
Celebrado em 4 de fevereiro, o Dia Mundial de Combate ao Câncer busca conscientizar sobre a doença, estimulando a prevenção e o diagnóstico precoce. Em uma sala da Associação de Apoio a Pessoas com Câncer (Aapecan) de Santa Maria, a autônoma Cristiane da Silva Maciel (foto acima), 45 anos, aguarda por atendimento. O local passou a fazer parte da rotina após começar o tratamento contra um câncer de mama em março de 2024.
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Ao Diário, Cristiane falou sobre a busca pelo diagnóstico:
– Eu já vinha sentindo uma dor no seio há uns três meses, mas achava que era no coração porque sou uma pessoa muito agitada e ativa. Em novembro de 2023, eu estava em um ritmo intenso de trabalho para poder sair de férias com a minha filha em fevereiro de 2024. Em março de 2024, voltei das férias e a dor continuava. Foi quando senti um carocinho em cima do seio. Marquei uma ginecologista para o dia 8 de março, Dia da Mulher. Ela pediu mamografia e ultrassom. O resultado saiu por volta do dia 15 de março e ela confirmou que era câncer, encaminhando para a biópsia. A biópsia concluiu que era um câncer grau 5, altamente maligno. Minha cabeça deu uma “pane”.
Em abril do mesmo ano, Cristiane começou o tratamento contra o câncer de mama no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). Em meio ao processo, que envolveu quimioterapia e cirurgia, ela conheceu o trabalho da Aapecan.
– Minha irmã me incentivou a ir para a Aapecan. No começo, fui resistente, mas acabei indo em setembro daquele ano. Eu sentia muita angústia e dor no corpo. E na Aapecan, fui acolhida com amor e empatia. Comecei a fazer terapia com a psicóloga e massagem terapêutica. Eles também me ajudaram com cestas básicas, já que como autônoma fiquei sem renda, e até com sutiãs especiais. Foi muito bom conhecer o trabalho deles. Hoje, completa um ano da minha primeira cirurgia e estou em remissão – afirmou Cristiane, sorrindo.
Ao lado da filha, Maria Eduarda, 13 anos, Cristiane manda uma mensagem para quem está lutando contra o câncer:
– Às mulheres, peço que façam a mamografia a partir dos 40 anos, pelo menos uma vez por ano. É preciso cuidar da alimentação, fazer exercícios e cuidar das emoções, pois o estresse crônico derruba a imunidade e abre espaço para células doentes. Não se desesperem e não fiquem ouvindo tudo ou lendo no Google. Cada corpo é um corpo. É importante ter uma rede de apoio e entender que o paciente oncológico nem sempre estará bem, e isso não é frescura, é o corpo reagindo ao tratamento agressivo. Graças a Deus, hoje estou curada e venci meus medos. E vocês também irão conseguir.

Aapecan
Fundada em 2006, a Aapecan Santa Maria conta com mais de 3,6 mil cadastros, sendo que 297 permanecem ativos hoje. A faixa etária dos usuários é de 2 a 85 anos. A sede localizada na Avenida Borges de Medeiros, 1897, é referência para pessoas de mais de 35 municípios. Para ser acolhido, é necessário realizar um cadastro, no qual são solicitados alguns documentos: RG, CPF, cartão do SUS, laudo médico (CID), comprovantes de endereço e de renda. Durante esse processo, é realizada uma avaliação pelo Serviço Social da instituição, que identifica as necessidades do usuário.
No local, os usuários contam com assistente social, psicóloga, nutricionista, apoio jurídico e serviço de acolhimento provisório, além de grupo de apoio psicológico, reiki, estética paliativa e oficinas de geração de renda para os usuários. Todos os serviços são gratuitos.

– Hoje, a demanda na Aapecan, em Santa Maria e região, é crescente e extremamente significativa. Observamos um fluxo contínuo de pessoas que, além de enfrentarem o difícil diagnóstico e tratamento do câncer, lidam com desafios sociais, emocionais e financeiros. Para muitas dessas famílias, a Aapecan não é apenas um suporte: é um porto seguro, um alicerce fundamental. Essa intensa demanda reflete a realidade da saúde pública e evidencia a necessidade de um suporte humanizado e abrangente, que o terceiro setor se esforça para proporcionar com qualidade. É um desafio diário, mas também uma enorme motivação para continuarmos buscando parceiros e recursos que nos permitam ampliar nossa capacidade de ajudar – afirma o coordenador regional da Aapecan, Leandro Campos (foto acima).
A Aapecan Santa Maria funciona de segunda a quinta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 18h, e às sextas-feiras, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Para mais informações, entre em contato pelo telefone/WhatsApp (55) 3025-9400 ou pelas redes sociais @aapecanrs e site aapecan.org.br.

