Foto: Marcello Casal Jr (Agência Brasil)
Dívidas envolvendo o cartão de crédito fazem parte da vida de muitos brasileiros.
As dívidas dos moradores de Santa Maria cresceram cerca de R$ 32,6 milhões em apenas um mês, segundo dados divulgados pela Serasa. O valor total devido passou de R$ 842 milhões em fevereiro para R$ 874,6 milhões em março, alta de 3,87%. No mesmo período, o município também registrou aumento no número de inadimplentes, que passou de 108.940 para 111.872 pessoas negativadas.
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O total de dívidas também aumentou. Em fevereiro, os inadimplentes somavam cerca de 495 mil dívidas. Já em março, esse número chegou a 510.823, um acréscimo de 15.823 contas em atraso, avanço de aproximadamente 3,2%.
Para o economista e professor Mateus Frozza, o aumento da inadimplência está diretamente ligado ao fácil acesso ao crédito, ao uso excessivo do cartão de crédito e dos empréstimos consignados, além da falta de educação financeira da população. Segundo ele, dois grupos concentram os maiores índices de endividamento atualmente: os jovens, influenciados pelo consumo e pela necessidade de pertencimento social, e os idosos, muitas vezes mais vulneráveis a empréstimos e renegociações sem compreender plenamente os juros envolvidos.
Frozza alerta ainda que o endividamento afeta não apenas o orçamento das famílias, mas toda a economia, reduzindo o consumo e impactando o comércio e a geração de empregos. Como alternativa para quem busca sair das dívidas, o economista destaca programas de renegociação, como o Desenrola Brasil, mas ressalta que a solução passa também pela conscientização financeira e pela reorganização da capacidade de pagamento das famílias.
Cenário

Um levantamento da CDL Porto Alegre e do SCPC Boa Vista/Equifax mostra que a inadimplência na cidade atinge homens e mulheres de forma relativamente equilibrada. Do total de inadimplentes, 44.832 são mulheres e 43.630 são homens. Outros 12.949 registros não possuem informação de gênero.
Segundo Frozza, os jovens entre 16 e 25 anos chegam ao mercado já inseridos em um ambiente de forte estímulo ao consumo, impulsionado principalmente pelas redes sociais e pela facilidade de acesso ao crédito digital. Para ele, o endividamento dessa faixa etária está diretamente ligado à necessidade de pertencimento social.
- O jovem precisa gastar para estar nesse grupo. Isso fica bem claro com um adolescente, com a garrafa da moda, com o tênis da Vans, então, eu preciso me incluir e para me incluir eu preciso gastar. Tem uma palavra que é a ganância, tem muita ganância financeira nesse jovem que recém entrou ou é participante dessa vida financeira - afirma.
Os números de Santa Maria reforçam a presença significativa de adultos jovens entre os inadimplentes. A faixa etária com maior concentração de dívidas é a de 30 a 34 anos, com 12.103 pessoas negativadas. Logo depois aparecem os grupos de 35 a 39 anos, com 11.667 inadimplentes, de 25 a 29 anos, com 11.533, e de 40 a 44 anos, com 11.303.
Na outra ponta estão os idosos, que, conforme o economista, acabam mais vulneráveis a empréstimos e ofertas financeiras, muitas vezes sem compreender plenamente os mecanismos de juros e renegociações.
Em Santa Maria, a inadimplência entre idosos também chama atenção. Conforme os dados, 11.350 inadimplentes têm entre 65 e 77 anos, enquanto outras 4.064 pessoas possuem mais de 78 anos.
- A figura do idoso já participa com a sua renda no orçamento familiar e aqui tem algo muito importante também. Ele tem uma capacidade de endividamento muito ligada à ingenuidade. É ingenuidade no sentido de aceitar o empréstimo, de receber uma ligação, de não entender como funciona os juros compostos, daí ele acaba sempre renovando um empréstimo e nunca adquire nada. Então, isso para mim é um grupo muito vulnerável - explica.
Entre esses dois extremos, Frozza observa uma parcela da população tentando equilibrar orçamento, consumo e projetos de vida, como aquisição da casa própria, do primeiro carro ou a constituição da família. Nesse contexto, o cartão de crédito aparece como o principal motor do endividamento no país, impulsionado especialmente pela expansão dos bancos digitais e fintechs. Além do cartão, os empréstimos consignados também ocupam papel central no cenário de inadimplência. O problema, segundo o economista, é o ciclo contínuo de renovação desses contratos.
- Então essas são as grandes fontes porque esses empréstimos consignados que são descontados em folha e, por mais que eu tenha um juros menor, as pessoas têm por hábito o quê? Elas pagam seis meses e já renovam, pagam seis meses e já renovam. Então estão sempre na renovação - destaca.
Outro ponto evidenciado pelos dados é a forte concentração da inadimplência entre pessoas de baixa renda. Em Santa Maria, 59.632 inadimplentes recebem entre um e dois salários mínimos. Outros 13.949 têm renda entre meio e um salário mínimo. Já nas faixas mais altas, os números caem drasticamente: apenas 1.628 inadimplentes possuem renda superior a 20 salários mínimos.
