Foto: João Vilnei (PMSM/Divulgacao)
Referência para mais de 40 municípios e responsável por atendimentos de média e alta complexidades, o Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) continua registrando, nas últimas semanas, ocupação acima de 100% no Pronto-socorro. Um dos motivos é que a unidade, que conta com apenas 29 leitos, tem recebido pacientes com diferentes níveis de gravidade, incluindo casos que poderiam ser acompanhados em unidades básicas de saúde.
A própria direção do hospital orienta que o pronto-socorro seja buscado apenas em situações de maior gravidade, reacendendo um debate recorrente em Santa Maria: como funciona, na prática, o acesso à saúde pública e para onde o paciente deve ir em cada situação.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
O papel da atenção primária
A organização do sistema público de saúde no Brasil é definida pela Política Nacional de Atenção Básica (Pnab), que estabelece a Atenção Primária à Saúde como a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e responsável por coordenar o cuidado dos pacientes. Na prática, isso significa que unidades como Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Estratégias Saúde da Família (ESFs) devem ser o primeiro local procurado pela população, resolvendo a maior parte dos casos e encaminhando para serviços especializados apenas quando necessário.
Esse modelo prevê um fluxo organizado: o paciente acessa a unidade básica, recebe atendimento, acompanhamento e, se houver necessidade, é encaminhado para consultas especializadas, exames ou atendimento de urgência. No entanto, esse funcionamento depende diretamente da capacidade de acesso às unidades, da cobertura territorial e da resolutividade dos serviços ofertados.
Em Santa Maria, segundo dados da Secretaria municipal da Saúde, a Atenção Primária realizou cerca de 360 mil consultas entre março de 2025 e março de 2026, uma média de 30 mil atendimentos mensais. O município, ainda de acordo com a pasta, conta com aproximadamente 89 médicos e mais de 60 enfermeiros atuando nesse nível, além de técnicos de enfermagem presentes nas equipes.
Apesar disso, o superintendente da Atenção Primária, Marlon Marinho, reconhece que o sistema opera próximo do limite, especialmente diante do volume crescente de atendimentos e da estrutura disponível.
– O que precisamos hoje é ampliar a cobertura da Atenção Primária, com mais equipes e mais unidades. As estruturas existentes já trabalham, em geral, na sua capacidade máxima. Hoje, temos em torno de 360 mil consultas por ano ali. Isso dá cerca de 30 mil por mês. E isso é só consulta, sem contar vacinas, procedimentos e outros atendimentos – afirma.
Diferença entre unidades de saúde e unidades de urgência e emergência

Parte da dificuldade enfrentada pela população está na compreensão sobre o tipo de atendimento oferecido em cada serviço. A Atenção Primária é voltada para casos de menor gravidade, acompanhamento contínuo e ações preventivas. Já os serviços de urgência e emergência, como pronto atendimentos e hospitais, são destinados a situações com risco imediato à saúde.
Na prática, isso significa que sintomas como gripe, dor de garganta, febre sem agravamento, dores leves ou moderadas e acompanhamento de doenças crônicas devem ser atendidos nas UBSs e ESFs. Por outro lado, sinais como falta de ar intensa, dor no peito, convulsões, acidentes, quedas com impacto ou agravamento rápido do quadro clínico indicam a necessidade de buscar diretamente um pronto atendimento ou hospital.
Segundo Marinho, não há um prazo fixo que determine essa mudança, mas sim sinais de alerta.
– Quando há risco à vida ou uma piora significativa, o paciente deve procurar diretamente um serviço de urgência. Já sintomas leves devem ser acompanhados na atenção primária – explica.
Outro fator que diferencia os serviços é a forma de atendimento. Nas unidades básicas, o acesso ocorre por meio de dois formatos: demanda espontânea, quando o paciente procura a unidade no dia, e agendamento, para consultas programadas. Antes de chegar ao médico, o usuário passa pelo acolhimento, que avalia a necessidade e define o encaminhamento.
Já nos serviços de urgência, o atendimento segue o Protocolo de Manchester, que organiza a fila de acordo com a gravidade do paciente, desde casos de emergência (com risco imediato de vida) até situações urgentes (que exigem atendimento rápido, mas não imediato), e não pela ordem de chegada. Isso explica por que pessoas com quadros mais graves são atendidas antes, mesmo que tenham chegado depois.
A diferença entre esses dois modelos, no entanto, nem sempre é clara para a população e pode gerar situações de frustração, especialmente quando há dor ou desconforto.
De acordo com a lógica do SUS, o fluxo de pacientes deve ser organizado pelo próprio sistema de saúde. Ou seja, cabe à Atenção Primária avaliar, acompanhar e encaminhar o paciente quando necessário, inclusive em casos mais graves, com estabilização inicial e direcionamento ao serviço adequado.
