Fotos: Vinicius Becker (Diário)
Iniciativa prevê ações com moradores voltadas à economia sustentável, à preservação ambiental e ao turismo.
Quem sobe as ruas do Campestre do Menino Deus logo percebe que o bairro tem um ritmo diferente do restante da cidade. Em meio às casas, morros e árvores, a paisagem localizada na região noroeste mistura áreas verdes, vegetação nativa e pontos de vista que revelam parte de Santa Maria de outro ângulo.
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Foi justamente a partir dessa riqueza natural, cultural e territorial que nasceu o projeto Distrito Verde, proposta que busca transformar a região do Campestre, Perau, Parque dos Morros e Morro do Cechella em um polo de preservação ambiental, turismo sustentável, inovação ecológica e desenvolvimento comunitário.
A iniciativa, de autoria do vereador Givago Ribeiro (PSDB), ganhou um novo capítulo nos últimos dias com a sanção da Lei 7.141/2026 pela Prefeitura de Santa Maria. A legislação institui oficialmente o Polo de Preservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, chamado de Distrito Verde, e cria diretrizes para políticas públicas voltadas ao equilíbrio ecológico, fortalecimento da economia local e adaptação às mudanças climáticas.
O ato de assinatura ocorreu no gabinete do prefeito Rodrigo Decimo (PSD).
— A instituição do Distrito Verde é um passo histórico para o planejamento urbano e ambiental de Santa Maria. Estamos transformando regiões fundamentais da nossa cidade em um polo de vanguarda que une desenvolvimento econômico de baixo impacto à preservação rigorosa – afirmou o prefeito durante ato de assinatura.

O que é o Distrito Verde

A proposta do Distrito Verde vai além da preservação ambiental. O projeto prevê um modelo de desenvolvimento baseado em turismo regenerativo, economia verde, empreendedorismo local, educação socioambiental e valorização cultural. O território contemplado possui cerca de 10,6 quilômetros quadrados e população estimada entre 2,7 mil e 3 mil moradores.
Nascido e criado na região ao lado do irmão – Gilvan Ribeiro, secretário de Esporte e Lazer –, Givago explica que a ideia surgiu, justamente, da percepção de que o território já possui ativos naturais e culturais capazes de impulsionar um novo modelo de desenvolvimento para Santa Maria.
Segundo ele, o projeto busca preparar a comunidade antes da chegada de grandes investimentos públicos e privados, evitando que o crescimento aconteça sem integração com quem vive no local.
Na prática, o Distrito Verde funciona como um projeto de desenvolvimento territorial sustentável. A ideia é preparar a região para crescer economicamente sem perder suas características ambientais e culturais.
A proposta se organiza em seis pilares principais:
- estrutura legal e territorial
- fortalecimento da identidade local
- educação socioambiental
- economia criativa
- turismo regenerativo
- criação de um hub de negócios sustentáveis
Isso inclui ações como sinalização turística padronizada, capacitação de moradores, incentivo ao empreendedorismo, reaproveitamento de materiais, fortalecimento do ecoturismo, roteiros culturais, incentivo a startups ambientais e integração entre universidades, comunidade, poder público e iniciativa privada.

Projeto tenta evitar erros de grandes obras do passado
Segundo Givago, uma das principais preocupações é fazer com que os investimentos previstos para a região gerem impacto direto na vida dos moradores.
Ele afirma que o Distrito Verde busca evitar situações já vistas em outros projetos urbanos de Santa Maria, em que obras estruturantes acabaram pouco conectadas à comunidade local.
— O diferencial do Distrito Verde é que estamos preparando a comunidade antes da chegada desses investimentos. Aprendemos com experiências anteriores em Santa Maria, em que grandes obras ocorreram sem integração comunitária. Aqui fazemos o contrário: primeiro mobilizamos as pessoas, criamos pertencimento e depois potencializamos os investimentos – observa.
O vereador destaca que o projeto não começa pelas obras, mas pelas pessoas. Nesse contexto, a Escola Municipal Professora Hylda Vasconcellos aparece como um dos principais pilares da proposta.
Segundo ele, a escola tornou-se um espaço de transformação socioambiental e formação comunitária, onde estudantes passam a atuar como multiplicadores de práticas sustentáveis dentro do território.
— Costumamos dizer que a Hylda é o coração pulsante do Distrito Verde, porque é a partir dela que crianças e jovens passam a atuar como multiplicadores de práticas sustentáveis e fortalecem o pertencimento da comunidade — afirmou.
“Projeto que cuida das pessoas”, diz diretora
Para a diretora da Escola Hylda Vasconcellos, Caroline Amaral dos Santos, o Distrito Verde representa uma proposta de transformação para toda a comunidade do Campestre. Ela acrescenta que o projeto vai além do desenvolvimento econômico e turístico, envolvendo também educação, sustentabilidade e pertencimento social.
– Pensamos na nossa escola como o coração do Distrito Verde, porque dela vão sair todos os projetos de educação e sustentabilidade para a comunidade – afirma a professora.
De acordo com a diretora, desde o início, já é possível perceber o envolvimento dos moradores e o entusiasmo dos estudantes com a proposta. Ela acredita que os impactos serão significativos tanto para a comunidade escolar quanto para toda a região, especialmente na preparação dos jovens para uma nova perspectiva de desenvolvimento sustentável:
– É um projeto que cuida das pessoas. Queremos que os nossos jovens compreendam a importância de receber bem os turistas, cuidar da natureza e, ao mesmo tempo, desenvolver um espírito empreendedor
Investimentos previstos passam de R$ 17 milhões