O impacto desse cenário, porém, não fica restrito às finanças individuais. Frozza explica que o aumento da inadimplência reduz diretamente a capacidade de consumo da população, o que acaba afetando toda a cadeia econômica.
- Quando eu perco a capacidade de consumo, alguém deixa de vender. E se alguém não vendeu, alguém não empregou - resume o economista ao analisar os reflexos no mercado de trabalho e na atividade econômica.
Como sair dessa?
Quando o assunto é sair das dívidas, o economista reforça que o primeiro passo não deve ser correr para renegociar, mas entender a própria realidade financeira.
- A primeira coisa antes de negociar uma dívida é saber o quanto eu estou disposto a pagar. Tem muita gente que vai negociar sem entender a própria capacidade de pagamento - afirma.
Ele alerta ainda que muitas renegociações acabam se tornando armadilhas devido aos juros elevados, o que faz com que parcelas praticamente dobrem o valor original da dívida. Por isso, em situações mais graves, orienta a busca por apoio do Procon, da Lei do Superendividamento e até de negociação judicial.
Desenrola Brasil
Sobre o programa Desenrola Brasil, Frozza considera a iniciativa positiva, principalmente pela possibilidade de descontos e uso do FGTS para quitar débitos. Ainda assim, afirma que nenhuma política pública terá resultado duradouro sem conscientização financeira.
- Se eu não tiver conscientização, daqui seis meses eu estou na mesma situação. Eu preciso usar esses recursos para quitar a dívida à vista e não fazer novas dívidas. E isso é um processo de conscientização. O esforço não é individual, ele é coletivo - afirma.
A educação financeira, aliás, aparece como um dos principais gargalos apontados pelo economista. Para ele, o Brasil ainda trata o dinheiro como um tabu dentro das famílias e até das escolas.
- Eu preciso entender a dinâmica do cartão de crédito. Eu preciso entender a dinâmica do parcelamento, da aposentadoria, do financiamento estudantil e da compra do carro. É isso que eu preciso entender. Porque na escola, quando eu falava o que que era um boleto, eles não sabiam. Mas eles sabem o que é streaming, têm conta no Nubank, no Inter. Então eu preciso conscientizar sobre como usar esse recurso - avalia.
Além dos impactos econômicos, Frozza destaca ainda o peso emocional provocado pelas dívidas. Segundo ele, cresce o número de pessoas afetadas pelo chamado “burnout financeiro”, caracterizado pelo desgaste psicológico causado pelo endividamento.
- São pessoas que estão envergonhadas, pessoas que estão perdendo cidadania, com vergonha de sair de casa, vergonha de atender o telefone, de olhar mensagem, de bloquear ligação. Então a pessoa acaba entrando em um burnout, em uma depressão e buscando tratamento logo ali na frente - alerta.
Para o economista, falar sobre dinheiro de forma aberta ainda é um desafio cultural no país. Ele acredita que futuras gerações precisarão lidar com o tema de maneira mais transparente, principalmente porque os jovens já entram muito cedo no sistema financeiro — muitas vezes antes mesmo de compreender totalmente as consequências do crédito fácil.
- Eles já saem da escola ou da faculdade devendo cartão de crédito. Então a dor vai ensinar muito - conclui.
O que o Novo Desenrola Brasil oferece?
- desconto de até 90% sobre a dívida antiga;
- taxa máxima de juros de 1,99% ao mês;
- prazo de 35 dias para começar a pagar;
- parcelamento em até 48 vezes;
- possibilidade de uso de 20% do saldo da conta do FGTS ou até R$ 1 mil, o que for maior, para pagar parcial ou integralmente dívidas;
- desnegativação das pessoas que possuem dívidas de até R$ 100.
Quem pode participar?
- quem ganha até 5 salários mínimos (R$ 8.105);
- quem tem dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estejam atrasadas entre 90 dias e 2 anos;
- só podem ser renegociadas dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC).
Como participar?
Os interessados em aderir ao programa devem procurar diretamente os bancos e instituições financeiras nas quais possuam dívidas. O novo crédito terá limite de R$ 15 mil por pessoa por banco ou instituição financeira.
O que dizem as entidades locais

Para a presidente da Câmara de Dirigentes Logistas (CDL) Santa Maria, Elizabeth Flores, apesar dos indicadores de emprego e renda apresentarem melhora, a situação financeira das famílias segue pressionada pelo alto custo de vida, pelos juros elevados e pelo crescimento do endividamento. Segundo ela, grande parte da renda acaba comprometida com impostos, financiamentos, empréstimos e parcelamentos, o que reduz diretamente a capacidade de consumo da população. Dados da SCPC Boa Vista/Equifax em parceria com a CDL Porto Alegre mostram que, em março de 2026, o índice de inadimplência chegou a 36,9% no Rio Grande do Sul e a 42,10% em Santa Maria. Em janeiro de 2025, esses índices eram de 33,2% e 38,8%, respectivamente, evidenciando o avanço do endividamento tanto no Estado quanto no município.
