Foto: Juan Barreto / AFP
Nicolás Maduro foi capturado por forças norte-americanas sob acusação de narcoterrorismo
A retirada do presidente venezuelano Nicolás Maduro do poder não teria sido possível sem uma intervenção externa de grande escala. A avaliação é do cientista político e santa-mariense Cezar Cauduro Roedel, que aponta a operação conduzida pelos Estados Unidos como determinante para romper um regime que, segundo ele, já não possuía legitimidade política nem soberania efetiva.
A ofensiva ocorreu na madrugada do último sábado (3), quando forças norte-americanas atuaram em território venezuelano e capturaram Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram levados aos Estados Unidos, conforme confirmação do governo norte-americano.
Na análise de Roedel, o contexto interno da Venezuela inviabilizava qualquer mudança promovida exclusivamente por ações internas. O controle das Forças Armadas, a fragmentação institucional e a repressão política impediram, ao longo dos últimos anos, a consolidação de uma oposição com capacidade real de destituir o governo.
– Não haveria qualquer possibilidade se não fosse uma variável externa disruptiva – afirma o cientista político, ao se referir à ação militar norte-americana.
“A soberania é o direito de governar”
Sob a perspectiva jurídica e institucional, Roedel avalia que o caso venezuelano evidencia os limites do Direito Internacional contemporâneo. Para ele, o conceito clássico de soberania se fragiliza quando um governante permanece no poder sem respaldo eleitoral reconhecido.
– Se falamos sobre a questão da soberania, é claro que Maduro fraudou as eleições, sendo um líder ilegítimo. A soberania é o direito de governar. Quando o povo não delega esse direito, o que resta é apenas o controle pela força – explica.
O especialista também destaca a incapacidade da Organização das Nações Unidas (ONU) de responder de forma efetiva às denúncias de violações de direitos humanos, perseguições políticas e ao esvaziamento democrático no país. Segundo ele, a ausência de mecanismos reais de coerção faz com que decisões estratégicas acabem sendo tomadas fora dos fóruns multilaterais, pelas grandes potências.
Nesse cenário, a atuação dos Estados Unidos estaria inserida em uma estratégia mais ampla de reorganização das zonas de influência no hemisfério ocidental. Roedel observa que o expressivo deslocamento militar norte-americano para o Caribe indica que a operação extrapola a crise venezuelana e se conecta diretamente à contenção da presença da China e da Rússia na América Latina.
– O mundo está claramente dividido em zonas de influência, e havia um vácuo na América Latina que passou a ser ocupado por russos e chineses – analisa.
Interesses econômicos
Além da dimensão geopolítica, Roedel aponta que interesses econômicos tiveram peso relevante na decisão norte-americana, especialmente os relacionados ao petróleo. A Venezuela detém uma das maiores reservas do mundo, e a maior parte de sua produção vinha sendo destinada à China. Para o cientista político, o controle desses recursos funciona tanto como instrumento de pressão internacional quanto como argumento interno para justificar os custos elevados de uma operação militar prolongada.
Apesar da retirada de Maduro, Roedel alerta que o futuro político do país permanece incerto. Ele ressalta que o regime chavista construiu, ao longo de décadas, uma estrutura de poder profundamente enraizada, com milhares de generais cooptados e forças armadas fragmentadas justamente para evitar rupturas internas. Sem uma presença contínua ou uma transição negociada consistente, não há garantias de que a Venezuela caminhe rapidamente para eleições livres.
Por fim, o cientista político avalia que os desdobramentos do caso tendem a ultrapassar as fronteiras venezuelanas, com impactos diretos sobre a política regional. Segundo ele, eventuais negociações, delações e reposicionamentos diplomáticos podem influenciar processos eleitorais, alianças internacionais e a relação de países latino-americanos — incluindo o Brasil — com os Estados Unidos nos próximos anos.
Leia mais:
- "Os Estados Unidos querem fixar sua influência na América Latina", diz professor da UFSM sobre os impactos internacionais e interesses econômicos da prisão de Nicolás Maduro
- O discurso de Trump após a captura de Maduro: os principais pontos
- Países da América Latina se manifestam sobre ataque à Venezuela
- China repudia ofensiva americana na Venezuela e alerta para riscos à América Latina