"Ele sempre foi um pilar para nós": familiares relembram a trajetória de André Saccol

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Ao olhar para as paredes da sala de seu apartamento, em Santa Maria, Gilda Saccol, de 81 anos, reconstrói a vida do filho caçula através de molduras. São fotografias que vão da infância agitada aos almoços de domingo. Desde o último sábado (16), as imagens ganharam outro peso. André Saccol, de 47 anos, faleceu após colidir a moto que pilotava na traseira de um caminhão na BR-158, em Cruz Alta.

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O empresário santa-mariense era um dos sócios do Grupo Medianeira – grupo empresarial com atuação nos segmentos de transporte, implementos rodoviários, mineração, agropecuária e imóveis – e geria a concessionária Randon em Ijuí, cidade onde morava com a esposa, Daiana Souza de Quadros, de 44 anos, e os filhos Amábile, de 18 anos, e Valentino, de 9. 

Ele era o caçula dos três filhos de Adão José Saccol, fundador da empresa de transportes, falecido em 2021.


"Tinha um cuidado muito grande comigo"

Dona Gilda conta que as características marcantes de André surgiram ainda cedo. Na infância, a energia do menino exigia atenção constante da família. Com o passar dos anos, a inquietude natural concedeu espaço a maturidade. 

André Saccol e a mãe, Gilda Saccol, 81 anosFoto: Vitória Sarturi (Diário)

Após a perda do pai, esse cuidado tornou-se ainda mais evidente. Mesmo morando em Ijuí, André mantinha uma rotina frequente de visitas à mãe em Santa Maria, sempre atento ao seu bem-estar.

– Ele era muito trabalhador e muito cuidadoso comigo depois que perdeu o pai. Sempre chegava atento aos detalhes, querendo saber se eu estava bem, se precisava de alguma coisa. Tinha um cuidado muito grande comigo – afirma a mãe.


“André é movimento, era um motor”

A capacidade de liderança de André também é lembrada pelo irmão mais velho, Alexandre Saccol, de 55 anos, que divide a gestão dos negócios da família.Com um sorriso no rosto ao lembrar dos momentos vividos, Alexandre guarda de forma viva a imagem do irmão ainda menino, recebendo um skate de presente de aniversário.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Segundo ele, na fase adulta, André tornou-se uma referência dentro do grupo empresarial, sendo consultado em assuntos estratégicos e comerciais:

– Ele sempre foi um pilar para todos nós. O André é movimento, era um motor. Passava uma imagem séria, às vezes até dura, mas tinha um amor incondicional pela família e pelos amigos. Era uma pessoa extremamente amorosa.


"Sempre disposto a ajudar"

Em Ijuí, quem reconstrói a rotina do empresário é a esposa, Daiana Souza de Quadros, de 44 anos. Eles se conheceram em 2004. Daiana era vizinha de um amigo que André costumava visitar e, nos encontros do cotidiano, os dois acabaram se aproximando. Mais tarde, já dividiam a mesma casa e a vida.

Daiana relata que o marido mantinha uma postura séria e discreta, mas cultivava uma lealdade rara. Muitos colaboradores conviviam com ele havia décadas e eram tratados com proximidade, respeito e confiança.

Dentro de casa, André encontrava equilíbrio na convivência familiar.Gostava de cozinhar para os filhos e fazia questão de respeitar as preferências de cada um: no último Dia das Mães preparou uma lasanha para a família; no dia a dia, dedicava-se ao carreteiro preferido da filha.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Para Daiana, a principal característica do marido era a capacidade de ajudar as pessoas sem buscar reconhecimento:

– Eu já conheci muitas pessoas ao longo da minha vida, mas ele é diferente. Não demonstrava muito os sentimentos, porém cativava todos que se aproximavam. Estava sempre disposto a ajudar e nunca esperava nada em troca.

Gremista e apaixonado por rock’n’roll, André também cultivava uma forte ligação com o universo das motocicletas. Ao longo dos anos, participou de encontros de motociclistas e colecionou diferentes modelos, atividade que representava um espaço de liberdade em meio à rotina empresarial.


“Ele sabia fazer negócio”

O perfil empreendedor de André também é destacado pelo tio paterno, Lauri Saccol, de 85 anos. Segundo ele, o sobrinho possuía uma capacidade prática incomum para negócios. Mesmo sem formação em engenharia, participou ativamente do planejamento e da construção do novo pavilhão da empresa em Ijuí, acompanhando detalhes técnicos, materiais e decisões da obra.

A habilidade era vista como uma característica de família, compartilhada também com o irmão Marcelo Saccol, 51 anos, responsável por projetos e empreendimentos do grupo em Dourados (MS):

Ele sabia fazer negócio. Já tinha os números na cabeça. Quando alguém pedia um preço, ele sabia exatamente até onde podia ir, onde podia ceder e onde precisava manter posição. E sempre conseguia entregar resultado.


Despedida

Nos últimos meses, familiares e amigos percebiam um André mais leve e comunicativo. O empresário demonstrava grande orgulho pela conquista da filha Amábile, aprovada no curso de Medicina da Universidade Franciscana (UFN), em Santa Maria. Ele próprio havia preparado e mobiliado, nos mínimos detalhes, o apartamento onde a jovem passou a morar.

Outro projeto que ocupava seu tempo era a construção da futura casa da família em Ijuí. Durante madrugadas, pesquisava materiais, referências e ideias para transformar o plano em realidade.

No sábado, minutos antes de viajar para um encontro de motociclistas em Salto do Jacuí, amigos registraram uma última fotografia do empresário: sorridente, ao lado da moto que pilotava. Ao se despedir de Daiana, disse apenas que “já voltava”.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Agora, a família lida com a ausência repentina e o aperto da saudade. No entanto, algo chama a atenção na forma como reconstroem suas memórias: nenhum deles consegue falar de André no passado. Ao longo de cada relato ao Diário, os verbos continuam firmes, no presente: André é movimento, André é uma pessoa diferenciada. Diante de um elo construído em uma vida de cumplicidade, o amor não aceita o ontem; a presença dele permanece intacta na história de cada um.

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Vitória Sarturi

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