Foto: Arquivo Pessoal
A artista visual santa-mariense Rusha Silva esteve presente na capital do Egito, Cairo, onde participou da exposição internacional Something Else, realizada de 5 a 26 de fevereiro no espaço cultural Bayt Al Sinnari.
+ Receba as principais notícias de Santa Maria e região no seu WhatsApp
Moradora da Vila Resistência, ocupação urbana de luta por moradia e vida digna localizada na Zona Oeste da cidade, a artista apresenta três obras na mostra, reafirmando a potência da arte negra produzida na periferia do Rio Grande do Sul em diálogo com um circuito global.
A mostra dá continuidade ao simpósio realizado no ano passado e retoma o tema da “emancipação”, reunindo artistas e curadores de diferentes partes do mundo. A proposta é questionar como a arte pode ajudar a ir além de verdades herdadas e imaginar novas formas de pensar, promovendo diálogo direto entre artistas e público.
Para Rusha, estar em Cairo – ou Kemet, como faz questão de nomear – representa mais do que um marco profissional.
– Estar aqui é a materialização de um sonho que por muito tempo pareceu distante demais da minha realidade. Sempre sonhei em pisar no Egito, em Kemet, nesse território que é berço da humanidade, fonte de ancestralidade, conhecimento e potência negra. Mas esse era um desejo que parecia inalcançável para alguém que vem de onde eu venho – afirma.
Ela destaca que a conquista é simbólica e coletiva:
– É sobre afirmar que o nosso povo pode sonhar. Que mulheres negras, periféricas e artistas que constroem suas trajetórias em contextos de resistência podem atravessar fronteiras sem abrir mão das próprias raízes.
O brincar como gesto político

A participação de Rusha na exposição surgiu a partir do convite da curadora brasileira Mariana Sesma, que assina um dos núcleos da mostra ao lado de Monica Hirano. A edição deste ano propõe reflexões sobre emancipação e liberdade, tendo o “brincar” como eixo curatorial.
Segundo Rusha, esse conceito dialoga diretamente com sua pesquisa.
– A partir das minhas pinturas e colagens, busco reflorestar o imaginário do nosso povo negro, devolvendo imagens de alegria, cuidado, pertencimento e ancestralidade viva, onde antes havia imagens de apagamento e desumanização. O brincar, no meu trabalho, é gesto de liberdade – explica.
Para ela, imaginar é também criar novos mundos possíveis:
– A arte pode abrir fissuras nas estruturas rígidas da realidade e nos permitir sonhar com outros futuros, mais justos, afetivos e coletivos.
Crianças negras como força geradora de esperança

Na exposição, Rusha apresenta três obras em formato de bandeira. As peças têm como ponto central crianças negras como força geradora de esperança.
– São crianças semeando mundos com as próprias mãos. Busco acionar encontros de cura, força e encantamento. Encantar como gesto político, para lembrarmos da grandeza dos modos negros de existir e para reativar memórias, cantigas e saberes transmitidos no corpo e na oralidade que o colonialismo tentou silenciar – diz.
Uma das obras integra a série Gigantes e retrata Eloísa, criança da Vila Resistência, arteira, alegre e corajosa. O projeto nasceu com o objetivo de fortalecer a identidade e a autoestima das crianças do território.
– Onde eu estiver, a Vila Resistência vai estar comigo. Ela me nutre de memória, força, afeto e coragem – afirma.
Da Vila Resistência ao circuito internacional
A trajetória da artista é atravessada pela vivência na ocupação da Vila Resistência e pela luta por moradia. Foi nesse contexto que sua produção ganhou contornos políticos e comunitários.
Durante a graduação em Artes Visuais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Rusha passou a questionar a ausência de referências negras na história da arte ensinada nas instituições.
– Essa lacuna foi um grande impulso para compreender a urgência de criar imagens e narrativas sobre o nosso pertencer a partir de uma perspectiva contracolonial – explica.
Estar no Egito, segundo ela, também é um reencontro com a ancestralidade.
– É entender que nossa produção artística dialoga com uma linhagem antiga de criação, invenção e sabedoria, muito anterior às narrativas coloniais.
Política pública viabilizou a participação

A presença de Rusha na exposição foi viabilizada por meio do Programa de Intercâmbio Cultural – Edital de Mobilidade Cultural MinC nº 1/2024, da Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura.
– Se não fosse essa política pública comprometida com a valorização e a mobilidade de artistas brasileiros, eu simplesmente não estaria aqui – afirma.
Para a artista, iniciativas como essa são fundamentais para democratizar o acesso a oportunidades no campo das artes, especialmente para artistas de territórios periféricos.
– Investir em cultura é investir em diversidade, memória, identidade e futuro. Que cada vez mais possamos ampliar iniciativas como essa, para que mais artistas brasileiras possam circular e afirmar a potência da nossa cultura.
Leia mais:
Artista visual Rusha tem trabalho em destaque nas redes sociais
Artista visual Rusha terá obra em exposição no Rio de Janeiro a partir de quarta-feira