Na nossa cultura, os homens aprendem a amar muitas coisas. As mulheres, a amarem os homens”. A frase da psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello incomoda. Como toda – boa – verdade, desacomoda. Desde cedo, meninos são autorizados a ocupar o centro da própria vida. Aprendem a escolher. A desejar. A preservar seus horários, seus amigos, suas turmas. Várias turmas. O futebol de quarta. A pescaria. A bicicleta. O churrasco. O violão esquecido no canto da sala. O trabalho. Seus projetos. A relação amorosa soma-se a tudo isso. Importante. Nunca única.
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Meninas recebem lição diversa. São ensinadas a cuidar. Primeiro dos brinquedos. Depois dos irmãos. Da casa. Dos filhos. Do companheiro. Dos pais que envelhecem. Até dos presentes dos sogros. A lista cresce. O tempo delas diminui.
Zanello nomina esse movimento heterocentramento: a vida organizada ao redor do outro. Primeiro os desejos dele. Depois as necessidades dos filhos. A família. O trabalho. A casa. Em algum lugar distante, quase apagada, ela mesma.
Não se trata de natureza. Tampouco de falta de interesse. É aprendizado. Uma pedagogia silenciosa, repetida nas famílias, nas escolas, nos filmes, na cultura, nas igrejas. Nos conselhos que atravessam gerações. Homens aprendem a abastecer a vida em muitos poços de afeto. Mulheres, com frequência, recebem um único balde. E são orientadas a lançá-lo sempre na direção de alguém.
Mas a fonte seca
Um relacionamento termina. Os filhos crescem. O trabalho encerra seu ciclo. A casa, antes ruidosa, silencia. Para muitos homens, ainda restam os amigos, o esporte, a oficina, o clube, a música, as viagens, o truco com Fernet de sábado. Outras margens. Outros territórios de pertencimento.
Para incontáveis mulheres, resta o vazio. Um silencioso vazio. Não porque tenham menos mundos dentro de si. Porque passaram anos cultivando o jardim dos outros – e deixaram o próprio terreno sem sementes.
Hobbies não são frivolidade. Nem luxo de quem tem tempo sobrando. São caminhos de retorno a si. Pequenas portas abertas para uma identidade que não se resume a ser esposa, mãe, filha, profissional ou cuidadora. Retomar o esporte da juventude: voltar a jogar vôlei. Caminhar. Dançar (como se ninguém estivesse vendo). Ler. Correr. Costurar. Fotografar. Cantar desafinando. Aprender um idioma aos 60. Plantar temperos na janela. Encontrar amigas sem motivo importante – que não o encontro. Fazer algo que não produza dinheiro, não sirva à casa e não seja útil a ninguém. Além de si mesma
Parece pouco. Não é
Ter diversas fontes de afeto protege. Quando uma falha, as demais continuam a nutrir. Amigos acolhem. A arte respira. O esporte sustenta – corpo e alma. Um projeto ilumina. A vida não desaba inteira, porque jamais esteve apoiada em uma única coluna.
Talvez seja isso que tantos chamam de egoísmo quando uma mulher começa a se escolher. Finalmente olhar para si mesma. Chegar mais tarde. Dizer não. Reservar uma noite. Fechar a porta. Retomar o curso. Comprar a bicicleta. Voltar a tocar piano. Existir sem pedir licença. Priorizar-se finalmente.
É reencontro consigo
Mulheres não precisam amar menos. Precisam aprender a amar mais coisas. O companheiro, quando houver. Se houver. Os filhos – se essa foi uma escolha. Os amigos. O trabalho. A arte. O descanso. O tempo para si. Seus projetos. Seu corpo. Sua própria companhia. A melhor companhia. A única que jamais lhe trairá. Que nunca lhe abandonará.
Para alimentar o estuário de nossas almas, a vida necessita de muitos rios. Um só amor não pode aplacar a sede de uma existência.
Cultivar um hobby é, também, cultivar liberdade. É colocar uma cadeira no centro da própria existência e, finalmente, sentar-se nela.
Não para viver sozinha. Para não desaparecer enquanto ama.