Na prática, no entanto, esse fluxo também depende da escolha inicial do usuário, que precisa buscar o serviço correto conforme os sintomas. Quando essa escolha não ocorre, há impacto direto na rede, com aumento da demanda em serviços de urgência ou sobrecarga em unidades básicas.
– Quando é um caso mais grave, a própria unidade faz o encaminhamento. Mas a orientação é que o paciente procure o serviço adequado desde o início, sempre que possível – explica o superintendente.
Alta demanda e dificuldade de acesso
Dados da Secretaria de Saúde de Santa Maria mostram que a procura por atendimento está concentrada em algumas unidades do município. Entre março de 2025 e março de 2026, os maiores volumes foram registrados na UBS Kennedy (27,5 mil atendimentos), UBS Wilson Paulo Noal (22,5 mil), UBS José Erasmo Crossetti (18,8 mil), UBS Rubem Noal (18,3 mil), ESF Roberto Binato (15,8 mil) e UBS Centro Social Urbano (15,7 mil).
Segundo a prefeitura, essas unidades atendem populações maiores e, em alguns casos, recebem pacientes de outras regiões, o que aumenta a pressão sobre a estrutura. A facilidade de acesso, como localização central ou disponibilidade de transporte, também influencia esse movimento.
Esse cenário contribui para a formação de filas e para a percepção de dificuldade de atendimento, especialmente em horários de maior demanda. Embora o município afirme não haver falta generalizada de profissionais, reconhece a necessidade de ampliar a cobertura para reduzir a concentração.
– São unidades com população referenciada muito grande e um volume muito expressivo de consultas. Isso acaba refletindo no acesso do usuário. Não tem muito como extrapolar a capacidade humana do atendimento. O pessoal dentro das unidades tenta fazer o melhor possível, mas há um limite físico e estrutural para isso – afirma.
Município aposta em novas unidades e horários ampliados para melhorar o acesso

Para enfrentar a alta demanda, a prefeitura afirma que tem investido na ampliação da rede. Entre as estratégias, estão a construção de novas unidades de saúde, ampliação de estruturas existentes e oferta de turnos estendidos, com atendimento fora do horário habitual e em alguns sábados.
A lógica, segundo a gestão, é aumentar a capacidade de atendimento por meio de novas equipes e espaços físicos, já que as unidades atuais operam próximas do limite. A ampliação não se daria apenas com mais médicos nas estruturas existentes, mas com a criação de novas unidades capazes de absorver a demanda crescente.
Ainda assim, diante do cenário de superlotação hospitalar e relatos recorrentes de dificuldade de acesso na Atenção Primária, especialistas e gestores reconhecem que o desafio envolve múltiplos fatores, desde o crescimento da demanda até a organização do fluxo entre os diferentes níveis do sistema.
Onde buscar atendimento em Santa Maria
A rede pública de saúde do município conta com unidades de Atenção Primária e unidades de Urgência e Emergência distribuídos entre bairros e distritos.
Atenção Primária (Unidades Básicas de Saúde, Estratégias Saúde da Família e equipes de Atenção Primária)
- EAP Centro Social Urbano
- EAP Crossetti
- EAP Dom Antônio Reis
- EAP/ESF Estação dos Ventos
- EAP Floriano Rocha
- EAP/ESF Itararé
- EAP Joy Betts
- EAP/ESF Kennedy
- EAP/ESF Oneyde de Carvalho
- EAP Rubem Noal
- EAP Waldir Aita Mozzaquatro
- EAP Walter Aita
- EAP/ESF Wilson Paulo Noal
- ESF Alto da Boa Vista
- ESF Bela União
- ESF Lídia
- ESF Maringá
- ESF Nova Santa Marta
- ESF Parque Pinheiro
- ESF Passo das Tropas
- ESF Roberto Binato
- ESF Santos
- ESF São Francisco
- ESF São João
- ESF São José
- ESF São Carlos/Urlândia
- ESF Vitor Hoffmann
- EACs Nova Santa Marta
- ESF Arroio do Só
- ESF Pains
- UBS Arroio Grande
- EAP Felício Bastos (Boca do Monte)
- UBS Palma
- ESF Santo Antão
- UBS Santa Flora
- UBS São Valentim
- Unidade Móvel
Serviços especializados e unidade de Urgência e Emergência
- Policlínica Municipal de Saúde Mental
- Policlínica Central
- Policlínica Rubem Noal e Pronto Atendimento 24h
- Pronto-Atendimento Municipal (PAM)
- Pronto-Atendimento Odontológico (PAO)
- Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas
- Setor Especializado em Saúde da Mulher
- Laboratório de Análises Clínicas
- Casa 13 de Maio
- Centro de Referência em Tuberculose