Força da comunidade é peça-chave para manter os selos de Geoparque na região

Thais Immig e Vitória Sarturi

Força da comunidade é peça-chave para manter os selos de Geoparque na região

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Em São João do Polêsine, o artesanato nasce dentro de casa. Há quem borde, costure ou transforme a palha de milho em cestas em trabalhos manuais que mantêm viva técnicas passadas de geração em geração.


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Há dois anos, essas mãos que carregam saberes antigos se encontram no mesmo endereço: a Casa do Artesão, localizada em frente à praça e à igreja matriz do município. O encontro não foi por acaso, afinal, costureiras não dão um ponto sem nó. A abertura foi motivada pelo aumento do fluxo de visitantes à região – movimento que se intensificou desde que a Quarta Colônia conquistou o título de Geoparque Mundial da Unesco, em 2023.

Agora, a expectativa é pela renovação desse reconhecimento. Entre os dias 15 e 23 de julho, avaliadores da Unesco visitarão os nove municípios que integram o Geoparque Quarta Colônia, além de Caçapava do Sul, para verificar os avanços alcançados pela região desde a certificação.

A artesã e professora Flávia Coradini, 58 anos, conta que a criação da Casa do Artesão carrega um sentimento antigo, das artesãs do município:

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Era um sonho de mais de 30 anos das primeiras artesãs de São João do Polêsine. Antes, cada artesã trabalhava e vendia seus produtos na própria residência. Hoje, temos um lugar onde podemos receber os visitantes, mostrar o nosso trabalho e valorizar quem produz artesanato no município.

Atualmente, o espaço reúne o trabalho de 12 artesãs. Entre elas, estão professoras, aposentadas e donas de casa que dedicam seu tempo ao trabalho manual. No interior da Casa, o artesanato ocupa cada canto. De um lado, panos de prato bordados com dinossauros lembram a riqueza paleontológica da Quarta Colônia. Do outro, cestas produzidas com palha de milho dividem espaço com peças em tricô e crochê, das formas mais variadas.

Embora o desejo de criar a Casa seja anterior ao Geoparque, Flávia afirma que o reconhecimento da Unesco fomentou o desejo de empreender. Antes, segundo ela, a maioria das artesãs comercializava as peças em suas próprias residências e o fluxo de visitantes era concentrado durante festas tradicionais do município. Hoje, as excursões chegam durante todo o ano.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Com o geoparque, a visibilidade foi muito maior. Passamos a receber muitas excursões, que fazem pré-agendamento para visitar a Casa. Antes isso praticamente não acontecia – relata.

O selo de Geoparque é, também, sinônimo de criatividade. Nos últimos dois anos, dinossauros e temas relacionados à região passaram a estampar panos de prato, chaveiros e bordados.

– Eu vejo claramente o que nós éramos antes dele e o que somos hoje. É um resgate da nossa história e da nossa cultura – afirma Flávia, sobre a parceria com o Geoparque.
A poucos dias da nova avaliação da Unesco, a expectativa é de que a região mantenha o reconhecimento internacional.
– Não é apenas sobre as nossas vendas. O turista movimenta todo o comércio da cidade, desde mercados e farmácias até outros empreendimentos.


“Muito amor”

Para Flávia, o artesanato é uma forma de contar a história da região:

– Um trabalho artesanal não é apenas um produto. Ele carrega muito amor, dedicação e talento. A técnica a gente aprende, mas ninguém consegue criar uma peça sem colocar sentimento naquilo que está produzindo. Por isso, cada produto artesanal leva consigo um pedaço do artesão.


Receitas de família agora ganham o mundo

Mesmo do reconhecimento internacional, receitas caseiras de geleias já eram negócio na casa de Lisana Ferigolo, 49 anos. Há seis anos, ela e a família montaram uma agroindústria que nasceu de um sonho antigo: transformar os sabores aprendidos na cozinha de casa em uma fonte de renda. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

A produção começou de forma simples, ainda na cozinha da residência da família. Com economia própria e dedicação, Lisana e o marido, Elisandro, deram os primeiros passos para estruturar o empreendimento. Aos poucos, as vendas para amigos, parentes e moradores da região mostraram que as receitas poderiam chegar mais longe.