Elizabeth afirma que esse cenário naturalmente impacta o comércio, especialmente em períodos que dependem mais do consumo das famílias. Ainda assim, ela avalia que datas comemorativas seguem movimentando as vendas, principalmente o Dia das Mães, considerado a segunda data mais importante do varejo. Segundo a presidente da CDL, a campanha “A Loja Preferida da Minha Mãe”, promovida pela entidade, tem gerado retorno positivo entre os lojistas associados, ajudando a impulsionar as vendas por meio de ações promocionais, divulgação e premiações para clientes e vendedores.
Já o presidente do Sindicato dos Lojistas de Santa Maria (Sindilojas), Ademir José da Costa, critica os juros elevados no Brasil e diz que programas de incentivo à renegociação passam a imagem de que todas as empresas devem fazer o mesmo com os devedores, incentivando quem é mau pagador. Ele cita que antigamente, muitas empresas locais tinham crédito no carnê:
- Hoje, o endividamento é com multinacionais, é com bancos, é com outros setores e o que sobra é que o cliente não vem na loja porque ele não tem cartão e as lojas abandonaram o modelo de crédito próprio. Então, é uma das razões também de nos afetar profundamente esse momento que eles estão vivendo de endividamento da população. Infelizmente, eu sempre dizia e sempre defendo que é melhor você endividar o teu cliente com a tua loja do que deixar ele se endividar com os outros. E é o que aconteceu, infelizmente, e essa é uma verdade que pegou bem pesada agora.
Endividamento freiam crescimento das vendas para o Dia das Mães
Além disso, mesmo com expectativa de crescimento nas vendas para o Dia das Mães no Estado, o avanço deve ser mais tímido em 2026 por causa do aumento do endividamento das famílias e do crédito mais caro. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta faturamento de R$ 14,47 bilhões para a data, alta de 1,5% em relação ao ano passado. Segundo a entidade, fatores como juros elevados, aumento da inadimplência e incertezas econômicas têm reduzido o poder de compra da população e freado um crescimento maior do varejo.
De fevereiro para março, Santa Maria registrou aumento em todos os indicadores de inadimplência, segundo Serasa:
Indicador | Fevereiro | Março | Diferença | Variação |
|---|---|---|---|---|
Inadimplentes | 108.940 | 111.872 | + 2.932 pessoas | + 2,69% |
Número de dívidas | 495 mil | 510.823 | + 15.823 dívidas | + 3,2% |
Valor total devido | R$ 842 milhões | R$ 874,6 milhões | + R$ 32,6 milhões | + 3,87% |
Dívida média por inadimplente | R$ 7,7 mil | R$ 7.818,14 | + R$ 118,14 | + 1,53% |
Ticket médio por dívida | R$ 1.699 | R$ 1.712,20 | + R$ 13,20 | + 0,78% |
Na prática, os dados mostram que não apenas aumentou o número de pessoas inadimplentes em Santa Maria, mas também cresceu o volume de dívidas e o valor total devido. O salto mais expressivo ocorreu no montante das dívidas, com acréscimo de mais de R$ 32 milhões em apenas um mês.
Número de endividados no país de 2020 até hoje:
MÊS | INADIMPLENTES |
|---|---|
jun/20 | 64,00 milhões |
dez/20 | 61,36 milhões |
jan/21 | 61,67 milhões |
dez/21 | 63,97 milhões |
jan/22 | 64,81 milhões |
dez/22 | 69,43 milhões |
jan/23 | 70,09 milhões |
dez/23 | 71,10 milhões |
jan/24 | 72,07 milhões |
dez/24 | 73,51 milhões |
jan/25 | 74,60 milhões |
dez/25 | 81,24 milhões |
jan/26 | 81,31 milhões |
fev/26 | 81,73 milhões |
mar/26 | 82,83 milhões |
Fonte: Serasa
Perfil dos endividados
Fonte: Serasa
Brasil
Os endividados se dividem em:
- 49,4% homens
- 50,6% mulheres
Faixa etária:
- 11,2% têm até 25 anos
- 33,5% têm entre 26 e 40 anos
- 35,5% têm entre 41 e 60 anos
- 19,8% têm 60 anos ou mais
Rio Grande do Sul
4.128.929 estão inadimplentes - 46,47% da população adulta
Os endividados se dividem em:
- 50% homens
- 50% mulheres
Faixa etária:
- 10,7% têm até 25 anos
- 32% têm entre 26 e 40 anos
- 34,4% têm entre 41 e 60 anos
- 23% têm 60 anos ou mais
Estado | Inadimplentes | # Dívidas | Valor total | Ticket médio de dívidas por inadimplente | Ticket médio por dívidas |
|---|---|---|---|---|---|
RS | 4.128.929 | 17.620.935 | R$ 31.961.589.600,00 | R$ 7.740,89 | R$ 1.813,84 |