Centro de Apoio
Outra entidade importante é o Centro de Apoio à Criança com Câncer (CACC), que há 30 anos acolhe crianças e adolescentes de zero a 21 anos em tratamento oncológico no Husm. Segundo a gestora social da entidade, Dânia Amaral de Lima Oliveira, atualmente, 107 pacientes são atendidos pelo local. Os usuários são de Santa Maria, Uruguaiana, Alegrete, Erechim, Santa Rosa, entre outros municípios gaúchos.
– Os acolhidos e seus acompanhantes são encaminhados pelo serviço social do Husm para nós. Aqui no CACC, oferecemos alimentação, hospedagem, apoio psicossocial e transporte gratuitamente durante todo tratamento – conta Dânia (foto abaixo).
A parte administrativa do CACC funciona de segunda a sexta, das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h. Já a casa permanece aberta 24h por dia, sem fechar aos finais de semana. O objetivo, conforme Dânia, é acolher a todos.
– A demanda tem crescido ano a ano, pois as cidades têm encaminhado mais pacientes para o Husm para se fazer o diagnóstico. Neste contexto, o trabalho do CACC é de extrema importância, pois as famílias chegam em Santa Maria sem um local para ficar e encontram aqui uma casa gratuita e de qualidade. Somos uma grande família em busca da cura, uns apoiando os outros em todos os momentos – concluiu a gestora.
A instituição está localizada na Rua Erly de Almeida Lima, 365, Bairro Camobi. Para saber mais sobre o CACC, entre em contato pelo telefone (55) 3226-4949.

Cenário atual e a importância da prevenção
Criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), a data também traz um alerta sobre o atual cenário. A OMS estima que a incidência de novos casos de câncer no mundo passará de 20 milhões em 2022 para 35,3 milhões em 2050. No Brasil, o número de novos casos pode chegar a 1,150 milhão neste período.
Em entrevista ao Diário, o cirurgião oncológico e membro do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Ricardo Pedrini Cruz, falou sobre a complexidade das neoplasias e os desafios da saúde pública brasileira. Segundo o médico, "o câncer é um crescimento de células desordenada", em que a célula passa a se multiplicar sem respeitar os parâmetros estabelecidos pelo corpo. Essa multiplicação ocorre de forma "desenfreada", com a propriedade adicional de invadir tecidos vizinhos e mandar células para outras partes do organismo. O diagnóstico precoce, segundo Cruz, esbarra na ausência de sinais claros em estágios iniciais:
– Cada neoplasia tem suas particularidades. De forma geral, o paciente pode suspeitar de algo ao palpar uma tumoração, como um nódulo na mama, ou ao notar sangramentos anômalos, como após a menopausa. Alterações no hábito intestinal, como prisão de ventre súbita, podem sugerir câncer de cólon e reto. A dor também ocorre quando o tumor invade nervos. O desafio que temos hoje é que tumores iniciais, geralmente, não apresentam sintomas. Quando eles surgem, a doença costuma estar em estágio avançado, o que pode dificultar um tratamento curativo completo.
Com relação aos fatores de risco globais, o médico afirma que o mais conhecido é o tabagismo, devido aos mais de 8 mil carcinógenos presentes na fumaça do cigarro, que estimulam mutações celulares. A obesidade e os alimentos ultraprocessados também são apontados como um "problema sério de saúde pública", pois gera estímulos metabólicos e endócrinos que favorecem o surgimento de tumores. Um fenômeno que preocupa o especialista é o aumento da incidência de câncer entre pessoas jovens.
– Tenho observado um aumento de câncer entre jovens, o que é paradoxal, sugerindo que estamos nos expondo a carcinógenos mais cedo ou de forma mais concentrada. Fatores modernos como o uso de Teflon, garrafas PET e a liberação de dioxinas pelos plásticos também podem estar correlacionados, mas ainda carecem de mais estudos – afirma Cruz (foto abaixo).

No campo dos tratamentos, a grande aposta atual é a imunoterapia, que Cruz acredita poder ser "o divisor de águas no tratamento oncológico" ao utilizar a imunidade do próprio paciente para combater as células cancerígenas. Ele também cita o desenvolvimento experimental de vacinas contra o câncer. Além das inovações, o arsenal terapêutico inclui quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e cirurgia, sendo que "o primeiro quimioterápico foi desenvolvido em 1948" e, desde então, o conhecimento evoluiu exponencialmente. O avanço nos exames de imagem também auxilia a evitar "tratamentos fúteis", identificando casos onde procedimentos agressivos não trariam benefícios reais ao tempo de vida do paciente.
Sobre o cenário brasileiro, o médico ressalta a importância de datas como o Dia Mundial de Combate ao Câncer para gerar discussões, mas defende que o país precisa de "dados nacionais precisos" para atuar na prevenção.
– Cuidar da alimentação e do peso, não fumar, praticar exercícios e realizar os exames de rastreio indicados, como mamografia e colonoscopia. Isso tudo diminui o risco ou permite identificar a doença em estágios iniciais, exigindo tratamentos menos agressivos. Falo sobre isso sempre não apenas em datas específicas. Datas são importantes para suscitar discussões, mas o Brasil precisa converter isso em dados nacionais precisos. Sem dados, é difícil planejar investimentos em saúde pública ou entender as variações regionais dos tumores. Precisamos de um sistema único de notificação para que o governo possa alocar recursos de forma inteligente – concluiu Cruz.