Do campo à estrada: o legado de pais e filhos que mantém viva a força do interior

Do campo à estrada: o legado de pais e filhos que mantém viva a força do interior

Foto: Vinicius Becker (Diário)

No interior de Santa Maria, o som dos tratores e o mugido do gado marcam o início de mais uma jornada ao amanhecer. A alguns quilômetros dali, em São Vicente do Sul, o motor do caminhão dita o ritmo de quem cruza as rodovias do país. De um lado, a terra que germina o sustento; do outro, o asfalto que transforma a produção em progresso. Duas realidades distintas, mas com o mesmo ponto de origem: o amor por profissões passadas de geração para geração.


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Neste sábado, celebra-se o Dia do Colono e do Motorista. Para marcar a data, a reportagem foi ao encontro daqueles que garantem, diariamente, o alimento na mesa dos brasileiros. 


“Vem de gerações”

Na localidade de Cezar Pina, no distrito de Boca do Monte, o dia começa cedo. Ainda nas primeiras horas da manhã, o agricultor Felipe Parcianello, 43 anos, já está de pé. Na rotina que não escolhe tempo – faça chuva ou faça sol – ele repete o ritual que aprendeu ainda menino: calça as botinas pesadas e se prepara para a rotina no campo. Mas, hoje, Felipe não caminha sozinho. Ao seu redor estão os filhos Gustavo, 21 anos; Otávio, 13, e o pequeno Heitor, de apenas 5 anos.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Ao acompanhar os passos dos três pela propriedade, Felipe sente o tempo voltar. A cena que presenciou na infância agora se repete diante dos seus olhos, só que no papel de pai:

– Fico muito contente em ver meus filhos seguindo meus passos, da mesma forma que eu segui os do meu pai e ele os do pai dele, isso vem de gerações. Fico feliz por saber que vai ter alguém para continuar depois que eu ficar mais velho.

A história dos Parcianello se confunde com a própria trajetória da agricultura na região. O avô de Felipe, Reinel Parcianello, já falecido, foi pioneiro ao adquirir a primeira colheitadeira nova do município. Já o pai, Cirineu Parcianello, 66 anos, dedicou a vida inteira a trabalhar nessas mesmas terras. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

– Minha mãe era professora e queria muito que eu estudasse, mas era uma briga para me segurar na escola. Eu gostava mesmo era de brincar na terra. Se me deixassem sentado no paralama do trator, do lado do meu pai, eu ficava o dia todo – destaca Felipe. 

Com o passar dos anos, a estrutura da propriedade mudou. A família, que antes dividia o cultivo de arroz com a produção artesanal de cachaça, reestruturou os negócios para cultivar soja e manter um rebanho de gado de corte. No inverno, para proteger o solo e garantir alimento ao rebanho, cobrem a terra com aveia branca e preta.

A sucessão ganhou seu capítulo mais recente com a chegada de Gustavo, o filho mais velho, ao trabalho diário. Formado no curso técnico em Agropecuária pelo Instituto Federal Faaroupilha (IFFar), campus São Vicente do Sul, o jovem retornou para casa e assumiu responsabilidades na rotina: 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

– Ter a terra e a estrutura para dar continuidade é uma oportunidade enorme, mas o principal é o conhecimento. O maior professor não está na faculdade, é o pai da gente. A teoria ajuda, mas nada paga o que se aprende na prática do dia a dia.

A presença dos filhos na rotina da propriedade mostra que o ciclo da família continua se renovando. Enquanto Otávio concilia os estudos com as tarefas da lavoura, o pequeno Heitor não esconde o fascínio: faz questão de brincar ao redor das máquinas. Entusiasmado, a pergunta é sempre a mesma: “posso ir junto, pai?”. 

Para a esposa de Felipe, a agricultora Juliana de Brum Parcianello, 42 anos, esse convívio direto é o grande diferencial da vida rural: as crianças participam da profissão dos pais, aprendem o valor da terra e desenvolvem o senso de responsabilidade desde a infância.


“A estrada está no sangue”

Se no interior de Santa Maria a família Parcianello trabalha com o grão e criação de gado, em São Vicente do Sul a produção precisa ganhar rodas para abastecer mercados e portos. É nesse ponto que a história do campo se cruza com a da estrada.

A trajetória do santa-mariense Vinícius Soares da Silva, 32 anos, carrega o mesmo DNA da herança familiar. Filho de Carlos Sidinei Aires da Silva, 57 anos, caminhoneiro veterano com três décadas de profissão, Vinícius cresceu ouvindo o barulho das trocas de marcha.

Foto: Arquivo Pessoal

Para Sidinei, o amor pelas viagens começou muito antes de ter a própria carteira de habilitação. Ainda menino, ao dirigir tratores e caminhonetes na granja que o pai administrava, ele soube exatamente o rumo que queria dar à vida. Depois de servir no Exército, no 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado – Regimento Mallet, e trabalhar como motorista de ambulância no Hospital Geral de Santa Maria (HGeSM), engatou definitivamente a carreira no transporte de cargas.

Essa paixão acabou contagiando a geração seguinte. As memórias mais remotas de Vinícius remetem às viagens de férias na cabine do pai. Ele lembra com carinho do dia em que trocou a mamadeira pela boleia: Sidinei avisou que só o levaria para a estrada quando deixasse o hábito de bebê. O menino não pensou duas vezes. Aos 6 anos, já viajava ao lado do pai durante as férias escolares. 

Foto: Arquivo Pessoal

Apesar do encanto de infância, a entrada definitiva de Vinícius aconteceu anos depois. Foi o próprio pai quem abriu as portas para essa virada: atuando como orientador para novos motoristas em uma empresa de transporte internacional. Formado no teste, Vinícius assumiu as carretas do Mercosul e, durante seis anos, enfrentou a severidade do frio e da neve entre as cordilheiras do Chile e da Argentina.

– Carregar esse legado do meu pai foi uma grande realização. A minha viagem mais inesquecível foi a primeira vez que vi a neve. Dá um medo enorme, quase não dormimos à noite, mas quando chega ao destino vê que é capaz de entregar qualquer carga em qualquer lugar – relembra Vinícius.

Foto: Arquivo Pessoal

A vida de caminhoneiro, no entanto, cobra um preço alto em horas de sono, distância e saudades acumuladas. Em uma das viagens de regresso do extremo sul do Chile, Vinicius recebeu a notícia de que seria pai. O sonho da paternidade falou mais alto: sem hesitar, ele decidiu que era hora de puxar o freio de mão para acompanhar de perto o crescimento do pequeno Ramon, hoje com 4 meses.

Vinícius atua agora como gestor de frotas em São Vicente do Sul. A experiência acumulada na boleia tornou-se o seu maior diferencial profissional: por ter sentido na pele o cansaço e a rotina exaustiva do trecho, ele lidera os motoristas com cuidado.

Do outro lado da linha, descarregando metanol em Passo Fundo no comando de um caminhão-tanque, o pai não esconde o orgulho ao ver o filho traçar um caminho seguro, sem deixar de honrar as raízes:

– Sempre disse para ele que é uma vida dura, mas foi dirigindo um caminhão que sempre trouxe o pão para a nossa mesa. O Vinícius começou pequeno, viajando comigo, e ver ele seguir essa vocação me enche de orgulho. Mesmo quando a gente tenta se afastar, a estrada está no sangue. Pretendo me aposentar em breve, mas essa "corrida" nunca deixamos para trás. 

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Vitória Sarturi

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