Foto: Arquivo pessoal
O curta-metragem Violeta, produzido pela santa-mariense Rama, foi selecionado para dois importantes festivais internacionais de cinema. A obra será exibida no Social World Film Festival, na Itália, entre os dias 5 e 12 de julho, e no Leda’s Monologue Film Festival, na Grécia. Além da seleção oficial no evento grego, a diretora e atriz Gabriela Ferreira concorre ao prêmio de Melhor Atriz por sua atuação no filme, que dá vida à personagem Helena.
Desenvolvido como uma obra de ficção, Violeta aborda o luto gestacional a partir de uma narrativa sensível sobre a perda de um bebê durante a gravidez. O filme foi realizado em coprodução entre profissionais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, reunindo equipes dos dois estados e sendo gravado no município de Maravilha, no Oeste catarinense.
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Dirigido e protagonizado por Gabriela Ferreira, o curta é inspirado em experiências autobiográficas da artista. Durante entrevista ao programa Direto da Redação, apresentado pelo jornalista Pablo Iglesias pela TV Diário e Rádio CDN, a atriz conta que a motivação para criar a obra surgiu após vivenciar duas perdas gestacionais.
— Eu perdi dois bebês durante a gestação, tive dois abortos espontâneos e foi uma experiência devastadora na minha vida. Nesse processo, percebi como esse luto é muito invisibilizado, como existe um tabu social e como a gente não fala sobre o assunto. Muitas mulheres passam por essa experiência e acabam vivendo essa dor de forma muito isolada — afirma Gabriela.

Segundo a diretora, a proposta do filme é ampliar a discussão sobre uma experiência compartilhada por muitas famílias, mas ainda cercada de silêncio.
— Quando percebi que eram muitas mulheres vivendo essa mesma experiência, como artista, eu não tinha outra opção se não levantar essa causa. É uma temática muito universal, que dialoga com todas as geografias, culturas e classes sociais. Também é um tema que precisa ser visibilizado — disse a atriz.
O roteiro foi desenvolvido por Gabriela em parceria com Felipe Dagort. Segundo o roteirista, o desafio foi transformar uma experiência profundamente pessoal em uma narrativa cinematográfica capaz de dialogar com diferentes públicos.
— Eu, como homem, nunca passei por uma situação parecida com a que a Gabriela viveu. Eu precisava ajudá-la a dar forma de roteiro audiovisual para esse emaranhado de dor e sentimentos que ela tinha para ser colocado no vídeo — explica Felipe.
Felipe destaca que o trabalho buscou preservar a força da história que inspirou o filme, sem restringi-la à experiência individual da diretora.
— É a vivência da Gabriela, é a história da vida dela contada de um jeito ficcional. Não é um documentário. O meu papel precisava ser um passo atrás para deixar aparecer aquilo que realmente era importante — complementa o roteirista.
A narrativa construída para gerar identificação
Segundo os realizadores, uma das preocupações durante a construção do roteiro foi criar uma história capaz de sensibilizar inclusive quem nunca vivenciou uma perda gestacional.
— Nós queríamos gerar uma sensibilização social para que as pessoas que entrassem em contato com o filme começassem a ter mais empatia e reflexão sobre a temática — explica a diretora.
Para alcançar esse resultado, a equipe apostou em recursos narrativos que contrastam momentos de felicidade e dor.
— A gente queria que o público pensasse: “Olha que feliz ela está”. E, de repente, causar uma quebra e mostrar como essa dor vem de uma hora para outra. O filme é muito sensorial. Tentamos passar isso com som, imagem, cortes e edição, mostrando essa queda brusca para o vazio da perda — conta o roteirista.
Sobre o nome escolhido para o curta, também possui um significado pessoal para Gabriela.
— Violeta era o nome de uma das minhas bebês. A gente queria que o filme também incentivasse as mulheres a contar suas histórias em primeira pessoa. O filme é uma ficção, inspirada em fatos reais, mas ele deixa essa memória — afirma a atriz.
Mas, Felipe, aproveita para complementar com algo importante: a escolha também é uma forma de preservar a memória de crianças que muitas vezes acabam sendo invisibilizadas pela sociedade.
— Ela existia como ser vivo; hoje ela existe em forma de vídeo. Ela não cai no esquecimento, como tantas crianças que já existiram, que tinham nome e que eram amadas. Elas não somem, mas (após o falecimento) mudam de vibração; ela não pode ser silenciada e esquecida — relembra Felipe.

Rio Grande do Sul e Santa Catarina para o mundo
A produção foi realizada em um curto espaço de tempo. A equipe levou cerca de três semanas para concluir o roteiro e iniciou as gravações aproximadamente um mês depois. As filmagens ocorreram durante três dias em Maravilha.
A obra foi viabilizada por meio de recursos privados da produtora Rama e de financiamento público obtido por meio da Lei Paulo Gustavo e da Prefeitura de Maravilha. A produtora, sediada em Santa Maria, atua há 16 anos no mercado cultural e reúne projetos nas áreas de cinema, teatro, circo e dança.
De acordo com Gabriela, a trajetória internacional do curta ganhou impulso após a contratação da distribuidora italiana Premiere Film, responsável pela circulação da obra em festivais ao redor do mundo.
— Quando a gente conseguiu que a Premiere nos selecionasse entre curtas do mundo todo, percebemos que o filme realmente poderia ter uma trajetória internacional. Isso também mostra a importância de profissionalizar cada vez mais a cadeia do audiovisual em Santa Maria — destaca a diretora.
Segundo a distribuidora italiana, Violeta é “um curta-metragem intenso e, ao mesmo tempo, delicado, que aborda a perda gestacional a partir de uma perspectiva íntima, livre de qualquer retórica”.
A seleção para o Social World Film Festival foi anunciada internacionalmente durante uma coletiva de imprensa realizada no Pavilhão Italiano do Festival de Cannes. Reconhecido por reunir produções voltadas a temas de relevância humana e social, o evento recebe filmes de diferentes países.
Além da narrativa, a obra também se destaca pela trilha sonora original, desenvolvida para reforçar o caráter emocional da história.
Reconhecimento para Santa Maria
Para os Gabriela e Felipe, o reconhecimento internacional também representa o trabalho desenvolvido por profissionais do audiovisual da região.
— A gente vive no interior, somos agentes culturais do interior e não é fácil chegar a circuitos internacionais, mas existe um potencial gigantesco. Quando o filme é selecionado para os festivais, não somos só nós que estamos sendo reconhecidos. Somos fruto de muitas pessoas que trabalham com audiovisual em Santa Maria há anos — finaliza Gabriela.
Atualmente, Violeta segue em circuito de festivais e ainda não teve uma exibição aberta ao público em Santa Maria. A expectativa da equipe é realizar uma estreia nacional e compartilhar a produção com a comunidade nos próximos meses.
Confira a prévia do filme: