A generosidade que brota da terra: o destino dos frutos

Daniela Minello

Meus pais aprenderam muito cedo a se relacionar com a terra. Hoje, ela responde com as colheitas dos anos: minha mãe, dona Rene Maria Lovatto Minello, caminha para os seus 86, meu pai, senhor Mario Minello, para os 90, e ainda assim, ambos seguem com as mãos voltadas ao chão, como quem sabe que ali mora a continuidade da vida. A mãe plantando e regando seu jardim, o pai, podando e eliminando os excessos, abrindo caminho para o novo. Meus pais sempre viveram em casas com pátio. E, um pátio para eles, nunca foi apenas espaço, foi território de cuidado e de vida que floresce e gera bons frutos. Ali nasceram árvores frutíferas, ervas para chás, legumes, flores... Plantaram parreiras, ameixeiras, goiabeiras, mangueiras, abacateiros, pitangueiras, amoreiras, temperos simples e plantas delicadas. Semearam com constância, com zelo, com paciência, com respeito ao tempo das coisas. E não se limitaram ao que ficava “dentro”. Estenderam esse gesto à calçada, ao espaço público, à rua compartilhada. Árvores frutíferas cresceram ali para que qualquer pessoa que passasse pudesse colher. Sem cerca, sem aviso, sem condição. Apenas confiança no humano. Esse hábito silencioso revela quem eles sempre foram: pessoas que entendem que a vida só faz sentido quando é partilhada.


Frutos pendurados em gestos de ternura

Quando as frutas amadurecem no pátio interno, meus pais não as guardam apenas para si. Eles as colocam em pequenas sacolinhas, penduradas na grade da casa, como quem estende o coração para fora. Junto às frutas, um bilhete simples e profundamente humano: “Podem levar para comer. Estão muito gostosas.” Esse gesto, aparentemente pequeno, carrega uma grandeza imensa. Não é só sobre frutas. É sobre confiança. É sobre partilha. É sobre acreditar que o outro merece. É sobre oferecer sem saber quem receberá. É sobre cuidar de quem talvez nunca será conhecido. Ali, na grade da casa, meus pais ensinam, sem discursos, sem teorias, que generosidade não é sobra, é escolha. Que doar não empobrece; amplia. Que cuidar do outro é também uma forma de cultivar o mundo.


O que herdamos também floresce

Cresci observando esse modo de existir. E, sem perceber, fui sendo semeada por ele. Hoje, quando faço algo saboroso, sinto vontade de compartilhar. Quando planto, desejo oferecer mudas. Quando colho do meu pomar, penso imediatamente em quem pode receber. E, continuo escrevendo bilhetinhos afetuosos. Essa prática se estendeu aos amigos, à família, aos encontros. Não como obrigação, mas como alegria. Há algo profundamente humano em dividir o que nasce das nossas mãos. Como se, ao partilhar, o fruto ganhasse outro sabor, o da comunhão. Aprendi com meus pais que aquilo que plantamos não é apenas material. Plantamos gestos, valores, presenças. E essas sementes atravessam gerações, criando raízes invisíveis, porém firmes. Compartilhar tornou-se, para mim, uma forma de agradecer à vida. Uma continuidade natural daquilo que me foi oferecido desde sempre.


O destino das nossas colheitas

Dizem que tudo o que plantamos, um dia colhemos. Mas talvez a pergunta mais importante não seja se colhemos, e sim “o que fazemos com nossas colheitas”. Não basta plantar. Não basta colher. É preciso saber para onde destinar os frutos que a vida nos entrega. Nossas colheitas podem ser guardadas apenas para nós, ou podem circular. Podem endurecer em acúmulo, ou amadurecer em partilha. Em todas as direções da vida, afetiva, profissional, humana, sempre haverá alguém que precise de um gesto, de um cuidado, de um pouco do que temos. Olhar ao redor é um exercício de consciência. Há sempre uma mão esperando, uma fome silenciosa, uma necessidade que pode ser acolhida. Que possamos aprender com a terra, com o tempo e com exemplos como o dos meus pais: plantar com intenção, colher com gratidão e oferecer com generosidade. Porque é no uso que fazemos dos nossos frutos que colhemos, que revelamos de fato, quem somos. Semeie, cuide, colha e saiba partilhar.

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