Parte da viabilidade do projeto está ligada aos investimentos já previstos para a região. Entre eles, está o futuro Parque da Barragem, estimado em cerca de R$ 12 milhões, além da revitalização dos mirantes do Perau, pavimentações, nova Unidade Básica de Saúde (UBS), escola e creche.
Para Givago, essas obras devem transformar o território nos próximos anos e aumentar o potencial turístico da região.
— O Parque da Barragem será o principal catalisador do desenvolvimento do território. O Distrito Verde nasce justamente para preparar a comunidade para esse novo cenário — frisou.
Segundo ele, a proposta busca garantir que os benefícios desses investimentos permaneçam no próprio território e alcancem diretamente os moradores. E acrescenta que os investimentos previstos para infraestrutura e equipamentos públicos ultrapassam R$ 17 milhões. A primeira entrega deve ser a nova Unidade Básica de Saúde do Campestre, que já está em processo de licitação e será viabilizada com recursos do financiamento do Badesul que a prefeitura fez. Em relação ao Parque da Barragem, a expectativa é de que as obras iniciem até a metade do próximo ano.
Já os mirantes do Perau também possuem recursos assegurados e estão próximos da conclusão do processo licitatório.
Além das obras públicas, o Distrito Verde também pretende estimular a economia local. A prefeitura, segundo o vereador, estrutura linhas de crédito com juros zero para apoiar empreendedores da região.
O projeto também possui parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por meio do edital Território Imembuí, envolvendo estudantes de Turismo, Agronomia, Arquitetura e Urbanismo. A Universidade Franciscana (UFN) também desenvolve ações ligadas à educação socioambiental e empreendedorismo comunitário.

Produção local
Outra frente do projeto está ligada ao fortalecimento do turismo sustentável e da produção regional. Entre os exemplos citados, está a Vinícola Velho Amâncio, localizada na região e responsável pelo vinho Terras Baixas Malbec Safra 2021, reconhecido nacionalmente como o Melhor Malbec do Brasil.
Para Givago, iniciativas desse tipo ajudam a demonstrar o potencial econômico e turístico do território.
Recepção lá fora
O projeto também ganhou visibilidade recente durante o Gramado Summit, onde despertou interesse de representantes da área de inovação e de investidores ligados ao desenvolvimento sustentável.
– O evento abriu conexões com a Secretaria Estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia e também com empreendedores interessados em investir no território, sempre respeitando as diretrizes ambientais e sociais do projeto. O Distrito Verde despertou interesse justamente por propor um ecossistema territorial utilizando ativos naturais já existentes – conclui ele.
Clique aqui e acesse o site do projeto.
O mascote
Além das propostas ligadas à sustentabilidade e ao turismo, o Distrito Verde também aposta no fortalecimento da identidade cultural da região. Um dos símbolos criados para representar o projeto é o “Lobisomem do Campestre”, mascote inspirado na tradicional lenda do Lobisomem do Perau, história conhecida há décadas entre moradores da região.
Segundo a lenda, a criatura teria nascido e vivido nos campos próximos à Estrada do Perau, entre Santa Maria e Itaara. Os relatos populares contam que o ser teria assustado moradores do Campestre do Menino Deus antes de fugir pela região do Perau, onde acabou capturado.
O mascote foi desenvolvido pelo artista Leonardo Iusten.