“O ano do jubileu virou o ano da tristeza”, diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Maria sobre regras da Arquidiocese de Santa Maria

“O ano do jubileu virou o ano da tristeza”, diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Maria sobre regras da Arquidiocese de Santa Maria

Foto: Vinicius Becker (DIário)

Na localidade de São Sebastião, o salão de festas da capela com mesmo nome, está desativado por falta de público

Desde que a Arquidiocese de Santa Maria anunciou as novas regras que proíbem as “reuniões dançantes” e também a venda de bebidas alcoólicas em festas de santos padroeiros nas 39 paróquias da instituição durante o Ano Jubilar 2025, agricultores e lideranças do meio rural relatam tristeza, frustração e até abandono. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Maria, Delcimar Gonçalves Borin, tem recebido relatos quase semanais desde que as orientações foram anunciadas, em novembro de 2024.

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 — Do dia em que as medidas da Arquidiocese passaram a vigorar, a partir de janeiro deste ano, praticamente toda semana agricultores, lideranças comunitárias passam aqui pelo sindicato tristes. Muitas comunidades deixaram de fazer as suas atividades, suas festas e isso tem trazido bastante tristeza para o pessoal do interior, porque eles trabalham o ano inteiro, e, às vezes, tem uma, duas festas por ano na comunidade. E nem essas festas estão acontecendo. É muito triste o que nós estamos vivendo no ano de 2025. O ano do Jubileu se tornou o ano da tristeza. Não é o ano da reflexão, mas, sim, da intolerância, do preconceito contra os mais idosos, das limitações dos espaços comunitários. É um ano que vai ficar marcado não pelo ano do fortalecimento da fé, mas pelo ano da exclusão social do pessoal do interior. 

E o dirigente reforça o impacto nas comunidades:

— Isso vale, principalmente, para o pessoal do interior, tendo seus espaços que foram doados pela comunidade para a Mitra, para que tivesse a capela para o pessoal exercitar sua fé, sua religiosidade e também os salões para o momento de confraternização, de festejos populares e hoje não podem utilizar. O pessoal está muto triste, muito frustrado e chateado com essa situação.

Segundo ele, não há mais diálogo com a liderança da arquidiocese. O último contato foi em uma reunião em novembro do ano passado.

— A gente não procurou mais, porque viu que não há diálogo, não tem como dialogar com uma pessoa que, simplesmente, impõe a sua opinião e quem é contrário a ela, vai sofrer, inclusive com a ameaça de excomunhão, como foi dito no dia 16 de novembro na Basílica da Medianeira, ou que “iria morrer seco” - afirma Delcimar. 

Para o líder sindical, o afastamento das famílias e, principalmente, dos idosos é visível. Ele conta, ainda, que muitos fiéis têm deixado de pagar o dízimo, abandonado as diretorias e até entrado em depressão. 

— Está uma dificuldade nas comunidades de achar pessoas que queiram se envolver. E se a pessoa que for contra, é excluída do processo. Se tu és contra as medidas da arquidiocese, tu estás fora da diretoria, sabe? Hoje, o ambiente no meio rural, como se não bastasse questões climáticas, de estiagem, de enchentes, do clima, ainda (tem) essa questão da arquidiocese, que parece que está punindo o meio rural, punindo, principalmente, os idosos – relata ele.

Sindicato levou situação ao cardeal

A insatisfação com a decisão já foi levada aos representantes da instituição em nível nacional. Segundo Delcimar, o sindicato buscou diálogo direto com a alta cúpula da Igreja Católica para informar os impactos enfrentados pelas comunidades do interior:

— Nós já tomamos algumas medidas ainda nesse ano 2025. Tivemos, inclusive, uma audiência com o cardeal dom Jaime Spengler (presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), levando ao conhecimento dele o que estamos vivendo na nossa arquidiocese como um todo. Encaminhamos uma série de documentos e, com certeza, se as medidas prevalecerem em 2026, vamos ter que tomar alguma atitude mais drástica para tentar salvar as crianças do interior.

De acordo com o sindicalista, os prejuízos vão além da perda de renda comunitária. Ele relata que as próprias áreas de lazer, fundamentais para a convivência e o bem-estar social nas localidades, começaram a ser desativadas.

— Estamos, agora, recebendo um relato ultimamente sobre os espaços de lazer das comunidades. Por exemplo, as canchas de bocha, o espaço onde, muitas vezes, os idosos se reúnem nos sábados para jogar um baralho, foi ordenado que esses espaços sejam fechados – ressalta Delcimar. 

Ano Jubilar de 2025

A norma polêmica foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Arquidiocesano de Pastoral em 19 de outubro de 2024. À época, dom Leomar  explicou que a decisão seguiu orientações do papa Francisco – falecido em abril deste ano –  para o Jubileu da Esperança, um evento que marca os 2025 anos da era cristã e que, segundo bula papal Spes non confundit ("a esperança não engana"), convida os fiéis a viverem um período de espiritualidade, reconciliação e indulgências.

— O contexto é o grande Jubileu de 2025, quando nós celebraremos 2025 anos da era Cristã. Papa Francisco, numa bula chamada Spes non confundit, que quer dizer “a esperança não engana”, pede que o ano que vem seja o ano da esperança. Além disso, também tem o Jubileu, que vem com as indulgências e, para isso, o papa fez uma série de medidas. E nós, da arquidiocese, seguimos o papa, especialmente para que o povo possa entender esse momento histórico — explicou o arcebispo, em entrevista concedida em dezembro de 2024.

A decisão, no entanto, provocou repercussões já nas primeiras semanas. Vídeos gravados durante celebrações religiosas circularam nas redes sociais, em especial trechos em que dom Leomar critica a realização de festas com “música bagaceira” e o consumo excessivo de álcool, por considerar que esse tipo de atividade não condiz com os valores da fé católica.



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Vitória Parise

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