A artista visual Élle de Bernardini (@elleiote), que já morou em Santa Maria por 10 anos, se destaca com trabalhos que abordam a intersecção entre gênero, sexualidade e história da arte. Recentemente, ela protagonizou uma matéria do jornal Folha de S. Paulo, na qual explica a importância do termo “pessoas que menstruam” em resposta à uma publicação da escritora e filósofa Djamila Ribeiro.
Como surgiu a polêmica
A escritora Djamila Ribeiro publicou no início do mês de dezembro o artigo Nós, mulheres, não somos apenas ‘pessoas que menstruam’, que repercutiu de forma negativa quase que instantaneamente entre a comunidade trans. Várias pessoas se manifestaram nas redes sociais, principalmente homens trans, por meio de textos e vídeos, para explicar porque o discurso do artigo em questão apaga vivências.
Élle de Bernardini viu a publicação da escritora no jornal, não gostou, mas preferiu não se manifestar no momento. Viu a opinião dela refletida em diversas outras pessoas da comunidade trans, incluindo um homem trans influencer, o qual parabenizou e compartilhou uma análise sobre o artigo.
Manifestação de Élle
A discussão continuou no próprio veículo que publicou o artigo de Djamila. Dizer pessoas que menstruam é vital para inclusão de todes foi um dos artigos em resposta à escritora,. Para surpresa de Élle, a obra Do It Yourself, que ela fez em 2019, estava ilustrando a opinião de outra pessoa trans sobre o texto.
Do it yourself. 2019. Silicone industrial. 12x20x4, de Élle de Bernardini. Foto: Reprodução
Em poucos dias, ela recebeu o convite para debater sobre o assunto no mesmo jornal, que culminou na matéria “Expressão ‘pessoas que menstruam’ defende vidas trans, diz Élle de Bernardini“. De acordo com a artista, o jornalista que entrou em contato pretendia mediar um debate entre ela e Djamila, porém a escritora não aceitou participar. A réplica de Élle foi publicada no dia 17 de dezembro com o intuito de representar e defender a comunidade trans:
– Não é só a minha visão, é a visão de várias pessoas trans que eu conversei desde o primeiro dia de dezembro (data da publicação de Djamila). Eu fui lendo e vendo o que todo mundo falou e compilei – relata Élle.
A artista também levou para o debate a teoria queer, que têm a revolução linguística como uma das principais propostas, incluindo a retirada dos gêneros de linguagens e outras mudanças:– A palavra é ressignificar. É quando você ressignifica termos que até determinado momento são considerados violentos e pejorativos, como por exemplo, “bicha”. No momento que a pessoa assume o termo para si mesma, ele já não tem mais o efeito de violência – explica.
O outro lado
Desde o artigo, Nós, mulheres, não somos apenas ‘pessoas que menstruam’, publicado no dia 1º de dezembro, a colunista da Folha, Djamila Ribeiro, publicou mais duas colunas sobre o assunto: Não admitirei ser reduzida a ‘pessoa que menstrua’ pois sou sujeito político, no dia 8 de dezembro e, por fim, Sistemas diferentes de dominação não funcionam da mesma maneira, no dia 15 de dezembro. Neste último, ela convidou o professor Adilson Moreira, doutor em direito antidiscriminatório pela Universidade de Harvard. O texto aborda a luta pela cidadania de mulheres negras e de pessoas transexuais, e reforça sobre a necessidade de estratégias políticas distintas.Depois dessas três publicações, Djamila não abordou mais a temática na coluna. O último desfecho sobre o assunto foi a manifestação de Élle.
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