Pais atípicos compartilham experiências e dificuldades em Feira da Inclusão em Santa Maria

Maria Eduarda Silva

Pais atípicos compartilham experiências e dificuldades em Feira da Inclusão em Santa Maria

A Feira da Inclusão reuniu, neste sábado (25), no Shopping Monet Plaza, em Santa Maria, famílias atípicas, profissionais e serviços especializados com foco no acolhimento, na troca de experiências e no acesso à informação. Com entrada gratuita, o evento buscou dar visibilidade à realidade enfrentada no dia a dia por mães e pais atípicos, além de aproximar a comunidade de orientações sobre direitos, terapias e acompanhamento especializado.

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A abertura oficial, às 10h, foi marcada por uma roda de conversa com as pediatras Janice Sityá, Camila Sityá e a neurologista Lais Favaretto. A ação aconteceu na praça de alimentação do shopping, onde elas conversaram com o público presente no evento sobre orientações, trocas de experiências e esclarecimento de dúvidas.

A cerimônia de abertura ocorreu às 10h na praça de alimentação do Monet Plaza Shopping.Foto: Maria Eduarda Silva

A pediatra Janice destacou a importância de ampliar o acesso à informação e ao acompanhamento especializado. E ressaltou, ainda, que a feira foi pensada para orientar as famílias de forma acolhedora.

— Acho a feira uma ideia excelente de inclusão em vários aspectos. O objetivo aqui é trazer informações de forma adequada e tranquila, sem pressão, sem cobrança, para tentar ajudar da melhor forma possível. O acesso às informações e aos diagnósticos ainda é difícil, porque a demanda é muito alta. É um trabalho de construção, uma jornada longa, e as famílias passam por muitos momentos difíceis. Ela reforça a importância do trabalho conjunto — afirma a médica.

— O tratamento não é só na clínica. Precisa da integração da escola, da família e de uma equipe multidisciplinar. É assim que a gente consegue interferir positivamente no desenvolvimento da criança — pontua Janice.

Já a pediatra Camila enfatizou o papel da feira na conscientização e no apoio às famílias.

— Eu atuo na área do desenvolvimento e comportamento e estou aqui a convite do Universo Atípico. É um trabalho muito importante na cidade, tanto para conscientizar quanto para auxiliar na luta por direitos. Além de ser uma troca informal de informações, compartilhamento de experiências e troca de dúvidas. É uma oportunidade para as famílias divulgarem seus trabalhos e também para a população ter acesso a palestras, oficinas e orientações sobre o autismo e outras condições — observa ela.

Sobre o impacto do evento, a médica destaca a importância da informação no dia a dia.

Espero que as pessoas saiam daqui mais conscientes, desde sinais de alerta e direitos até manejos práticos no dia a dia, como lidar com crises e questões comportamentais — finaliza.

Já a neurologista Laís destacou o caráter de acolhimento e aprendizado coletivo da feira.

— Fiquei muito feliz com o convite. É um momento de troca de informação, acolhimento e experiências, e isso é sempre muito enriquecedor. Meu foco é mais em adolescentes e adultos, e hoje eu trouxe informações sobre o autismo nessa população. Espero que as pessoas sejam mais empáticas e acolhedoras, que entendam as diferenças e saibam apoiar alguém em um momento de crise — complementa.

A médica também reforçou a importância do diagnóstico precoce.

É fundamental ficar atento aos sinais desde cedo. O diagnóstico precoce permite intervenções mais eficazes. O autismo está cada vez mais presente na sociedade. Todos devem ter essas informações e saber como apoiar essas pessoas — conclui a neurologista.

Médicas Camila Sityá, Lais Favaretto e Janice Sityá presentes na Feira da Inclusão, participantes da roda de conversa.Foto: Maria Eduarda Silva

“É uma luta diária”: mães atípicas dão voz à realidade na feira

Para Mirna Daiana Zambrano, avó atípica conhecida como Dadá, integrar uma família neurodivergente (pessoas com funcionamento neurológico diferente do padrão, como autismo, TDAH, entre outros) é parte da sua realidade cotidiana.