Em 2020, eles conseguiram a liberação do alvará e oficializaram a agroindústria. Com os filhos mais crescidos, a rotina também permitiu que mais pessoas se envolvessem no negócio. A filha mais velha, que antes trabalhava fora, retornou para casa para ajudar na produção.
Inicialmente, a ideia era trabalhar com geleias e conservas. Com o passar do tempo, a agroindústria ampliou a variedade de produtos e apostou em geleias apimentadas e temperadas, além de antepastos inspirados em receitas italianas antigas.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

– Começamos com as mais tradicionais, aquela chimia que a gente aprende a fazer em casa para o consumo da família. Eu, como filha de pequeno agricultor do interior, sabia fazer. Aproveitei o que eu sabia fazer e fui incrementando – conta Lisana.

Não é preciso prolongar-se muito para perceber a atenção em cada detalhe. Os produtos são feitos sem conservantes, com matéria-prima local e seguem à risca receitas que carregam memórias dos antepassados. Os rótulos foram pensados pela família e colados em cada pote pelas mãos ágeis da filha mais nova, Francesa, de 17 anos. A combinação de tradição e qualidade não poderia ter outro resultado: novos consumidores e aumento na produção.


Geoparque

Com o passar do tempo, o trabalho também passou a ser impulsionado pelo geoparque. Para Lisana, a certificação internacional trouxe novas oportunidades:

– A divulgação através do geoparque dá muito alcance para as nossas vendas. É muito importante para nós.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Com a nova avaliação da Unesco, a expectativa é pela manutenção do selo e pela continuidade do desenvolvimento turístico e econômico do território.

Espero que o nosso selo continue e que a nossa Quarta Colônia, através do geoparque, dos empreendimentos, das rotas turísticas e do artesanato, continue crescendo. Temos potencial para evoluir muito mais – diz.

Nem só de boa infraestrutura e descobertas paleontológicas se faz um geoparque. Por isso, o empenho da comunidade é apontado como um dos principais diferenciais da região na busca pela revalidação do selo de Geoparque Mundial da Unesco. Às vésperas da visita de dois avaliadores internacionais, que percorrerão os nove municípios do território para verificar os avanços dos últimos quatro anos, histórias como a da Flávia e da família de Lisana é vista pela direção do projeto como a maior demonstração de que o selo merece permanecer onde está.

Para isso, há meses, o território se prepara para a revalidação. Em janeiro, a equipe do geoparque encaminhou à Unesco um relatório com mais de 540 páginas que detalham ações nas áreas de educação, turismo e desenvolvimento sustentável. O documento também responde às recomendações feitas pelos avaliadores durante a certificação, em 2022. Segundo a diretora executiva do Geoparque Quarta Colônia, Eduarda Brum, uma das principais demandas da última avaliação era a ampliação da sinalização turística dos geossítios e atrativos da região.

– Passamos por duas fases de implantação de sinalização, com totens e painéis interpretativos. Esse era um ponto importante levantado pelos avaliadores e conseguimos avançar bastante nesse aspecto – afirma.


Comunidade engajada

Para Eduarda, contudo, o maior avanço não está na infraestrutura, mas no sentimento de pertencimento da população, que ganhou contornos maiores desde o título oficial de geoparque. Envolvimento que cresce a cada novo projeto ou investimento na região.

Foto: Arquivo Pessoal

– Nós acreditamos que o principal avanço foi o envolvimento da comunidade. Não adianta termos um patrimônio paleontológico reconhecido mundialmente se quem vive aqui não se sente parte dessa história. Felizmente, a comunidade abraçou o geoparque ainda quando ele era um projeto – destaca a diretora do geoparque.

Atualmente, o Geoparque Quarta Colônia reúne mais de 150 parceiros, entre agroindústrias, empreendimentos turísticos, artesãos e produtores locais. O crescimento do turismo também impulsionou novos negócios na região, como passeios turísticos em Ivorá, a consolidação das Termas Romanas como atrativo internacional e a comercialização de pacotes turísticos para a Quarta Colônia por uma operadora nacional, a CVC.

As descobertas científicas também estão na rota dos avaliadores da Unesco. O Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa) soma novas descobertas a cada ano e segue como referência internacional pela presença dos fósseis de dinossauros mais antigos do mundo. Recentemente, mais um achado, dessa vez na área arqueológica: mais de 5 mil artefatos indígenas foram encontrados em Dona Francisca após as enchentes de 2024. Hoje, as peças já integram o acervo do Museu Arqueológico da Quarta Colônia.

O sentimento de pertencimento também é trabalhado desde a infância. Nas escolas da região, projetos de educação patrimonial e ambiental aproximam os estudantes da história e das riquezas naturais da Quarta Colônia. Entre as iniciativas está o projeto Guardiões do Geoparque, que incentiva crianças a conhecerem e valorizarem o território.

