Foto: Maria Eduarda Silva (Diário)
A tradição surgiu no século 18 para comemorar o fim do inverno e a chegada da primavera, simbolizando renovação.
Galhos secos decorados com cascas de ovos pintadas à mão marcam a celebração de Páscoa na casa da aposentada, de origem alemã e natural de Panambi, Renata Hauenstein, 74 anos. Ela mantém viva a tradição da Osterbaum, prática de origem alemã que simboliza o renascimento e a fé cristã. O costume é repetido todos os anos, especialmente no período que antecede a data.
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O início da prática, para Renata, está diretamente ligado à família.
— Essa tradição de fazer árvore de Páscoa e enfeitar com ovos vem desde sempre, desde a infância. A minha mãe pintava casquinhas dos ovos de galinha para os filhos, depois para os netos, e mais adiante já vinham os bisnetos — conta.
A tradição atravessou gerações dentro de casa e, com o tempo, ganhou ainda mais proporção.
— Quando as vizinhas viam o que a minha mãe fazia, vinham comprar. Ela fazia mais de mil dúzias por vez nessa época de Páscoa, e até para Santa Maria nós vendíamos — relembra, ao destacar que a produção deixou de ser apenas familiar e passou a alcançar outras pessoas.
Ao se mudar para Santa Maria, Renata decidiu manter o costume, mas de forma mais simples.
— Depois que eu vim para cá, comecei a fazer em casa, assim, os enfeitezinhos. Eu faço porque eu acho bonito e, enquanto eu puder, eu vou continuar fazendo — complementa.
Na hora de montar a Osterbaum, a criatividade também faz parte.
— Nós pintávamos com têmpera (técnica que usa gema de ovo na tinta), aquarela ou tinta guache. Como eu não tinha mais muita tinta, eu peguei restos de renda e fiz assim — explica.

Ao comparar o passado com os dias atuais, ela avalia que o costume perdeu força.
— Eu acho que pouca gente cultua essa tradição. Hoje em dia, as pessoas têm muita pressa em tudo, não têm mais tempo para essas coisas — afirma.
Mesmo assim, a expectativa é de continuidade dentro da família.
— Agora já vêm os bisnetos. Quando eles forem maiorzinhos, também vão poder ver. Se quiserem, podem continuar depois — finaliza.
Além de famílias, a tradição da Osterbaum tem sido retomada pelo grupo folclórico Immer Lustig em Santa Maria, com o objetivo de preservar a cultura e reforçar o significado cristão da data. A prática passou a integrar as atividades do grupo há cerca de cinco anos.
— Uma das premissas da equipe é a cultura, trazer sempre esses elementos culturais, revivendo-os como as pessoas que nos precederam faziam, e nós começamos a desenvolver como forma de motivar e unir as pessoas em torno do significado cristão que ela tem — afirma o tesoureiro Thomas Martin.

Segundo Thomas, a prática não é meramente decorativa, mas sim um chamado à simplicidade da tradição, unindo pessoas e revelando elementos cristãos.
— Muitas pessoas que eu conheço dizem que lembram desse ato, que era tradição na casa delas, mas isso se perdeu, porque hoje é mais fácil ir ao mercado e comprar um chocolate. Mas essa árvore é uma atividade barata, divertida e que integra a família — pontua.
O grupo realizou, nos últimos dias de março, oficinas de Páscoa, nas quais as crianças e adultos puderam pintar os ovos e enfeitar a Osterbaum. Diante da repercussão positiva, a intenção é ampliar a iniciativa.
— Para o próximo ano, estamos planejando colocar no jardim da igreja uma grande árvore com esses ovos, para que a comunidade possa ver, lembrar e se interessar por esses costumes — projeta.

Origem europeia e simbolismo cristão explicam tradição da Osterbaum ao longo dos séculos
O professor do Instituto Cultural Brasileiro-Alemão de Santa Maria (ICBA/SM), Harald Umbach, conta que a tradição surgiu na Europa.
— A tradição da Osterbaum está ligada ao contexto climático e cultural da Europa, especialmente ao período em que a Páscoa é celebrada no hemisfério norte. A Europa está saindo do inverno. É um inverno muito cinza, muito frio, sem folhas nas árvores, uma natureza morta — explica o professor.
Segundo ele, a chegada da primavera marca uma transformação significativa.
— De repente, em março e abril, começa a renascer a natureza; é uma explosão de flores, cores, e isso se combina com a mensagem da ressurreição — afirma.
A tradição da árvore de Páscoa é mais recente.
— Essa ideia da Osterbaum é mais moderna, surgiu em um contexto familiar, de pegar galhos secos e colocar dentro de casa, e o ovo é um alimento básico acessível a todos, e por isso também foi incorporado a essas tradições — conta o professor.

Com o passar do tempo, o costume ganhou visibilidade ao ser levado para espaços abertos.
— Na Alemanha, isso começou a aparecer mais publicamente e acabou atraindo a comunidade, até se tornar um atrativo turístico — afirma.
Sobre as mudanças ao longo do tempo, ele avalia que a prática depende das escolhas individuais e que, apesar das transformações culturais, ele ressalta que a prática ainda encontra espaço.
— Cada um dedica o tempo ao que acha importante. O Brasil tem várias etnias e tradições, então, quem conhece e quer manter, consegue. Eu fui criado na Alemanha com essa tradição e sigo realizando com meus filhos — complementa.
Sobre a origem do nome, Harald conta que não há uma história significativa por trás.
— Osterbaum é uma palavra alemã composta: ‘Oster’ significa Páscoa e ‘baum’, árvore. Ou seja, é literalmente a árvore de Páscoa — conclui.
Saiba mais:
Instituto Cultural Brasileiro-Alemão de Santa Maria
- Onde: Rua Floriano Peixoto, 640 - sala 301.
- Telefone para contato: (55) 3222-2285
- Para mais informações, clique aqui.
Grupo de Folclore Germânico Immer Lustig
- Onde: Rua Coronel Niderauer, 1070
- Quando: os ensaios são realizados todas as quartas-feiras às 19h30min e domingos às 18h.
- Telefone para contato: (55) 99159-6274
- Para conferir os eventos do grupo, clique aqui.