A economia do cuidado e a louça aqui de casa

Rafael Pagnon Cunha

Dez pila. Essa a multa para quem não lavar a louça que sujou sábado e domingo. Proposta de um dos filhos, de 18 anos. Aceita com relutância pelo outro. E com incredulidade e pouca fé pela mãe deles. Dezoito anos foram necessários para que construíssemos um acordo sobre o tema. Não dezoito anos de negociação, esclareço. Tratou-se de duas décadas até que nos déssemos conta precisarmos enfrentar esse tema. Porque nós, três homens aqui de casa, sempre estivemos em – diferenciada – zona de conforto. No final de semana usávamos pratos e talheres. Deixávamos na pia. E eles amanheciam lavados. Magicamente.

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Só que nada de mágica há nisso. Há, sim, um trabalho invisível. Invisibilizado ao longo dos anos. Os homens acomodam-se. As mulheres assumem. Nunca existiu acordo verbal. Nunca falamos disso. A rotina nasceu e cresceu. Da cultura. Daquilo que aprendemos. E reproduzimos. Porque o amor feminino está culturalmente – e umbilicalmente – ligado a cuidado. Como já se escreveu: os homens aprenderam a amar muita coisa... e as mulheres aprenderam a amar os homens...

Isso precisa mudar. A economia do cuidado tem a mesma invisibilidade da violência doméstica. Porque ocorre dentro dos lares. Naturalizou-se nas casas. Nas nossas casas. E é reproduzido, geração a geração. O tempo que a mulher dedica ao cuidado da casa e da família necessita ser contabilizado. Por todos nós. E pelo sistema de distribuição de Justiça. Valor de alimentos, por exemplo, deve considerar esse tempo dedicado ao cuidado do lar e dos filhos. Esse silencioso (e relevantíssimo, com um PIB altíssimo) trabalho de cuidar vem sendo solenemente ignorado por nós, operadores jurídicos, tradicionalmente. Ora, se o casal trabalha fora, e a mulher dedica um turno por dia aos cuidados com a casa e filhos, esse tempo tem valor. Não só um valor moral. Valor econômico também. O que deve ser objeto de pedido e consideração quando se terceiriza a gestão do fim do amor (ações de alimentos e divórcio). O que necessita ser pedido, explicitado e ponderado pelos Advogados. E devidamente considerado pelos Juízes (vinculados que estamos aos pedidos das partes). A gratuidade do trabalho feminino nos cuidados com a casa e os filhos demanda imediata releitura – social e judicial.

Nessa linha, urgente mudar a concepção de que o marido “ajudará” sua esposa nas tarefas domésticas e no cuidado com a prole. Aos moldes de concessão de um favor. Parceria nas funções dela. Cuidado não é obrigação de gênero. É obrigação humana. E mulher não é naturalmente habilitada, biologicamente talhada, tampouco vocacionada a cuidar. Cuidar é algo ensinado, por cultural. Se é ensinado a elas, pode ser ensinado a eles. Dentro da casa da gente. O mais cedo possível. De modo mais natural possível. Qual ocorre em outras culturas. A manutenção do trabalho de cuidado não-remunerado, nos moldes em que o vivenciamos, implica preservar as (profundas) desigualdades de gênero. E o constante esgotamento, físico e mental, das mulheres. Mães que usufruíram licença-maternidade sabem: o retorno ao trabalho, após as licenças, filhos pequenos em casa, constitui praticamente mini-férias... Para quem tem filhos pequenos, trabalhar fora é o período de menor esforço do dia...

A busca por uma sociedade mais igualitária passa necessariamente por uma equalização de compromissos, forças e execução de tarefas domésticas. Por mais que desacomode. Canse. Esgote. Nada diferente, entretanto, da sobrecarga que as mulheres enfrentaram, por toda sua história. Sejamos bem-vindos ao mundo delas. A formação de uma geração melhor que a nossa assim exige. Assim será. Talvez mais lentamente que gostaríamos. E, possivelmente, com alguns dez pilas a serem pagos aqui em casa...

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