Os números crescentes de violência doméstica representam aumento de casos – ou revelação de um fenômeno que sempre existiu ? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Recebo-a em incontáveis rodas de conversas. Em toda palestra que profiro. Como não se trata de operação matemática, não há um gabarito. Desconheço resposta certa ou errada à questão. Hipóteses, entretanto, surgem.
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A primeira certeza: hoje nomeamos violências outrora cobertas pelo manto da aceitabilidade social. Convencionávamos, inconscientemente, a tolerar comportamentos. A normalizar ações desagradáveis, ofensivas, perversas por vezes. A violência psicológica é a situação mais evidente de efetiva revelação social. A sucessão de atos de controle do masculino sobre o feminino, ao longo de nossa história, sempre se mostrou tolerado. Acatado como normal. Envernizado como cuidado. Todavia, nunca é sobre amor. Controle sobre amizades; estilo, cor e comprimento de roupas; comportamento social; tom de voz e altura de risadas; locais a seremfrequentados; nada disso diz com afeto e preocupação. Tudo é sobre domínio do homem sobre a mulher. Proibição de estudo , formação, aprimoramento intelectual, bem como vedação ao exercício de trabalho na rua são estratégias de controle. Nunca amor. Hoje, em contextos bem definidos, atos que podem constituir violência psicológica. Nomeados hoje como violência. Antes, não engrossavam estatísticas. Tal fato incrementa consideravelmente a percepção de aumento de casos de violência doméstica.
Criminalizações de condutas também majoram números. Feminicídios, historicamente, eram alocados na vala comum dos homicídio. Em um país que muito se mata, as mortes de mulheres por serem mulheres (é disso que feminicídio se trata) restavam diluídas em meio aos demais atos violentos contra a vida. Não subnotificados. Mas invisibilizados, frente à considerável quantia de homicídios cometidos em nossa Nação. A criação de uma categoria própria de crime, com censo e contagem própria e singular, fez explodir esses números. Trouxe consigo, importante destacar, o debate público acerca da absoluta inaceitabilidade dessas mortes evitáveis. Apresentou, ao mesmo tempo, números profundamente impactantes.
O mesmo ocorre com o crime de perseguição. Alguém já disse, jocosamente, que a criação do delito de perseguição constituiu a criminalização do chato. De muito mais, porém, está-se a falar. Nada de espirituoso na afirmação. O perseguidor é mais que um chato. Muito mais. É sujeito profundamente imaturo, socialmente inábil, intolerante com frustrações, que transforma a vida e a rotina de sua vítima em verdadeiro filme de suspense e horror. As narrativas de perseguição, escutadas a miúde em sala de audiências, constroem quadro de singular pavor psicológico. Cenário de destruição da paz interior de mulheres vítimas desse ilícito. A par de importante reconhecimento de um delito próprio, acresceu estatísticas.
Envolvimento da Comunidade. Em briga de marido e mulher, não se mete a colher ficou no passado. Hoje, felizmente, cada vez mais vizinhos e familiares intervêm. Chamam a Polícia. Mesmo com uma inicial negativa da vítima. Porque as mulheres vítimas dessa chaga social muitas vezes não se percebem nessa condição. O olhar atento e comprometido da comunidade que a cerca e com ela convive pode ser a intervenção decisiva para quebra do ciclo da violência. E majora os números.
Ao cabo, ainda que menos importantes, os infantoiloides movimentos red pills e incels. Homens fracos, incapazes de estabelecer relacionamentos ou conquistar posições sociais por seu próprio talento, artificiosamente construíram as responsáveis por seus próprios fracassos: as mulheres. Cada vez mais independentes, livres, inteiras, competentes, forjando espaços a muito custo e renúncias, recebem elas as culpas do mundo. Algo inadmissível. Entretanto, que igualmente inflaciona da contabilização de atos de violência doméstica.
Uma sucessão de fatores faz-nos compreender o aumento vertiginoso dos números de atos violentos contra as mulheres. Violências que sempre estiveram entre nós. Imperceptíveis. Toleradas. Aceitas. Não mais. Impossível recuar. Racismos, misoginias e intolerâncias não encontram mais espaço em nossa Sociedade. As assustadoras estatísticas podem parecer que involuímos. Que andamos para trás. O que ocorre é o reverso. Estamos avançando. Nomear e reconhecer são os primeiros passos. Seguimos na caminhada, por um tecido social composto por fibras mais solidárias e isonômicas. Isso é irreversível. Não desistiremos.