Segundo Eduarda, esse trabalho ajuda a consolidar uma cultura de preservação que se reflete também entre os adultos.

Hoje percebemos as comunidades entusiasmadas, querendo mostrar o melhor da região para os avaliadores. Eu tenho dito para todos que basta mostrarmos a nossa realidade. Avançamos muito desde a certificação e estamos confiantes na revalidação do selo.


Infraestrutura

Os impactos das enchentes também serão pauta do encontro com a Unesco. A região foi uma das mais atingidas do Rio Grande do Sul, com destruição de pontes, estradas e parte da sinalização turística instalada nos geossítios.

Outra frente de trabalho envolve a melhoria da infraestrutura, como acesso a pontos turísticos ou ligação entre as cidades da Quarta Colônia. O geoparque atua junto aos demais geoparques gaúchos e à Secretaria Estadual do Turismo na busca por recursos específicos para esses territórios.


“Nós não preparamos o território para a Unesco, mas para quem mora em Caçapava”

A busca pela manutenção do selo global também mobiliza o Geoparque Caçapava. Entre 2024 e 2025, a gestão do território passou por uma mudança estratégica: deixou de ser vinculada apenas à Secretaria de Turismo e Cultura e foi integrada diretamente ao gabinete do prefeito Marcelo Spode (PP), transformando o projeto em uma política pública transversal.
Segundo a coordenadora geral do Geoparque Caçapava, Alizandra da Silva Danzmann, o foco do trabalho nunca foi puramente estético ou voltado exclusivamente para a avaliação da Unesco.

Foto: Nathalia Schneider (Arquivo Diário)

– Nós não preparamos o território para os avaliadores da Unesco, mas sim para quem mora aqui em Caçapava, que são os protagonistas do território. Por isso a nossa aproximação tão forte com os amigos da Quarta Colônia. Estamos inseridos em um movimento compartilhado e coletivo – afirma Alizandra.

Entre as principais exigências e recomendações da Unesco que foram executadas no município estão a ampliação de paineis informativos, a qualificação do ecossistema turístico e o estreitamento de laços com os outros geoparques do Brasil e da Europa (em uma missão recente desenvolvida em Portugal). Na economia local, uma série de capacitações em parceria com Sebrae, UFSM e governo do Estado também buscou gerar emprego e renda.

– Temos que pensar na parte financeira também. A nossa situação econômica é bem diferente dos geoparques europeus e existe um critério dos avaliadores de buscar essa percepção e se inserir no espaço que estão avaliando – diz a coordenadora.

A coordenadora explica que o olhar da Unesco vai além das atrações geológicas, focando na melhoria da qualidade de vida da população. O plano de ação incluiu melhorias na infraestrutura urbana, qualificação dos acessos aos pontos turísticos, iluminação pública adequada e a destinação correta do lixo. Como exemplo, cita as melhorias na comunidade de Minas do Camaquã – localizada a 62 quilômetros da sede do município – onde o projeto do restauro do histórico Cine Rodeio foi aprovado pelo Estado, e a prefeitura instalou um posto de saúde e uma subprefeitura.

Alizandra ainda reforça que o sucesso da revalidação depende diretamente do envolvimento dos 52 mil moradores do município de Caçapava:

– Nós, enquanto gestão, buscamos ofertar as ferramentas, mas o processo é das pessoas que moram aqui. Buscamos que elas compreendam o geoparque como um espaço de desenvolvimento. As pessoas têm o poder de protagonismo.


Como funcionará a avaliação

O processo de revalidação dos Geoparques entra em sua fase mais decisiva a partir da próxima quarta-feira, 15 de julho. A avaliação em campo é o ponto alto de um ciclo de monitoramento contínuo exigido pela Unesco. A missão será realizada por dois especialistas estrangeiros: o francês Jean-Luc Desbois e a portuguesa Daniela Rocha, que atua no Geoparque Mundial da Unesco de Arouca, em Portugal.

Foto: Arquivo Pessoal

A comitiva cumprirá uma agenda dividida entre os dois territórios gaúchos. O roteiro começa pela Quarta Colônia, onde os avaliadores passarão por pontos estratégicos dos nove municípios para conferir as estruturas, os novos paineis de sinalização e os projetos de geoeducação.

Nesses três dias, vamos mostrar tudo o que temos de melhor, de mais bonito e de mais gostoso na nossa gastronomia. Queremos apresentar a diversidade da Quarta Colônia, desde a cultura alemã e italiana até a presença quilombola no território. Infelizmente, não conseguimos contemplar todos os locais, porque gostaríamos de ter muitos dias com os avaliadores para mostrar tudo o que temos. Mas escolhemos pontos estratégicos para apresentar a nossa cultura, a gastronomia e a educação – afirma Eduarda Brum, diretora do Geoparque Quarta Colônia.

