Nos últimos anos, campanhas de conscientização sobre saúde mental se multiplicaram em escolas, universidades e redes sociais. A proposta é positiva: reduzir estigma, aumentar informação e estimular busca por ajuda. Mas será que só existem benefícios? Uma revisão ampla conduzida por Lucy Foulkes, publicada na Nature Reviews Psychology em 2026, mostra que a realidade é mais complexa. Há evidências de que campanhas melhoram conhecimento e reduzem preconceito. No entanto, alguns estudos sugerem outros efeitos: maior tendência ao autodiagnóstico, ampliação do uso de termos psiquiátricos e perda do seu sentido e, em certos contextos escolares, até aumento de sintomas de depressão e ansiedade. O ponto não é parar de falar sobre saúde mental, mas falar melhor. Mensagens direcionadas a públicos em risco, que diferenciem sofrimento comum de transtornos clínicos e que ofereçam caminhos claros de apoio, parecem ser mais úteis do que discursos amplos e universais que podem gerar hipervigilância ou rótulos excessivos, aumentando, no fim das contas, o sofrimento mental
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Celular próprio na infância e adolescência
Hoje, ter um smartphone virou quase um rito de passagem. Nos Estados Unidos, metade das crianças já tem celular próprio aos 11 anos. Mas quais são os efeitos disso na saúde? Um estudo com mais de 10 mil adolescentes, liderado por Ran Barzilay, publicado na revista Pediatrics em 2026, investigou essa questão. Aos 12 anos, jovens que possuíam smartphone apresentaram maior chance de depressão (31% mais risco), obesidade (40% mais risco) e sono insuficiente (62% mais risco) em comparação com aqueles que não tinham. Além disso, quanto mais cedo o celular foi adquirido, maior o risco de obesidade e privação de sono. O estudo não prova que o celular “causa” esses problemas, mas mostra uma associação consistente, mesmo após considerar efeitos de renda, escolaridade dos pais e outros fatores. Para famílias, a decisão sobre quando oferecer um smartphone passa a ter também uma dimensão de saúde.
Talento precoce não garante genialidade adulta
Existe uma crença difundida: quem é excepcional na infância será extraordinário na vida adulta. A ciência recente sugere algo diferente. Uma grande revisão liderada por Arne Güllich, publicada na revista Science em 2025, analisou dados de mais de 34 mil atletas, músicos, cientistas e jogadores de xadrez de elite mundial. O resultado surpreende: cerca de 90% dos jovens considerados “excepcionais” não são os mesmos que atingem o topo absoluto na fase adulta. E muitos dos que chegam ao mais alto nível não eram prodígios precoces. Outro achado chama atenção: desempenho extremo na vida adulta está associado a início mais gradual, maior variedade de experiências e prática multidisciplinar na juventude – e não apenas especialização precoce intensa. Isso desafia modelos que apostam exclusivamente em seleção e treinamento intensivo desde cedo. Desenvolver potencial parece ser menos sobre acelerar ao máximo na infância e mais sobre explorar, aprender amplamente e amadurecer ao longo do tempo.