de ingressos – uma dinâmica bem diferente da atual interação pelas redes sociais. Para participar, os leitores precisavam preencher o cupom publicado na edição impressa e depositá-lo em uma urna.
No dia do show, A Razão anunciava a apresentação de Shakira. “Um furacão sem fronteiras” era a manchete. Conforme o texto, a colombiana estava no Rio Grande do Sul acompanhada dos pais, irmãos e da equipe. A estrutura do show também impressionava: foram 100 toneladas de equipamentos de som e luz e slides que projetaram os cenários no palco. Para tanto, 200 pessoas trabalharam na montagem da infraestrutura. "Seu sucesso embala os corações de milhões de adolescentes que sonham em ver de perto a maior estrela da música pop latina dos anos 90”, anuncia um trecho do texto.

Lembranças da noite
Shakira levou 5 mil pessoas ao local. Entre elas, Giovana Vila Vaz, hoje com 43 anos. Ela lembra que foi ao show com uma amiga. Todas as músicas na ponta da língua, aprendidas no som de um dos primeiros CDs da cantora.
– Era o Pies Descalzos, que tinha hits muito famosos como Estoy Aquí e Dónde Estás Corazón.
Na época, estudava na Escola Cilon Rosa e conta que, da aula, foi direto para a fila. No show, a sequência de primeiros sucessos da Shakira embalou o público. Giovana ainda lembra do “cabelão comprido e liso” e do carisma da cantora. O ápice, lembra a fã, foi na música Estoy Aquí:
– Era o sucesso do CD na época. Foi incrível, a multidão foi ao delírio, todo mundo sabia Estou Aquí na ponta da língua. Ela era muito animada no palco. Foi muito bom o show, incrível mesmo – lembra Giovana que, até hoje, sabe as músicas do primeiro CD de cor.

Quem também esteve no show foi Ana Paula Porto Montedo Perlin, 50 anos. Ela tinha 21 anos na época. Se recorda de Shakira dançando muito no palco e o coro na música Estoy Aquí. Foi um alvoroço na cidade, conta. Um dos irmãos até foi receber a cantora no Campo da Brigada, onde pousou de helicóptero.
– O show dela foi maravilhoso. A música dela, Estoy Aquí, estava estourada na época. Inclusive, tinha vários concursos de calouro na época para quem imitava ela.
São poucos os registros do show. Em 2018, na editoria de cultura, o jornal impresso do Diário chegou a se referir ao show como “lenda ou realidade”, dada a ausência de fotos e vídeos. “O fato se tornou quase uma lenda, por não existir registros na internet”, dizia a matéria. A nutricionista e cantora, à época, Tiane Tambara, compartilhou as fotos guardadas do show, que resgataram as lembranças da noite.
– No dia do show, levei um encarte do CD e, até entrar no Farrezão, fui cantando na fila. Eu já sabia todas. Não consegui ficar muito em frente ao palco e não colocavam telão na época (risos). Mas saber que ela estava ali, cantando para a galera de Santa Maria, foi mágico – disse ao Diário.
“Foi um alvoroço, era um show internacional’, lembra locutor que a entrevistou
Quase três décadas depois, o locutor Elton de Sá guarda lembranças marcadas mais pela emoção do que pelos detalhes técnicos. À época locutor e coordenador de programação da Rádio Transamérica em Santa Maria, ele foi escolhido para entrevistar Shakira durante a passagem da artista pela cidade. A conversa ocorreu em uma sala reservada no hotel onde a cantora estava hospedada. Do encontro, o que mais ficou na memória do comunicador foi a postura da artista.
– Ela era muito atenciosa, sempre sorridente, extremamente simpática – recorda.
Mesmo no início da carreira internacional, Shakira demonstrava, segundo ele, simplicidade e entusiasmo ao falar do disco que a projetava além da América Latina. Ele lembra que a entrevista também foi marcada por momentos descontraídos e até por um “portunhol” natural entre brasileiros e colombiana. Para o locutor, a combinação entre simplicidade nos bastidores e entrega no palco ajuda a explicar o impacto daquele show na cidade. O estúdio da rádio funcionava no terraço do hotel onde Shakira ficou hospedada, por isso, Elton ainda lembra bem do que foram os dias da colombiana na cidade:
– Foi um alvoroço. Era um show internacional, e ela estava estourada. Lotou o Farrezão. A rádio era uma loucura, gente querendo chegar perto, querendo autógrafo.
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