Na sequência, de 19 a 23 de julho, os técnicos desembarcam em Caçapava do Sul. A programação inclui vistorias técnicas nas estruturas urbanas, nos acessos turísticos, em locais de comércio e artesanato local. Também haverá uma visita detalhada à comunidade de Minas do Camaquã para apresentar os avanços em saúde, infraestrutura e o projeto de restauro do histórico Cine Rodeio.

A rota da comitiva inclui visitas a geossítios, centros de visitantes, museus, escolas, empreendimentos turísticos parceiros e iniciativas comunitárias locais. Ao longo do circuito, os avaliadores também conversam diretamente com gestores, pesquisadores, representantes do poder público e moradores para medir o impacto real do geoparque no cotidiano da população.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Ao longo da ação, representantes das prefeituras da região também irão compor a comitiva. Entre as lideranças está a prefeita de São João do Polêsine, Jaqueline Milanesi (Progressistas), que destaca o impacto do projeto para além do turismo.

A expectativa é a melhor possível. O fundamento do Geoparque está sendo vivido hoje pela Quarta Colônia através do desenvolvimento humano, da integração das pessoas e do fortalecimento cultural. O trabalho educacional nas escolas é um dos nossos alicerces e o grande diferencial do território por trabalhar a preservação do nosso patrimônio histórico – aponta.


Avaliação

Após a conclusão da visita, os avaliadores elaboram um parecer minucioso que é enviado diretamente para o Conselho da Unesco, em Paris. É este relatório que define o destino do selo internacional da região, baseado em três cenários distintos:

  • Cartão Verde (Sucesso total!): Ocorre quando o território cumpre as metas com excelência. O título de Geoparque Mundial é renovado integralmente por mais 4 anos.
  • Cartão Amarelo (Alerta de fragilidades): O selo e o reconhecimento internacional são mantidos, mas os avaliadores apontam pontos de atenção. A gestão do geoparque ganha um prazo de 2 anos para implementar melhorias e corrigir as falhas apontadas.
  • Cartão Vermelho (Reprovação): Caso seja constatado que o geoparque não cumpre os critérios internacionais básicos ou ignorou as recomendações anteriores, o território perde o reconhecimento e o selo da Unesco é retirado.


O que é um geoparque Unesco

  • Os geoparques são territórios (regiões) de um ou mais municípios, reconhecidos como regiões que possuem importância científica, cultural, paisagística, geológica, arqueológica, paleontológica e histórica únicas. Há vários geoparques nacionais, mas só 6 no Brasil são reconhecidos mundialmente pela Unesco. Nesses locais, a Memória da Terra é preservada e usada de forma sustentável para gerar desenvolvimento à comunidade
  • O geoparque Quarta Colônia recebeu esse título da Unesco porque tem algo único no mundo: é o berço dos mais antigos dinossauros da Terra
  • Um geoparque é composto por vários geossítios, que geralmente são pontos turísticos, como um mirante em uma montanha, uma formação rochosa rara, ou um centro de pesquisa e exposição de fósseis, como o Cappa


O que é a Unesco?

É a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura


Relembre a trajetória dos geoparques

  • 2015: Início das atividades científicas do CAPPA em São João do Polêsine
  • 2018: Diante do imenso potencial paleontológico e cultural da região, a UFSM e o Consórcio de Municípios da Quarta Colônia (Condesus) unem forças para dar a largada oficial no projeto do Geoparque.
  • 2021: Após anos de inventariação da geodiversidade, mapeamento e engajamento das comunidades locais, o dossiê de candidatura oficial é enviado à Unesco em novembro.
  • 2022: Em novembro, avaliadores internacionais da Unesco visitam a Quarta Colônia para vistoriar os geossítios, a infraestrutura e os projetos de desenvolvimento sustentável e educação.
  • 2023: Em maio, a Unesco aprova oficialmente o Geoparque Quarta Colônia como um Geoparque Mundial, colocando a região definitivamente no mapa do turismo e da ciência global.
  • 2025: Como parte do ciclo exigido pela Unesco para a melhoria contínua das estruturas, avaliadores retornam à região para uma missão de monitoramento e alinhamento de metas.
  • 2026: O território passa pelo seu primeiro processo oficial de revalidação da chancela da Unesco.

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