— A nossa família é a nossa grande rede de apoio, contando com meu esposo e minhas três filhas. Nós temos sete netos no total, mas deles, três são atípicos e eu também — conta.

Mirna conta que faz cinco anos que descobriu o seu diagnóstico.

— Eu descobri, mas não mudou em nada hoje a minha vida. Porém, explica muita coisa. Nós, mulheres, temos o que a gente costuma chamar de "masking" (uma estratégia, consciente ou inconsciente, usada por mulheres autistas, especialmente no nível 1 de suporte, para reproduzir comportamentos neurotípicos), em que nos camuflamos para nos inserir na sociedade — explica a avó.

Amigos do Dodô e Dadá surgiu em 2019 a partir de uma ação solidária para arrecadar agasalhos e, desde então, atua conectando famílias em situação de vulnerabilidade a doações e apoio por meio das redes sociais.Foto: Maria Eduarda Silva

Para Mirna, a feira representa uma oportunidade de dar visibilidade à realidade vivida diariamente por muitas famílias. 

— A feira de hoje ajuda a proporcionar a qualidade de vida para as meninas. No meu caso, eu estou hoje aqui com essas cuias (foto abaixo). É uma amiga minha que vende. Então, eu estou fazendo essa revenda para ela, claro que com a minha comissão. Mas não é toda família que tem essa oportunidade de estar hoje aqui expondo o trabalho dela, que, muitas vezes, é o ganha-pão — afirma.

Além disso, ela ressalta o que é feito com o dinheiro adquirido e como o público acaba ajudando sem mesmo saber.

— Nós compramos remédios e tem muitas terapias que o SUS não custeia hoje. Então, nós precisamos achar um meio de arrecadar dinheiro. E hoje essa iniciativa aqui é para as famílias que não são neurodivergentes conhecerem um pouco desse nosso universo — acrescenta Mirna.

Ela também chama atenção para a falta de visibilidade ao longo do ano. 

Quem puder se fazer presente toda vez que souber que vai ter um evento na cidade, seja um evento atípico, seja um evento para apresentar trabalhos, que a pessoa dê um pouquinho mais de atenção. Agora, no mês de abril, para todo lado têm iniciativas, porque é o mês do autismo, da conscientização. Só que o mês vai acabar. Não vamos ter mais essas feiras; a gente não vai ter mais palestras. Então, eu quero que a sociedade dê um pouquinho mais de atenção para esse nosso mundo — pede a avó.

Cuias que estavam disponíveis para a venda na banca de Mirna.Foto: Maria Eduarda Silva

Já a mãe atípica Daiane Brum Lopes, 41 anos, participa da feira como forma de complementar a renda e divulgar o próprio trabalho. Mãe de duas meninas com diagnóstico dentro do espectro autista, ela conta que precisou adaptar a rotina profissional após o nascimento das filhas.

— Eu sempre fui empreendedora de laço de cabelo. Até então, era só o laço. Depois, com a função que as meninas nasceram e depois que eu descobri o diagnóstico delas, eu tive que parar de trabalhar e acabei empreendendo, fazendo laço de cabelo, pano de prato, comecei a pegar os cordãozinhos (com o símbolo do autismo) também para vender e pulseirinhas — relata, mostrando os utensílios na mesa.

Daiane espera que, com a divulgação, as pessoas saiam mais informadas sobre o que é o autismo.Foto: Maria Eduarda Silva

Além desses materiais, ela também optou por realizar um brechó.

— Hoje, como a ideia seria uma feira, eu fui lá no armário de roupa das meninas e selecionei aquelas que não serviam mais; tinha calçadinho. Resolvi fazer um brechó também para ajudar na renda e também para aumentar a minha banquinha. Então, a feira para a gente significa uma renda extra e também para expor o nosso trabalho — ressalta.

