Foto: Cauê Toledo (Divulgação)
Finalizado na sexta-feira (23), o mural “Ubuntu Terra Viva” passa a integrar a paisagem do Centro de Santa Maria como uma grande homenagem à população afro-gaúcha, suas histórias, saberes e espiritualidade. A obra ocupa a empena da antiga reitoria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na Rua Floriano Peixoto, em frente ao Colégio Marista, e marca um novo capítulo para a arte urbana na cidade.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
Com criação assinada pelo artista urbano Braziliano (@brazilianobraza) e execução coordenada pelo grafiteiro Cauê Toledo (@caue.toledo), o trabalho levou 21 dias de pintura e serão mais de 40 dias entre pré e pós-produção, envolvendo uma ampla equipe e uma complexa operação técnica em altura.
Na execução direta, além de Cauê e Braziliano, participaram Israel Caetano (assistência) e os assistentes Alexon Messias e Amanda Rodrigues, vinculados à UFSM. Indiretamente, o projeto envolveu cerca de 15 a 20 pessoas entre produção, logística e apoio.
A ação integra o projeto Afroturismo na Região Central do Rio Grande do Sul, desenvolvido no âmbito do Observatório de Direitos Humanos, coordenado por Victor De Carli Lopes, com financiamento da Fundação Cultural Palmares.
Uma obra que nasce da ancestralidade
A palavra Ubuntu, presente no título da obra, é um conceito da filosofia africana. De acordo com o Instituto da Mulher Negra, a tradução para o português remeteria a algo como “humanidade para com os outros”. As pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha, “eu sou porque nós somos”, como descreve o texto conceitual do mural: "Eu sou porque nós somos, vivo porque vivemos, sonho porque sonhamos. Cultivando histórias, memórias da terra, que geram ervas que protegem e curam, conhecimentos, ensinamentos, ancestralidade. Pulsante, potente, agimos, geramos."
O tema central da obra está ancorado em simbolismos que evocam a herança da cultura de matriz africana no Rio Grande do Sul, como explica o muralista Braziliano:
– Faz referência à população afro-gaúcha e suas riquezas culturais, por isso a representação de rostos negros em destaque, com as sete ervas na base da composição, seguido de marés, a lua, um sol e o pássaro branco de oxalá.
Conforme os artistas, cada uma das sete ervas é carregada de significados ancestrais:
- Arruda – proteção e quebra de energias negativas
- Guiné – limpeza espiritual forte
- Alecrim – equilíbrio, clareza e alegria
- Manjericão – harmonia e elevação espiritual
- Espada-de-São-Jorge – defesa e força
- Levante – renovação energética
- Comigo-ninguém-pode – proteção espiritual
Desafios de um mural em grande escala e parceria artística
A criação visual inicial partiu de Braziliano, enquanto Cauê Toledo foi responsável por adaptar o projeto à escala da empena, ajustar cores, técnicas e estrutura para a aplicação na parede.
– A concepção vem da criação do Braziliano. A partir disso, comecei a trabalhar a paleta de cores, reorganizar elementos e traduzir o estilo dele para que fosse possível aplicar na parede com as técnicas necessárias. Mesclamos nossos estilos e aprofundamos ainda mais a obra, mantendo a identidade original – relata Cauê.
Pintar uma empena exige não apenas domínio artístico, mas também preparo físico e técnico. Para a execução, foi utilizada uma plataforma suspensa, o chamado balancim elétrico, o que demanda cuidados rigorosos de segurança.
– Trabalhar em altura envolve treinamento, uso correto de EPIs, comunicação constante e monitoramento do vento e da chuva. O desgaste físico é grande, o sol não deu trégua e o equilíbrio é exigido o tempo todo. É um trabalho que envolve técnica, resistência e muita atenção – detalha o artista.

Grafite como ferramenta de transformação urbana
Com mais de duas décadas de história em Santa Maria, a cena de arte urbana local vem se fortalecendo e conquistando novos espaços, segundo o coordenador do projeto.
– Os artistas são resilientes. A cidade vem se acostumando com a transformação urbana, e a arte ajuda a ressignificar espaços, promover convivência e levar cultura para todos os cantos – avalia Cauê.
Para Cauê, o mural representa a materialização de um sonho construído ao longo de anos de estudo e dedicação.
– É a aplicação de conhecimentos que ajudam a expandir o leque de possibilidades artísticas na cidade. Me sinto extremamente feliz de realizar este trabalho com amigos. Essa conquista é dedicada a todos que acreditam na arte e na mudança que ela promove no espaço urbano e nas pessoas – afirma.
Referência para novos murais na cidade
Além de transformar a paisagem, o mural abre caminho para novos projetos semelhantes em Santa Maria.
– Há muitos prédios e locais ociosos que podem se tornar telas. Para isso, é fundamental que instituições, população e poder público estejam próximos dos artistas – projeta Cauê.
A inauguração oficial do mural está prevista para março, com a instalação de uma placa informativa no prédio da antiga reitoria, após o retorno das atividades acadêmicas.
O mural fica na empena da Antiga Reitoria da UFSM – Rua Floriano Peixoto, 2189, em frente ao Colégio Marista, Centro de Santa Maria.