Foto: Vinicius Becker (Diário)
A rotina começa na madrugada. Para milhares de gaúchos, buscar atendimento médico especializado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) significa embarcar em vans, micro-ônibus e carros de prefeituras para percorrer centenas de quilômetros. Enquanto os pacientes enfrentam o desgaste físico de viagens que duram o dia inteiro, as administrações municipais lidam com o estrangulamento de seus orçamentos. Atualmente, as prefeituras dos 497 municípios do Rio Grande do Sul desembolsam cerca de R$ 500 milhões por ano para custear o transporte sanitário, aponta a Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs), assumindo um papel que os prefeitos classificam como o de “um Uber do Estado”.
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Na tentativa de amenizar o impacto financeiro, o governo do Estado publicou a Portaria SES Nº 90/2026, que destina R$ 50,4 milhões anuais para cofinanciar esses deslocamentos. No entanto, a Famurs e a Associação dos Municípios da Região Central (AMCentro), apontam que o valor cobre apenas 10% dos gastos reais. Mais do que dinheiro, os gestores cobram a descentralização dos serviços e uma revisão profunda nos sistemas estaduais de regulação de consultas, que frequentemente enviam pacientes para cidades distantes, mesmo quando há polos médicos mais próximos.
"Rodoviária da Saúde"

Para entender o impacto logístico gerado pela atual regulação do Estado, basta observar a rotina no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). No local, há um espaço dedicado exclusivamente ao recebimento de pacientes que chegam via transporte em saúde. O ambiente funciona como uma espécie de “rodoviária” hospitalar: um ponto de apoio equipado com televisão, sofás, micro-ondas e banheiros. É ali, em meio a malas e mochilas, que os pacientes aguardam, muitas vezes por horas, até que o último passageiro do veículo termine sua consulta para que todos possam retornar às suas cidades de origem.

A dona de casa Angelita Ribeiro de Moura, 44 anos, conhece bem essa realidade. Moradora de Tupanciretã, ela viaja há quase dois anos acompanhando o marido, Alciomar Aquino, 65 anos, que realiza sessões de quimioterapia e radioterapia para tratar um câncer na região da cabeça e pescoço. Devido à frequência do tratamento, o casal opta por ficar abrigado em uma casa de passagem, em Santa Maria, durante a semana, aguardando o transporte municipal na sexta-feira para retornar ao lar.
– Se nós não ficássemos aqui, teríamos que viajar todos os dias. Meu marido já teve pneumonia, precisou fazer drenagem, não pode ficar pegando friagem. Hoje, nós estamos aqui na casa de apoio, com todas as nossas mochilas, esperando a van. A prefeitura nos avisou que o motorista está aguardando outro paciente na Apae terminar para vir nos buscar. Na semana passada, saímos quase 17h e chegamos em Tupanciretã às 20h. É muito cansativo – relata Angelita.

O cansaço também dita o ritmo da aposentada Maria Enir Simões Cabreira, 70 anos, e de seu marido, Ervandil Cabreira, 82. Moradores de São Gabriel, eles saíram de casa às 2h da madrugada para uma consulta em Santa Maria e tinham previsão de chegada de volta apenas no início da noite. O casal realiza esse trajeto há dois anos, alternando viagens também para outras cidades, como Rosário do Sul, para diferentes tratamentos.
– Hoje, devemos sair daqui umas 16h para chegar em casa às 18h30min. Vai o dia inteiro, é um dia morto praticamente. O atendimento aqui no hospital é muito bom, compensa por esse lado, mas o cansaço é muito grande, ainda mais para ele que tem 82 anos – conta Maria.

Para um grupo vindo de Alegrete, composto por comerciantes e aposentados, como Paulo Severo, 60 anos, e Luciana Severo, 55, a viagem começou às 3h30min da manhã. Apesar de elogiarem a tecnologia e o atendimento do Husm, os usuários são unânimes ao afirmar que a pior parte do tratamento é a espera. Como viajaram juntos, todos precisam aguardar o último paciente do grupo, que tinha consulta marcada para as 15h, e só após, então, iniciar o trajeto de volta à Fronteira Oeste.
Conta preocupa as prefeituras

De parte das administrações municipais, a engrenagem do transporte é financeira. Luís Henrique Kittel (PL), prefeito de Agudo e presidente da AMCentro, explica que o modelo atual de regulação estadual cria distorções logísticas que encarecem o serviço e desgastam a população. Em sua cidade, Agudo, são transportados em média 1,2 mil pacientes todos os meses.
Ele cita exemplos que desafiam a lógica. Faxinal do Soturno, outro município da Quarta Colônia que é referência regional em oftalmologia, rotineiramente envia os próprios moradores para realizar consultas oftalmológicas na cidade de Cacequi — a quase 200 quilômetros de distância —, de acordo com o sistema de regulação estadual. Em outros casos, veículos viajam quase vazios para destinos diferentes em dias seguidos.
– Os municípios não recebem recursos suficientes para isso, recebem apenas obrigações. Isso vem numa escala da União, do Estado e cai tudo no colo da prefeitura. Os orçamentos vão ficando extremamente estrangulados porque temos gastos desnecessários. Só para Porto Alegre vão cerca de 70 pessoas. São oito veículos rodando por dia, totalizando 32 mil quilômetros mensais, a um custo de R$ 70 mil apenas com recursos próprios – detalha o presidente da AMCentro.
A principal reivindicação dos prefeitos da região é a retomada da autonomia regional. Até há poucos anos, a 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), que tem sede em Santa Maria, geria os encaminhamentos. Hoje, tudo passa pelo sistema centralizado do Estado.
– Não somos contra a tecnologia, queremos que o sistema seja aperfeiçoado. O Estado coloca o cidadão para consultar onde tem vaga na planilha, mas não pensa na logística, não sabe qual é a realidade de uma cidade de 5 mil habitantes na Quarta Colônia. Queremos que essas consultas possam ser concentradas regionalmente para otimizar tempo e dinheiro – cobra Kittel.
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