Foto: Vinicius Becker (Diário)
Após uma sequência de safras marcadas por extremos climáticos, produtores de grãos da região central do Rio Grande do Sul iniciam o ciclo 2025/2026 com expectativas mais positivas, especialmente em relação à soja. Ainda assim, o cenário segue cercado de cautela – sobretudo no caso do arroz, cultura pressionada por preços baixos, redução de área e menor capacidade de investimento.
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Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgados em 15 de janeiro, indicam que o Brasil deve registrar crescimento de 2,7% na produção total de grãos nesta safra, superando 176 milhões de toneladas, impulsionado principalmente pela soja. O arroz, por outro lado, caminha em sentido oposto: a projeção nacional aponta queda de 13,3%, com produção estimada em 11 milhões de toneladas.
No Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% do arroz produzido no país, a expectativa é de uma colheita de 7,8 milhões de toneladas. A retração ocorre após a safra recorde de 2024/2025, quando o Estado alcançou 8,76 milhões de toneladas, e está diretamente ligada à desvalorização do produto ao longo de 2025 e aos elevados estoques de passagem, que reduziram a atratividade econômica da cultura.
Quatro anos difíceis ainda pesam no campo
Esse cenário de cautela é vivido de perto por produtores como Roberto Lang, 37 anos, de São Sepé. A propriedade da família, iniciada ainda na época dos bisavós com pecuária, passou a cultivar grãos na década de 1970. Ao longo do tempo, arroz e soja dividiram espaço, mas desde 2020 a área de 2 mil hectares é ocupada exclusivamente pela oleaginosa.
Lang relembra que os últimos ciclos foram marcados por perdas sucessivas. Segundo ele, o excesso de chuva – com destaque para as enchentes de 2024 – e as estiagens severas em outros anos comprometeram colheitas e acumularam prejuízos.

– Foram quatro anos bem difíceis. Tivemos um ano de chuva excessiva, que impediu a colheita de parte da área, e três anos de seca. Todo mundo teve problema na atividade – relata Lang (foto acima).
Na Região Central, a semeadura da soja está em estágio avançado, com praticamente toda a área prevista já plantada. Restam apenas parcelas pontuais em alguns municípios, entre eles Santa Maria. Principal cultura de grãos do Estado, a soja tem o plantio concentrado entre setembro e outubro, podendo se estender até fevereiro conforme as condições climáticas, com colheita prevista entre janeiro e maio.

Para depender menos das variações climáticas, Lang passou a investir, desde 2020, em sistemas de irrigação por pivô central (foto acima), hoje instalados em cerca de 400 hectares da propriedade. Segundo ele, a adoção da tecnologia, que busca fornecer água e insumos, resultou em um salto expressivo de produtividade, que chegou a duplicar nas áreas irrigadas. A intenção é ampliar gradualmente o sistema, embora o alto custo de implantação e manutenção ainda limite essa expansão.
Arroz resiste, mas com margem cada vez menor
Esse mesmo sentimento de incerteza acompanha quem segue apostando no arroz. Em Arroio do Só, distrito de Santa Maria, Gerson Bianchin (foto abaixo), 56 anos, mantém a cultura em 110 hectares da propriedade, onde também cultiva 140 hectares de soja, seis de milho e utiliza aveia preta no inverno como uma segunda alternativa, além de criar gado para consumo próprio.

A rotação de culturas, segundo ele, tem sido fundamental para o controle de plantas daninhas e para manter níveis aceitáveis de produtividade. Ainda assim, a rentabilidade do arroz segue cada vez mais apertada.
– Hoje o arroz está praticamente inviável. Eu só continuo plantando porque tenho secador e silo. Quem depende da indústria para secar e armazenar, com esses preços, já teria parado – afirma.
Na safra passada, a produtividade alcançou cerca de 10 mil quilos por hectare, mas, neste ciclo, a expectativa é de queda. O produtor atribui o desempenho inferior ao excesso de dias nublados, à menor luminosidade e às temperaturas mais baixas em fases decisivas da cultura.
A avaliação converge com boletim da Emater, divulgado nesta quinta-feira (22), que aponta danos à infraestrutura das lavouras causados pelas chuvas intensas no fim de dezembro, com necessidade de reimplantação de áreas, especialmente na região da Quarta Colônia.
Neste momento, a maior parte das lavouras no Estado está em fase de desenvolvimento vegetativo. No Rio Grande do Sul, o plantio do arroz ocorre, em geral, entre setembro e dezembro, com pico em outubro, enquanto a colheita se concentra entre fevereiro e abril.
Clima ajuda até agora, mas meses decisivos ainda estão por vir
Do ponto de vista técnico, o professor do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Alencar Zanon avalia que, até o início de janeiro, as condições climáticas foram favoráveis para as culturas da soja e do arroz. Ele alerta, no entanto, que o período mais crítico ocorrerá entre fevereiro e março, quando a disponibilidade hídrica será determinante.

Zanon também aponta que a redução da área plantada com arroz está relacionada, sobretudo, a fatores econômicos. Preços baixos e custos elevados têm levado produtores a reduzir investimentos ou a migrar para culturas consideradas de menor risco financeiro, como a soja. Embora o arroz seja irrigado e, portanto, menos vulnerável à estiagem, a atual relação entre custos e preços tem limitado a rentabilidade da atividade.
Essa avaliação se confirma na prática. Produtores como Roberto Lang abandonaram o cultivo de arroz para concentrar investimentos na soja. Já Gerson Bianchin relata que a tendência é de redução gradual da área de arroz nos próximos anos, com parte dos produtores buscando alternativas mais viáveis economicamente, como a própria soja.
Emater vê cenário regional com mais equilíbrio
Em contraponto à cautela expressa pelo professor e os produtores, a Emater apresenta uma leitura um pouco mais positiva para a Região Central. O gerente regional, Guilherme Passamani, ressalta que os números da Conab refletem uma média nacional e não traduzem integralmente a realidade local.
– Aqui na região, o arroz não sente esse impacto de forma tão significativa. Tivemos boa reposição hídrica e, se as condições climáticas se mantiverem, a produção tende a ser positiva – avalia.

A projeção inicial indica cerca de 124.415 hectares de arroz na Região Central, mas, conforme o boletim da Emater divulgado nesta quinta, a área efetiva pode ser menor. A baixa rentabilidade da cultura e os danos à infraestrutura provocados pelas chuvas intensas do fim de dezembro têm levado produtores a rever o planejamento.
Para a soja, Passamani aponta bom desenvolvimento vegetativo das lavouras, favorecido pelas chuvas recentes, mas reforça que as próximas semanas exigem atenção, especialmente durante a fase de floração. Ele lembra ainda que, mesmo diante de uma eventual boa safra, os produtores seguem financeiramente fragilizados após quatro ou cinco anos consecutivos de perdas.
Expectativa no campo
Enquanto a soja surge como possibilidade de recuperação parcial para muitos agricultores da região central do Rio Grande do Sul, o arroz permanece pressionado por custos elevados e margens cada vez mais estreitas. O resultado da safra 2025/2026 dependerá da combinação entre clima, preços e capacidade de investimento ao longo do ciclo produtivo.
No campo, a atenção segue voltada ao céu, mas a confirmação de uma boa colheita vai além das condições climáticas. Ela também está diretamente ligada à adoção de práticas adequadas de manejo, como o controle de pragas e doenças, a reposição de nutrientes no solo e o acompanhamento técnico contínuo das lavouras.