Madrugada na fila: a rotina de quem depende da saúde pública em Santa Maria

Madrugada na fila: a rotina de quem depende da saúde pública em Santa Maria

Foto: Pablo Iglesias (Diário)

Dados da Secretaria de Saúde de Santa Maria mostram que a procura por atendimento está concentrada em sete unidades do município. Entre março de 2025 e março de 2026, os maiores volumes foram registrados na UBS Kennedy, no Norte da cidade (27,5 mil atendimentos), UBS Wilson Paulo Noal, Zona Leste (22,5 mil), UBS José Erasmo Crossetti, Centro (18,8 mil), UBS Rubem Noal, região Oeste (18,3 mil), ESF Roberto Binato, também na Zona Oeste (15,8 mil) e UBS Centro Social Urbano, região Centro-Norte (15,7 mil).


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Para compreender como esses dados se refletem no dia a dia, a reportagem percorreu três unidades de saúde. Na prática, o cenário revela dificuldades enfrentadas por quem depende do sistema público. Ainda nas primeiras horas da manhã de quinta-feira (23), por volta das 6h30min, cerca de 50 pessoas já formavam fila em frente à Policlínica José Erasmo Crossetti, aguardando a distribuição de fichas, prevista para as 7h30min.


A primeira da fila era a aposentada Cleci Hoppe, acompanhada do marido. Ela chegou por volta das 5h para tentar garantir atendimento odontológico.

— Não deveria ser assim. A gente precisa mudar toda a rotina para vir cedo e, mesmo assim, corre o risco de não ser atendido. Mas não temos muita escolha — relata


Logo atrás, Georgia Moreira, aguardava uma ficha para vacinação e comentou as condições enfrentadas por quem espera.


— Quem vem até aqui não está bem, vem porque precisa. E muitas vezes enfrenta chuva, frio ou calor. Poderia ter mais dignidade — 


Mais ao fundo da fila, a cozinheira Veria Maria Flores, buscava uma consulta médica. Moradora da área atendida pela UBS Dom Antônio Reis, atualmente em reforma, ela precisa recorrer temporariamente à policlínica central em busca de atendimento.

— Já cansei de vir e não conseguir ficha. Às vezes dá certo, às vezes não. Ainda é muito precário, mas a gente precisa — 


Pacientes formam filas desde as primeiras horas da manhã para garantir atendimento


Na UBS Rubem Noal, no Bairro Tancredo Neves, a realidade não foi diferente. Três minutos após o início do atendimento, às 7h33min, já não havia mais fichas disponíveis para consultas médicas. A sala de espera reunia mais de 50 pessoas. Quem chegou depois precisou voltar para casa e tentar novamente no dia seguinte. A maioria era de idosos. Serviços como vacinação e farmácia seguiam normalmente, mas a orientação no balcão era direta: “para acolhimento, é preciso chegar bem cedo”.


Entre os casos acompanhados, o de Giselaina da Silva, chama atenção. Ela chegou por volta das 4h da manhã e conseguiu ficha, mas apenas para atendimento à tarde.

— Precisei dormir durante o dia para conseguir passar a madrugada na fila. E, mesmo assim, o atendimento ficou para a tarde. É revoltante — desabafa


Outra situação envolveu Eva Maria Rodrigues, que chegou à unidade com dores abdominais intensas, possivelmente relacionadas a uma crise de vesícula. Inicialmente, ela procurou atendimento no Hospital Regional e foi orientada a se dirigir para a UBS. De tanto esperar, teve o quadro agravado e chegou a desmaiar enquanto aguardava atendimento.

— É muito triste precisar de atendimento e enfrentar essa demora. Quem está doente tem pressa — relata a filha


Na Policlínica Ruben Noal, as fichas de atendimento acabaram em três minutosFoto: Pablo Iglesias (Diário)


O cenário observado nas unidades evidencia um sistema que opera no limite, onde o acesso ao atendimento básico se torna uma incerteza se transforma em um desafio diário, marcado pela necessidade de madrugar, enfrentar condições adversas e conviver com a insegurança de não conseguir assistência quando mais precisa.


De acordo com a Secretaria de Saúde municipal, a Atenção Primária realizou cerca de 360 mil consultas entre março de 2025 e março de 2026, uma média de 30 mil atendimentos mensais. O município, ainda de acordo com a prefeitura, conta com aproximadamente 89 médicos e mais de 60 enfermeiros atuando nesse nível, além de técnicos de enfermagem presentes nas equipes.





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