Segundo Daiane, a iniciativa também é importante para ampliar o conhecimento da população sobre o tema. 

— Eu quero que, com essa feira, as pessoas levem desse evento mais informação. Porque até então tem pessoas que ainda não conhecem o autismo e sabem muito pouco. A feira, acredito, vai trazer bastante divulgação, não apenas do autismo, mas de outras doenças — avalia a mãe atípica.

E ela aproveitou para deixar um recado às mães atípicas.

— Eu quero que mães sempre busquem pelos direitos dos filhos, que elas nunca desistam. Independentemente do evento que for, continuem tentando incentivar a criança a brincar, incentivar a criança a viver. Não só dentro de casa. As crianças precisam ver o mundo, porque, no dia em que nós não estivermos aqui, elas vão conseguir, nem que seja um pouco, aprender com o que nós ensinamos para que no futuro sejam mais independentes — finalizou Daiane.

Chaveiro personalizado que Daiane estava vendendo na feira,Foto: Maria Eduarda Silva

A pedagoga Roberta Kozoroski de Oliveira da Rocha, 45 anos, que é mãe de um adolescente com TDAH e deficiência intelectual, vê na feira uma oportunidade de compartilhar experiências e fortalecer a rede de apoio entre famílias.

— Como eu fico mais em casa por causa deles, eu não consigo trabalhar fora. Faço trabalhos artesanais, eu e a minha mãe, porque vai desacelerando a cabeça, entrando em outro mundo, não apenas no mundo deles, que é a nossa corrida diária. Então, nós acabamos não tendo onde expor nossos trabalhos; então, essa feira foi uma ótima oportunidade — destaca ela.

Roberta da Rocha, responsável pela banca Detalhe Único. Além de ser educadora, ela possui seis pós-graduações para contribuir com a vida do filho.Foto: Maria Eduarda Silva

Segundo ela, a sua trajetória de vida foi marcada por desafios, principalmente no ambiente escolar, o que a motivou a buscar formação na área da educação especial.

A minha luta é com as escolas. Eu tenho muita dificuldade; meu filho passou por três escolas e só não foi para uma quarta porque ele vai ter que passar o ano que vem, porque vai até o nono. Então, com a dificuldade que me apresentou tudo isso, eu sou pedagoga há 25 anos. Hoje em dia eu não pratico, mas, por causa dele, eu fiz mais de seis pós-graduações. Eu sou hoje educadora especial, sou psicopedagoga, neuropsicopedagoga e, entre outras — conta.

Ela também chama atenção para as dificuldades enfrentadas no ambiente escolar e a falta de preparo para lidar com alunos atípicos.

Entrei em depressão porque, na realidade, os professores e a direção não têm amor à camisa, pelo que eu vi nas três escolas em que trabalhei. Então, nisso a gente vai lutando, vai correndo atrás e não quero parar nisso só, quero fazer muito mais coisa — complementa.

Para ela, é fundamental que as pessoas reconheçam as particularidades, sem deixar de enxergar a humanidade das crianças e adolescentes.

Eu gostaria muito que as pessoas percebessem a nossa realidade, porque não é a mesma realidade delas; é uma luta constante, não é simplesmente um dia como o dia de hoje, que com certeza é muito importante, e acabou. Não, é todos os dias para nós e pelo resto da nossa vida. Eu quero que elas vejam que nós lutamos pelo filho da gente e pelos filhos dos outros também, porque a gente sente na pele e a gente quer ajudar o próximo. Então, o mais importante é eles saberem que os nossos filhos são normais também. E só tem um pequeno diferencial cada um, como todos temos — finaliza.

As cestas com diversos utensílios, como doces, panos de pratos, chaveiros e, entre outros, que estavam na sua banca foram feitas por Roberta e sua mãe.Foto: Maria Eduarda Silva

Durante a tarde, a programação também contou com diversos momentos recreativos voltados às crianças, ampliando as atividades de inclusão ao longo do evento.


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